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O palácio lisboeta destruído após o escândalo da amante do rei

O Palácio dos Duques de Aveiro foi arrasado após a condenação do duque pelo atentado a D. José I. Conheça o Chão Salgado e a história de Belém.

Sara Costa Por Sara Costa
06/10/2026
em Curiosidades, História de Portugal, Histórias, Notícias
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O palácio lisboeta destruído após o escândalo da amante do rei

O palácio lisboeta destruído após o escândalo da amante do rei

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Há histórias de Lisboa que parecem ter saído de um romance histórico. Esta é uma delas.

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Em Belém, muito perto do Tejo e dos Jerónimos, existiu outrora um palácio pertencente a uma das famílias mais poderosas da aristocracia portuguesa. Era uma residência associada a riqueza, estatuto e influência. Hoje, porém, o palácio desapareceu completamente.

No seu lugar ficou uma memória quase fantasmagórica: uma coluna de pedra e um nome que atravessou os séculos — Chão Salgado.

O desaparecimento do Palácio dos Duques de Aveiro está ligado a um dos episódios mais dramáticos do reinado de D. José I: o atentado contra o rei, ocorrido na noite de 3 de setembro de 1758, e o processo que se seguiu contra membros das famílias Távora e Aveiro.

E existe ainda uma circunstância que torna esta história particularmente intrigante.

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Na noite do atentado, D. José I regressava de um encontro com Teresa de Távora, Marquesa de Távora, uma relação que fazia parte da vida privada do monarca e que ficou inevitavelmente associada à narrativa posterior do caso.

Mas a destruição do palácio não aconteceu simplesmente “por causa da amante do rei”. Foi consequência da condenação do Duque de Aveiro pela sua alegada participação no atentado contra D. José I. A própria documentação patrimonial de Lisboa estabelece essa relação.

E foi assim que um dos palácios aristocráticos de Belém acabou arrasado, confiscado e transformado num símbolo de punição.

O palácio que foi destruído por causa da amante do Rei
O palácio lisboeta destruído após o escândalo da amante do rei

O luxuoso palácio que existiu em Belém

É difícil imaginar a atual Belém sem os seus monumentos, jardins, avenidas e multidões de visitantes. Mas a Belém dos séculos XVII e XVIII era muito diferente. A proximidade do Tejo, do Mosteiro dos Jerónimos e das quintas pertencentes a famílias abastadas transformou a zona num espaço particularmente apetecido pela aristocracia.

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Foi nesse ambiente que se destacou a Casa de Aveiro. O Palácio dos Duques de Aveiro era uma das propriedades associadas a uma família que ocupava uma posição elevada na sociedade portuguesa. A Casa de Aveiro descendia de D. Jorge de Lencastre, filho ilegítimo de D. João II, e acumulou ao longo das gerações títulos, património e influência. O palácio em Belém representava precisamente essa posição. Não era apenas uma casa. Era uma declaração de poder.

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Leia também:
  • Beco do Chão Salgado: o lugar de Lisboa marcado pela execução dos Távoras
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  • Palácio do Rei do Lixo: a história e os mistérios do estranho castelo abandonado de Coina

 

Uma família poderosa junto ao Tejo

Ao longo do século XVIII, Belém tornou-se cada vez mais ligada à presença das elites da sociedade portuguesa.

As propriedades aristocráticas ocupavam espaços privilegiados e o contacto com a corte aumentava o valor simbólico das residências.

O Palácio dos Duques de Aveiro encontrava-se nesse universo.

A dimensão e o prestígio da propriedade eram expressão da importância da família, num período em que a arquitetura residencial era também uma forma de afirmar estatuto social.

Ali se cruzavam os mundos da aristocracia, da corte e da diplomacia.

O palácio fazia parte de uma Lisboa onde a proximidade do rei podia significar poder, influência e proteção.

