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Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Hoje viajamos à mais estranha fronteira da Europa e passamos ainda por uma das mais pequenas fronteiras do mundo, aqui bem perto.

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Qual é a mais estranha fronteira da Europa?
Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Hoje viajamos à mais estranha fronteira da Europa e passamos ainda por uma das mais pequenas fronteiras do mundo, aqui bem perto. Sim, falo de Gibraltar.

Marco Neves

(1) Fronteira no meio do (2) café

Mas antes de Gibraltar, vamos à tal estranha fronteira. Falo da fronteira entre a Bélgica e a Holanda, na zona de Baarle. A linha que divide os países tem este aspecto:

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?
Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Sim, os dois tons de amarelo representam os dois países. Temos enclaves belgas na Holanda. Depois, temos enclaves holandeses dentro de enclaves belgas. Tudo bem misturado, como se a fronteira tivesse sido recortada num jardim-escola por um miúdo que ainda não sabe usar a tesoura.

Esta estranha confusão cria situações curiosas: a fronteira passa e rodopia, sem lógica, pelos passeios desta interessante cidade e divide supermercados ao meio e atravessa cafés daqueles bem europeus, em que o cliente, sentado na Bélgica, pede uma cerveja ao empregado que está na Holanda — e este lá atravessa a fronteira de copo na mão.

A quem pagam impostos? Não faço ideia. Que língua falam? Falam todos neerlandês, pois então: flamengos dum lado, holandeses do outro.

As pessoas vivem entre os dois países e pisam a fronteira — e até a usam como atracção turística. A fronteira existe, está ali bem marcada, mas divide pouco. Foi nesta Europa que vivemos nos últimos anos…

(3) Linhas e (4) rochedos

Mas não nos enganemos. As fronteiras são linhas lixadas. Mesmo uma das mais pequenas fronteiras do mundo, ali a dividir o Reino de Espanha da rocha mais britânica da Península Ibérica, está a tornar-se numa dor de cabeça.

Para nós, é a fronteira “a sério” que podemos visitar com mais facilidade. Não é preciso esperar pelo Brexit para ter de abrandar e até, se os guardas estiverem para aí virados, mostrar o que levamos no carro.

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?
Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

É uma fronteira pequeníssima: tem menos de dois quilómetros. É uma fronteira vigiada, bem marcada, que entra pelo mar. E é uma fronteira, vejam bem, entre dois Estados que estão dentro da União Europeia.

Um deles vai sair — e basta essa notícia para reaparecerem à superfície dos tablóides as velhas guerras europeias, com conversas de guerra e gestos de alçar de peito à imagem de dois galos que se enfrentam.

E, não nos esqueçamos, a rivalidade entre Espanha e Inglaterra é antiga, com histórias que já incluíram invencíveis armadas derrotadas e lutas que tiveram uma grande influência na nossa própria independência.

As fronteiras, mesmo quando já são fantasmas no meio dum café, às vezes voltam e com força. Aliás, até os flamengos, que ali em Baarle se misturam com holandeses como se não fosse nada, mais a sul tentam sublinhar a diferença com os valões, numa fronteira que não divide países, mas divide vontades.

Mas há mais fronteiras para lá destas marcações no chão.

(5) Estocolmo e (6) São Petersburgo

Estocolmo e São Petersburgo são cidades relativamente próximas. E, no entanto, a diferença de tratamento entre os dois ataques na nossa imprensa e nas nossas reacções mostra uma outra fronteira, difícil de definir e provavelmente bem mais significativa que a fronteira entre a Bélgica e a Holanda num café.

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?
Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Sim, muitos portugueses sentiram o ataque a Estocolmo de forma mais próxima do que o ataque a São Petersburgo. Não pensem que me estou a lamentar. Claro que podemos sempre imaginar um mundo perfeitinho em que uma morte no Japão provoca a mesma reacção num lisboeta que uma morte no Bairro Alto. Mas o mundo não é assim.

Por exemplo, tenho dois amigos em Estocolmo e no momento em que soube do ataque pensei neles e quis saber se estavam bem. Em São Petersburgo, não tenho ninguém.

É a multiplicação de relações pessoais e de visitas que cria a familiaridade com os sítios que sofrem estes ataques — é assim que criamos esta fronteira entre os espaços que vemos como nossos e aqueles que estão longe.

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?
Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Apesar de tudo, parece-me que essa fronteira (que é, de qualquer forma, bem mais difusa que as verdadeiras fronteiras) está a alargar-se. Este alargamento é uma boa notícia, mas também nos leva a esta sensação ofegante de estarmos a ser atacados — sim, nós próprios — quase todos os dias.

De repente, sentimos como se o nosso bairro sofresse ataques todas as semanas. Aliás, mesmo o ataque a São Petersburgo, na distante Rússia, já me apareceu no Facebook pelas vozes de amigos meus que têm amigos na Rússia e sentiram o ataque como próximo.

(7) Conversas por cima das fronteiras

O mundo aproxima-se de nós todos os dias — diria até que o mundo cai em cima de nós todos os dias.

E este mundo é também o mundo que oscila entre o gosto de olhar para as fronteiras como relíquias que pisamos de forma despreocupada — e a outra necessidade mais escondida de voltar a desenhar o risco no chão com mais força, de marcar território, de nos dividirmos para nos sentirmos seguros num espaço nosso (perguntem aos eleitores britânicos).

O que fazer perante estes dois mundos que agora se confrontam com mais força do que a esquerda e a direita?

Bem, não sei dizer, mas o que não podemos fazer é deixar de conversar, sem medo, num qualquer café — mesmo se, ao olharmos para baixo da mesa, encontrarmos uma qualquer fronteira a passar entre os nossos pés.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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