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Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Palavras e expressões que tiveram o azar de irritar, um belo dia, esta ou aquela pessoa. «A gente» e os erros falsos de português.

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«A gente» e os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Ainda hoje (9 de Dezembro de 2016) andou pela RTP não sei quem a espalhar que a expressão correcta é apenas e só «mal e pArcamente». Porquê? Porque é essa a suposta origem da expressão «mal e porcamente». Vai daí, temos de manter a pureza dessa donzela.

Logo, «mal e porcamente» é erro. Como soube disto? Porque vi, no Facebook, loas a quem assim nos ensinava bom português. Ah, o que dizer? Talvez isto: como em todas as áreas, o desconhecimento deixa-nos indefesos perante ideias erradas.

Mais: queremos à força respeitar a língua e sentimo-nos bem quando alguém nos parece ensinar alguma coisa. Tanto que nos deixamos levar por quem inventa erros, sem ter o trabalho de ler e ouvir com respeito os escritores e bons conversadores da nossa língua — que dizem «mal e porcamente» desde há muito.

Aliás, é difícil encontrar alguma obra ou página ou pessoa que diga «mal e pArcamente», excepto em obras, páginas ou pessoas que insistem em mudar a língua à força. Isto sabem o que é? Falta de respeito pela boa língua portuguesa, uma língua que tem essa excelente expressão: «mal e pOrcamente».

«A gente» e os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Sim, há quem corrija «não há nada» para «há nada». Razões? Se só temos uma negativa lógica, só podemos ter uma palavra que exprima essa negativa. Deita-se assim ao mar o funcionamento da negativa em português — e, diga-se, em muitas línguas latinas. Sim, nós dizemos «não há nenhum» com o sentido de negação única, dizemos «não há nada na sala» para dizer que a sala está vazia, etc.

O inglês funciona de maneira diferente? Bem, o inglês-padrão, sim. Mas, e depois? Quanto aos medos relacionados com a lógica, repare-se como o nosso cérebro interpreta bem a frase «Não há nada que não me aconteça!» como significando «Acontece-me de tudo!» Sim, uma coisa é a lógica do pensamento, outra é o número de palavras que a nossa sintaxe nos obriga a usar para expressar uma negativa. Ler também aqui.

«A gente» e os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Sim, é uma expressão fixa, que significa algo como «parece que». No entanto, há quem diga que só o singular é lógico: «pelo visto». Ora, por essa lógica dizer «sempre vens hoje?» também parece pouco lógico: não é sempre, é só hoje; não é «pelos vistos», porque não há plural. Ora, habituem-se: a língua portuguesa tem esta expressão fixa e dificilmente a matam, que me parece estar aqui para as curvas. Ou para a curva.

«Para além disso» - os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Ainda há pouco tempo li quem quisesse banir esta expressão. Porquê? Porque é uma redundância. Ah, o medo! E, no entanto, a redundância é uma das características essenciais das línguas humanas. Sem ela, não seria possível comunicar. (Tento explicar isso neste artigo.) Pois bem, o que propunha quem proibia «para além disso»?

Estas duas expressões, supostamente mais correctas: «além de» ou «para lá de». Mas porquê? Porquê? Se a segunda destas expressões até tem o mesmo número de palavras… Será uma questão de número de caracteres? Mas então?… Temos mesmo de escrever em forma de telegrama, com o menor número de caracteres possível? Ou o problema será existirem várias expressões para dizer a mesma coisa?

Querem mesmo uma língua ali no osso, só com as palavras essenciais e mais nenhuma? Camões nunca teria escrito Os Lusíadas se a nossa língua fosse essa espécie de matemática aterradora em que só podemos ter uma expressão para cada significado e sempre a expressão mais pequena possível… Enfim, «para além disso» teve o azar de servir como exemplo para o tal medo da redundância. Vai daí, aparece num artigo qualquer sobre «erros». Resultado? Nada: ninguém fica a escrever melhor por evitar esta boa expressão.

«Queria um café, por favor.» - os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Ui, a velha piada que tantas vezes se ouve: afinal, uma pessoa se quer um copo de água agora não devia dizer «queria», no passado, certo? Errado. Muito errado. Os tempos verbais têm usos mais complicados do que parece à primeira vista. O pretérito imperfeito também serve para expressar cortesia. É o imperfeito de cortesia.

Ah, sim, eu sei, esta frase é dita quase sempre em tom de gozo. É uma brincadeira. Pode ser: mas uma vez por outra lá encontramos casos de pessoas que acreditam piamente na brincadeira. E, para dizer a verdade, a falta de fundamento desta crítica é exactamente do mesmo tipo dos outros erros falsos.

«Saudades tuas» - os erros falsos de português
Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Sim, há quem insista em «saudades de ti» como única opção correcta. Porquê? Não consigo vislumbrar razões, mas presumo que seja porque «tuas» significa posse e as saudades não são da pessoa que está longe, mas de quem as sente. Depois, como há quem não admita a existência de duas construções diferentes com o mesmo significado, optam pela que lhes parece mais lógica. Será isso?

Ora, só temos de perceber isto: em todos os registos, os portugueses usam «saudades tuas» e «saudades de ti», preferindo uma ou outra por razões de ritmo, de gosto ou por causa do vento. O resto são lógicas externas à língua, que — se fôssemos acreditar nelas — nos deixariam a língua mais pobre.

Perguntas e respostas

«O que são erros falsos?»

São construções ou palavras que uma grande maioria de falantes usa em situações perfeitamente adequadas e, mesmo assim, são condenadas por algumas pessoas, com base em justificações que pouco têm que ver com o funcionamento da língua.

Os erros falsos podem também ser chamados de «hipercorrecções». As hipercorrecções aparecem, em geral, por desconhecimento do funcionamento da língua e também por razões de insegurança linguística.

(cont.)

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