Mas essa mesma proximidade podia tornar uma família particularmente vulnerável quando as relações com a Coroa se deterioravam.

A noite de 3 de setembro de 1758

Tudo mudou na noite de 3 de setembro de 1758.

D. José I regressava de uma deslocação quando a carruagem real foi atacada a tiro.

O rei sobreviveu.

O atentado, porém, provocou uma enorme crise política e desencadeou uma investigação que viria a atingir algumas das famílias mais poderosas do reino.

Entre os acusados encontrava-se D. José de Mascarenhas da Silva e Lencastre, Duque de Aveiro.

Também membros da poderosa família Távora foram acusados de envolvimento.

A partir desse momento, a história do palácio ficou ligada a um dos processos mais conhecidos e controversos da história portuguesa.

O Processo dos Távoras.

A amante do rei e o escândalo que abalou a corte

É precisamente aqui que surge a parte mais conhecida — e também mais delicada — desta história.

D. José I mantinha uma relação amorosa com Teresa de Távora, mulher do Marquês de Távora.

Na noite do atentado, o rei regressava de um encontro com ela.

O facto tornou-se inevitavelmente associado à narrativa do atentado, sobretudo porque os suspeitos pertenciam à própria família Távora.

Mas é importante não transformar essa circunstância numa explicação simplista.

A relação amorosa do rei não constitui, por si só, a causa da destruição do palácio dos Aveiro.

O que está documentado é que o Duque de Aveiro foi condenado pela sua alegada participação no atentado e que, na sequência dessa condenação, as suas casas em Belém foram confiscadas, arrasadas e o terreno foi simbolicamente salgado.

É essa sequência que dá origem à história.

O Processo dos Távoras

Depois do atentado, a investigação avançou rapidamente.

Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, desempenhava então um papel central no governo de D. José I.

As suspeitas recaíram sobre membros da família Távora, o Duque de Aveiro e outras pessoas consideradas envolvidas na conspiração.

O processo terminou com condenações à morte.

A Torre do Tombo conserva documentação relativa ao processo e à execução dos condenados. Segundo o Arquivo Nacional, a sentença final foi proferida em 12 de janeiro de 1759 e as execuções ocorreram no dia seguinte. Entre os executados encontrava-se D. José de Mascarenhas, Duque de Aveiro.

O episódio marcou profundamente a sociedade portuguesa.

A 13 de janeiro de 1759, em Belém, foram executados vários dos acusados.

O Duque de Aveiro estava entre eles.

A poderosa família que durante gerações tinha ocupado um lugar privilegiado na sociedade portuguesa estava prestes a perder praticamente tudo.

O fim do Duque de Aveiro

O destino de D. José de Mascarenhas foi particularmente brutal.

A sentença retirou-lhe os títulos e honras e determinou a sua execução.

A Torre do Tombo conserva inclusive documentação relacionada com a sentença proferida contra o Duque de Aveiro e outros fidalgos.

A partir daí, a Coroa tratou também de eliminar os sinais materiais associados à casa condenada.

E foi então que o magnífico palácio de Belém entrou na história.

O palácio foi confiscado e arrasado

O Palácio dos Duques de Aveiro foi confiscado e destruído.

O Arquivo Municipal de Lisboa explica que o palácio, situado precisamente no local onde hoje existe o Beco do Chão Salgado, foi confiscado, arrasado e o chão simbolicamente salgado após a condenação do Duque de Aveiro.

A descrição patrimonial da Memória do Chão Salgado é ainda mais explícita: o monumento foi levantado aquando da destruição do palácio do duque, pela sua alegada participação no atentado contra D. José I, e o terreno foi então simbolicamente salgado.

Não se tratava, portanto, de uma simples demolição.

Era uma punição transformada em paisagem.

Porque é que o chão foi salgado?

O gesto de salgar o terreno tinha um enorme significado simbólico.

A intenção era marcar aquele espaço como “infame”, associado à condenação do Duque de Aveiro.

