Há lugares onde o passado não se limita a sobreviver nos livros. Permanece gravado na pedra, escondido sob os nossos pés, à espera de ser descoberto. Em Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, no distrito da Guarda, existe um desses lugares extraordinários: uma necrópole rupestre com cerca de 780 sepulturas escavadas no granito, considerada a maior coleção de sepulturas antropomórficas deste género na Península Ibérica.
À primeira vista, esta pequena povoação do interior de Portugal parece guardar apenas o encanto das aldeias antigas, com casas de pedra, ruas tranquilas e monumentos que resistiram à passagem do tempo.
Mas, junto à Igreja de Santa Marinha, a história ganha uma dimensão surpreendente. Sob a superfície rochosa encontra-se um enorme espaço funerário que ajuda a compreender como viviam, morriam e enterravam os seus mortos as comunidades de outras épocas.
A descoberta transformou Moreira de Rei num local de particular interesse para arqueólogos, historiadores e visitantes que procuram conhecer o património menos conhecido de Portugal.

Onde fica a necrópole de Moreira de Rei?
A necrópole localiza-se na aldeia de Moreira de Rei, a cerca de 7,5 quilómetros da cidade de Trancoso, no distrito da Guarda.
O conjunto arqueológico desenvolve-se em torno da Igreja de Santa Marinha e da respetiva envolvente histórica. É precisamente esta integração na paisagem urbana que torna o lugar tão singular: as sepulturas encontram-se entre edifícios antigos, espaços públicos e casas da povoação, revelando como diferentes épocas se sobrepuseram no mesmo território.
A visita permite descobrir não apenas uma necrópole de dimensões invulgares, mas também uma povoação com um passado medieval importante, testemunhado pelas ruínas do castelo, pela igreja e pelo pelourinho.
Moreira de Rei tem a maior necrópole da Península Ibérica?
A dimensão do conjunto funerário é impressionante. As escavações arqueológicas permitiram identificar cerca de 780 sepulturas antropomórficas escavadas predominantemente no substrato granítico, um número muito superior às aproximadamente 150 que eram conhecidas antes da intervenção arqueológica.
Os trabalhos começaram em 2018, no âmbito de um projeto de requalificação e valorização da área envolvente à Igreja de Santa Marinha. À medida que os arqueólogos estudaram o terreno, tornou-se evidente que o espaço funerário se prolongava muito para além da área inicialmente reconhecida.
A descoberta revelou um património de importância excecional para o estudo dos enterramentos medievais na Península Ibérica. Mais do que o número de sepulturas, o conjunto permite observar a organização de um espaço funerário utilizado por várias gerações.

O que são as sepulturas antropomórficas?
O termo «antropomórfico» significa que apresenta uma forma semelhante à do corpo humano. Neste caso, refere-se a sepulturas escavadas na rocha, algumas com um contorno que acompanha a cabeça, o tronco e os membros da pessoa que ali foi sepultada.
Estas cavidades eram abertas diretamente nos afloramentos graníticos, num trabalho que exigia esforço e conhecimento das características da pedra. As sepulturas apresentam diferenças de dimensão e configuração, existindo exemplos associados a adultos e crianças.
A necrópole de Moreira de Rei constitui um testemunho importante das práticas funerárias das comunidades que habitaram esta região durante a Alta Idade Média e os séculos seguintes. Os estudos situam a utilização do espaço, em termos gerais, entre os séculos VIII-IX e XII-XIII, tendo sido posteriormente integrado na evolução do cemitério paroquial.
Cada sepultura representa uma vida que terminou há muitos séculos. Em conjunto, estas estruturas revelam a dimensão de uma comunidade antiga e levantam perguntas sobre a sua organização social, os seus costumes e a sua relação com a morte.
Como foi descoberta uma necrópole tão grande?
A existência de sepulturas junto à Igreja de Santa Marinha já era conhecida localmente. Contudo, a dimensão real do conjunto permaneceu durante muito tempo por esclarecer.
Antes das escavações, eram conhecidas cerca de 150 sepulturas dispersas pela área. A intervenção arqueológica iniciada em 2018 permitiu estudar o largo e os terrenos envolventes, revelando centenas de outras estruturas funerárias.
