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A origem extraterrestre da língua portuguesa

Há palavras de origem árabe? Falamos árabe! Há umas quantas de origem grega! A nossa língua é grego puro! A origem extraterrestre da língua portuguesa.

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A origem extraterrestre da língua portuguesa
A origem extraterrestre da língua portuguesa

A origem extraterrestre da língua portuguesa

Há palavras de origem árabe? Falamos árabe! Há umas quantas de origem grega! A nossa língua é grego puro! A origem extraterrestre da língua portuguesa.

Marco Neves
Marco Neves

Há pouco, deparei com mais um texto com uma teoria da conspiração delirante (de que já aqui tinha falado, aliás, neste artigo). Segundo o autor, o português vem do grego antigo e a ideia de que falamos uma língua latina nasceu com os românticos — e desde então tem enganado gerações e gerações…

Provas? Coisas como a palavra «palavra» ter origem no nome da deusa Pala (é mentira: a palavra «palavra» vem da «parabola» latina) e outras parecenças dessas, circunstanciais, aleatórias… É o tipo de pensamento nebuloso, embrulhado num discurso de aparência coerente e informada, que nos deu tantos e tantos erros e delirantes edifícios intelectuais ao longo da história.

No que toca à nossa língua, estas teorias existem para todos os gostos: o português veio do fenício, veio do árabe, veio do grego, veio disto ou daquilo…

Que tantos e tantos estudiosos tenham acumulado toda uma história complexa e ainda não terminada do caminho que a nossa língua percorreu do latim popular até ao português de hoje em dia, passando pelos séculos em que o português e o galego não se distinguiam — nada disso interessa!

Há umas quantas palavras de origem árabe? Falamos árabe! Há umas quantas palavras de origem grega! A nossa língua é grego puro!

E, claro, como bons teóricos da conspiração, os factos que apresentamos só reforçam as ideias delirantes dos donos das verdades alternativas.

Deve ter a ver com um qualquer mecanismo cerebral, talvez a propensão humana para explicar tudo através de narrativas pessoais: gostamos mais de pensar que somos um herói intelectual num mundo de gente enganada ou enganadora do que passar pelo trabalho de aprender o que já se sabe e, talvez, com o nosso esforço, deixar mais uma pedrinha nessa construção colectiva que é o conhecimento humano.

Sim, eu sei que o progresso do conhecimento humano exige estarmos sempre a pôr em causa o que sabemos: mas pôr em causa não é inventar por inventar — pôr em causa é testar o que sabemos, ou seja, contrariar propositadamente o que pensamos, mas de forma honesta e, acima de tudo, sem ignorar os factos que estão em cima da mesa.

As teorias com que explicamos o mundo testam-se e melhoram-se, não se descartam com um gesto displicente. Se alguma delas se revelar errada, não a devemos substituir por outra que explica ainda menos do que a anterior e contraria quase tudo o que sabemos.

Aliás, os cientistas sabem que se provarem que uma teoria reinante está errada ficarão famosos: mas essa prova não se faz mandando umas larachas.

Faz-se com trabalho, investigação e cautela. Pouquíssimos são os que conseguem porque a verdade é que aquilo que sabemos depois de séculos de pesquisas costuma aguentar-se à bronca. A Terra nunca mais voltou a ser plana.

A nossa língua continua latina… E as teorias da conspiração continuarão a existir enquanto existirem seres humanos!

A história verdadeira da língua é tão interessante: não é preciso inventar um universo alternativo. Até porque, para inventar por inventar, bem podíamos dizer que falamos uma língua extraterrestre.

Basta reparar que não sabemos a origem dumas quantas palavras e, a partir daí, explicar ao mundo que o português só pode ser do planeta Xénon. Bem, é melhor estar calado…

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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