A própria inscrição da coluna memorial explica que as casas foram arrasadas e salgadas e que naquele terreno não deveria voltar a construir-se.

A mensagem era inequívoca.

A casa desapareceria.

O nome da família seria desonrado.

E o próprio terreno deveria permanecer como testemunho da condenação.

Foi assim que nasceu o nome Chão Salgado.

Uma coluna para que ninguém esquecesse

A destruição do palácio não significou o desaparecimento completo da memória.

No local foi erguida uma coluna de pedra, conhecida como Memória do Chão Salgado.

É um monumento relativamente discreto, mas carregado de simbolismo.

A coluna é cilíndrica, assenta sobre um plinto e termina numa pira. Ao seu redor encontram-se anéis de pedra associados aos membros da família envolvidos na conjura.

A inscrição colocada no monumento explica a razão da destruição das casas e recorda a sentença contra D. José de Mascarenhas.

É, na prática, uma espécie de documento gravado em pedra.

Onde existiu um palácio, ficou uma coluna.

Onde existiram jardins e salões, ficou o chão.

E onde viveu uma família poderosa, ficou uma memória de condenação.

Cinco anéis que guardam uma história

Um dos detalhes mais curiosos da coluna do Chão Salgado são os seus anéis.

A descrição patrimonial oficial indica que os anéis são alusivos aos cinco membros daquela família que participaram na conjura.

O monumento não foi pensado como uma homenagem no sentido moderno.

Foi concebido como uma marca pública da punição.

Hoje, porém, a passagem do tempo alterou inevitavelmente o significado do lugar.

Para quem conhece a história, a coluna deixou de ser apenas um instrumento de condenação.

Transformou-se num dos raros vestígios materiais de um episódio extraordinário da história de Lisboa.

A memória que sobreviveu à destruição

Existe uma ironia profunda nesta história.

A intenção original era apagar a presença da família Aveiro daquele espaço.

O palácio foi destruído.

O terreno foi salgado.

A construção foi proibida.

Mas a memória acabou por sobreviver.

O Beco do Chão Salgado continua a recordar aquilo que aconteceu.

A coluna continua de pé.

E o nome do Duque de Aveiro permanece ligado ao local.

A tentativa de apagar uma família acabou, séculos depois, por transformar o seu antigo espaço numa espécie de memorial histórico.

Quando D. Maria I mudou o destino do lugar

A proibição de construção naquele terreno não durou para sempre.

O Arquivo Municipal de Lisboa refere que o Beco do Chão Salgado acabou por voltar a integrar a vida urbana durante o reinado de D. Maria I, depois de deixar de ser respeitada a proibição de construir no espaço.

A cidade continuou a crescer.

Novas casas surgiram.

A paisagem mudou.

E a antiga propriedade dos Aveiro desapareceu progressivamente da memória quotidiana.

Mas a coluna permaneceu como uma espécie de testemunha silenciosa.

O palácio que desapareceu de Belém

É difícil imaginar que, no local onde hoje existe um espaço urbano relativamente discreto, tenha existido uma residência associada a uma das grandes casas nobres portuguesas.

O contraste é impressionante.

De um lado, o esplendor.

Jardins, riqueza, poder e proximidade da corte.

Do outro, a ruína.

Confisco, condenação, demolição e chão salgado.

Poucos episódios ilustram tão bem a fragilidade do poder aristocrático no Portugal do século XVIII.

Uma família podia parecer intocável num determinado momento.

E, poucos meses depois, podia perder títulos, propriedades, património e até a própria existência pública.

A história por detrás do Chão Salgado

Hoje, Belém é sobretudo conhecida pelos seus grandes monumentos.

O Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos atraem visitantes de todo o mundo.

Mas existe uma outra história escondida nas ruas da zona.

Uma história de conspiração, aristocracia, poder régio e punição.