Os investigadores identificaram também vestígios de restos humanos em algumas sepulturas. A sua conservação constituiu um desafio, uma vez que os ossos se encontravam sujeitos às condições ambientais e nem sempre estavam em bom estado. O trabalho exigiu limpeza, registo e análise cuidadosos, essenciais para preservar a informação científica.
A investigação demonstrou, assim, que o espaço funerário era muito mais vasto do que se imaginava. Uma área aparentemente comum da aldeia revelou-se um arquivo histórico gravado na pedra.
As sepulturas continuam todas à vista?
Não. Apesar de terem sido identificadas cerca de 780 sepulturas, não é possível observar atualmente o conjunto completo.
A exposição prolongada às condições meteorológicas poderia colocar em risco a conservação das estruturas. Por esse motivo, grande parte das sepulturas foi novamente coberta, permanecendo à vista cerca de 170, selecionadas pelo seu estado de conservação, segundo a informação divulgada aquando da abertura do centro interpretativo.
Esta decisão permite conciliar a valorização turística com a proteção do património arqueológico. Embora possa parecer surpreendente descobrir que muitas sepulturas voltaram a ficar soterradas, a conservação é essencial para que os vestígios possam continuar a ser estudados e preservados para as gerações futuras.
O centro interpretativo já abriu ao público
A necrópole ganhou uma nova forma de valorização com a inauguração do Centro Interpretativo da Necrópole de Moreira de Rei, em 12 de julho de 2026, instalado na antiga Igreja de Santa Marinha.
O espaço foi criado para contextualizar a descoberta e explicar a evolução do lugar funerário ao longo dos séculos. Através de informação histórica e científica, os visitantes podem compreender melhor os enterramentos, os vestígios identificados e a importância deste património para o conhecimento das comunidades medievais.
Segundo a informação publicada na altura da inauguração, o centro pode ser visitado de terça-feira a domingo. Antes de viajar, recomenda-se confirmar os horários e as condições de acesso junto do município ou da Junta de Freguesia de Moreira de Rei.
O que visitar em Moreira de Rei além da necrópole?
A visita à necrópole pode ser complementada por um percurso pelo património histórico da aldeia.
Castelo de Moreira de Rei: as ruínas da antiga fortaleza encontram-se num cabeço rochoso conhecido como Poio. A posição elevada e a ligação entre a construção e a própria rocha tornam este local particularmente interessante para compreender o aproveitamento defensivo da paisagem.
Igreja de Santa Marinha: é um dos elementos centrais do conjunto patrimonial. O templo apresenta características românicas, com elementos arquitetónicos que testemunham a longa história religiosa da povoação.
Pelourinho manuelino: situado na povoação, recorda a antiga importância administrativa de Moreira de Rei, que foi vila e sede de concelho. A sua construção está associada ao foral novo atribuído em 1512.
Entre ruas de pedra, construções antigas e vestígios de outras épocas, vale a pena percorrer a aldeia sem pressa e descobrir como o seu património se integrou na vida quotidiana.
Porque se chama Moreira de Rei?
O nome da povoação está ligado a D. Sancho II, o monarca português que, depois de ser afastado do trono, seguiu para o exílio em Toledo. Segundo a tradição histórica local, Moreira acolheu o rei durante esse percurso, tendo também decorrido no território negociações relacionadas com a sua situação política.
Esta ligação à história da monarquia portuguesa reforça a importância da aldeia, que reúne vestígios de vários períodos e uma identidade construída ao longo de séculos.
Vídeo de: Beira Alta TV
Uma descoberta que revela a história escondida de Portugal
Moreira de Rei é a prova de que alguns dos maiores tesouros patrimoniais não se encontram necessariamente nas cidades mais conhecidas ou nos monumentos mais visitados.
Junto à Igreja de Santa Marinha, cerca de 780 sepulturas escavadas no granito revelaram a dimensão de um espaço funerário que durante séculos permaneceu apenas parcialmente conhecido. Hoje, a investigação arqueológica e o centro interpretativo ajudam a compreender melhor a importância desta herança.
Visitar esta aldeia é encontrar um Portugal profundo, onde a história não desapareceu: permaneceu gravada na pedra, à espera de ser compreendida. E poucas imagens são tão poderosas como a de um lugar tranquilo onde cada sepultura recorda que, muito antes de nós, outras pessoas viveram, trabalharam, amaram e encontraram ali a sua última morada.




