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Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras

Sabe de onde vem a palavra pê-u-tê-a? Esta é a história do "asneiredo" nacional. Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras.

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Na Idade Média, usar o nome de Deus ou de Cristo de forma blasfema era como usar o pior dos palavrões. “Acreditava-se que isso deixava Deus furioso e que era visto como uma forma muito de discurso muito negativa”, explicou Melissa Mohr. “Jurar pelas partes do corpo de Cristo — pelas unhas de Deus, pelas chagas de Cristo, etc. — era particularmente mau, porque se acreditava que esses juramentos podiam magoar fisicamente o corpo de Cristo, que estava no Céu, sentado à direita de Deus.”

Foi também durante a época medieval que surgiram expressões como vai para o diabo, em parte devido à superstição existente em torno de determinadas palavras (como é o caso de diabo). Para a autora norte-americana, porém, não é apenas uma questão de religião. O surgimento dos chamados palavrões “religiosos” está também relacionado com a definição de tabu e de privacidade que existia na altura.

“O corpo humano não era uma coisa negativa no período medieval e, por isso, não existiam palavrões sobre ele. O que era importante, porém, era Deus, manter o seu nome e a sua reputação a salvo.”

Melissa Mohr, especialista em literatura medieval

Porém, com o passar do tempo, as “asneiras religiosas” foram perdendo o seu valor expressivo, à medida que a sociedade se ia tornando cada vez mais secularizada. Mas, se por um lado, isto fez como que as “asneiras religiosas se tornassem menos poderosas”, por outro, fez com que os falantes criassem expressões novas.

“Ao mesmo tempo que a secularização se ia estabelecendo, os palavrões religiosos iam-se tornando menos poderosos e os falantes criativos iam-nas substituindo por palavras que tinham o mesmo grau de influência afetiva, de acordo com as sensibilidades da altura”, explicou o psicólogo norte-americano.

É assim que se explica o aparecimento de formas como foda-se e de outros palavrões ligados à sexualidade e ao corpo humano. Nos tempos que correm, estes são, sem dúvida, os mais populares. Veja aqui a origem de alguns deles:

Puta:

Rafael Bluteau, no dicionário Vocabulario Portugues e Latino, editado em 1712, explica que puta chegou a ser “um vocábulo honestíssimo”, sinónimo de “moça puríssima e limpa”. Por corrupção, a palavra terá passado a significar prostituta, de modo a “encobrir a fealdade do vocábulo meretriz ou de outro igualmente feio”.

Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras
Palavrão a palavrão: de onde vieram as asneiras

De acordo com o autor, a definição moderna de puta terá surgido através de uma corrupção da língua, um processo linguístico que consiste na mudança de significado de uma palavra. Originalmente, na base de puta, estaria a palavra putos, um adjetivo latino para puro ou brilhante. Uma outra hipótese, referida por outros autores, é a de que o palavrão se trata de uma derivação do verbo putere que, em latim, significa estar deteriorado ou cheirar mal.

Os antigos romanos tinham também por hábito chamar lobas às prostitutas. O termo terá dado origem à palavra lupanar, usada ainda hoje para descrever um bordel ou uma casa de prostituição. É por esta razão que, segundo Bluteau, alguns estudiosos defendiam que os gémeos Rómulo e Remo, personagens da mitologia romana, não foram criados por uma loba, mas sim por uma prostituta.

(cont.)

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