O Chão Salgado é uma dessas pequenas peças da cidade que ajudam a reconstruir uma Lisboa desaparecida.

Quem passa pelo local pode ver apenas uma coluna.

Quem conhece a história vê outra coisa.

Vê o lugar onde existiu uma casa poderosa.

Vê o cenário de uma condenação.

E vê a tentativa de transformar a própria terra numa sentença.

Foi realmente destruído “por causa da amante do rei”?

Esta é provavelmente a pergunta que mais curiosidade desperta.

A resposta exige alguma cautela.

Não é rigoroso afirmar que o palácio foi destruído simplesmente porque D. José I tinha uma amante.

A sequência histórica documentada é outra.

O rei foi alvo de um atentado em setembro de 1758.

O Duque de Aveiro foi acusado de envolvimento.

Foi condenado em janeiro de 1759.

As suas propriedades foram confiscadas.

O palácio de Belém foi arrasado.

E o terreno foi simbolicamente salgado.

A ligação à Marquesa de Távora torna a narrativa mais dramática porque o atentado aconteceu quando o rei regressava de um encontro amoroso com ela.

Mas a destruição do palácio está historicamente ligada à condenação do Duque de Aveiro pelo atentado, e não simplesmente ao facto de Teresa de Távora ser amante do monarca.

É precisamente esta distinção que permite contar a história de forma simultaneamente apelativa e rigorosa.

O outro Palácio dos Duques de Aveiro ainda existe

Há ainda uma curiosidade que pode evitar alguma confusão.

Existe outro Palácio dos Duques de Aveiro, em Vila Nogueira de Azeitão, no concelho de Setúbal.

Esse edifício continua de pé e está classificado como Imóvel de Interesse Público. Foi construído entre 1520 e 1523 e está associado à primeira geração dos Duques de Aveiro.

O palácio de Belém, pelo contrário, desapareceu no século XVIII.

Esta distinção é importante porque muitas referências atuais ao “Palácio dos Duques de Aveiro” dizem respeito ao edifício de Azeitão.

O palácio que deu origem ao Chão Salgado é o de Belém.

Uma das histórias mais sombrias de Lisboa

Há lugares que impressionam pela beleza.

Outros impressionam pela história.

O Chão Salgado pertence à segunda categoria.

Não há ali um grande palácio para visitar.

Não existem salões luxuosos nem jardins aristocráticos.

Existe apenas uma coluna.

Mas talvez seja precisamente isso que torna o local tão poderoso.

A coluna é tudo o que resta de uma história que envolveu um rei, uma amante, uma poderosa família aristocrática, um atentado, um julgamento, execuções e uma punição destinada a durar para sempre.

O palácio desapareceu.

A família caiu.

O terreno foi salgado.

Mas a história resistiu.

Uma coluna, um chão e uma história que não morreu

O antigo Palácio dos Duques de Aveiro é hoje um exemplo extraordinário de como Lisboa guarda histórias escondidas à vista de todos.

Durante o século XVIII, aquele lugar simbolizava o poder de uma das mais importantes casas nobres portuguesas.

Em 1759, transformou-se num símbolo da queda dessa mesma família.

A coluna do Chão Salgado permanece como testemunho material dessa transformação.

E talvez exista uma ironia impossível de ignorar.

Tentaram apagar o palácio da paisagem de Lisboa.

Tentaram condenar o terreno.

Tentaram transformar a memória da família numa marca de infâmia.

Mas, quase três séculos depois, o nome continua a ser procurado, a história continua a ser contada e a coluna continua a despertar curiosidade.

O palácio desapareceu.

A memória, essa, não desapareceu.

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Etiquetas: beco do chão salgadoChão SalgadoChão Salgado Belémpalácio destruído Lisboapalácio destruído por D. José Ipalácio dos duques de aveiroPalácio dos Duques de Aveiro BelémPalácio dos Duques de Aveiro Lisboa
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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