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Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras

Sabe de onde vem a palavra pê-u-tê-a? Esta é a história do "asneiredo" nacional. Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras.

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Foda-se:

A expressão foda-se não é recente. O Novo Dicionário de Calão de Afonso Praça, editado em 2001, cita a forma fosga-se, uma interjeição alternativa e menos grosseira para foda-se. Para Clotilde Almeida, isto significa que a palavra já existe há bastante tempo, pois até “já foram cunhadas formas alternativas da mesma que se encontram dicionarizadas”.

José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, uma das poucas obras dedicadas à etimologia portuguesa, refere que o verbo foder — do qual provém a palavra foda-se — vem do latim futere, que significa ter relações sexuais com uma mulher. Ainda de acordo com José Pedro Machado, o termo aparece em textos desde o século XII, não se sabendo ao certo quando terá sido cunhado.

Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras
Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras

“Trata-se de uma expressão de desagrado que é bem portuguesa”, explicou Clotilde Almeida. Através de um processo de redução e de supressão, a palavra foda-se passou a (fo)dasse, mantendo o sentido original. Foi também a partir de foda-se que surgiram as formas fosga-sefosca-se ou fónix, que querem dizer exatamente a mesma coisa. Estas foram criadas para suavizar (e ocultar) o sentido original do palavrão.

Afinal, o que é que os palavrões têm de tão especial que não conseguimos parar de os dizer?

A dificuldade em produzir ou compreender palavras ou frases pode ocorrer devido a uma lesão no lado esquerdo do cérebro, a zona responsável pela comunicação oral e pelos movimentos do lado direito do corpo. Apesar disso, quando uma lesão destas acontece, esta raramente afeta a reprodução de palavrões. Para alguns cientistas, isto pode querer dizer que este tipo de palavras está ligado a uma outra área do cérebro — a das emoções.

É o sistema límbico, uma zona escondida no interior do cérebro, que é responsável pelas emoções básicas, pelos impulsos e por alguns aspetos da aprendizagem. E os palavrões têm uma forte componente emocional — são “uma forma de aliviar o stress e de transmitir o que sentimos aos outros”, explicou ao Observador o psicólogo Timothy Jay.

Mas não é apenas nas alturas mais complicadas que os palavrões surgem. Estes também podem ser uma maneira de “sermos engraçados, de procurarmos a coesão social ou de nos sentirmos inseridos”, salientou o especialista em palavrões.

É por estas razões que alguns investigadores acreditam que as asneiras podem estar mais ligadas à expressão de emoções do que à articulação de uma ideia, o que pode explicar o facto de a sua produção não ser afetada por lesões no lado esquerdo do cérebro. Para além disso, são também uma espécie de discurso automático e, muitas vezes, são ditas sem nenhum motivo em especial, servindo para preencher o espaço que existe em duas ideias diferentes.

Para além de servirem para expressar emoções, Richard Stephens, professor de Psicologia na Universidade de Keele e vencedor de um Ig Nobel, acredita que as palavras “feias” também são uma “resposta natural à dor” e podem mesmo ajudar a suportá-la. “Todos sabemos que as pessoas dizem palavrões quando estão a sofrer. Eu e os meus alunos questionamo-nos se dizer palavrões ajudaria a aliviar a dor. E parece que ajuda”, disse o psicólogo britânico ao Observador.

Para comprovar a teoria, Stephens pediu a vários voluntários que pusessem uma mão dentro de um balde com água gelada e que aguentassem o máximo de tempo possível. O grupo de voluntários ao qual foi permitido dizer palavrões conseguiu ter a mão mais tempo dentro de água do que o grupo ao qual apenas foi permitido dizer palavras neutras.

“Dizer asneiras ajuda as pessoas a tolerarem mais facilmente a dor”, garantiu Richard Stephens. E “temos informação por publicar que mostra que as pessoas recebem uma maior dose de alívio com palavrões fortes do que com palavrões fracos“.

“Dizer asneiras ajuda as pessoas a tolerarem mais facilmente a dor.”

Richard Stephens, psicólogo e vencedor de um Ig Nobel

Mas o efeito anestésico das asneiras pode desaparecer se o seu uso for constante. “As pessoas que dizem mais palavrões diariamente recebem menos benefícios com a experiência. Parece que é possível tornar-se habituado aos palavrões, de tal modo que o seu efeito emocional desaparece. Esta é uma boa razão para não dizer muitas asneiras todos os dias — guarde-as para quando precisar delas!

(cont.)

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