O delito de não ter opinião

"Comentadores que tanto estão de manhã a falar sobre política internacional, como de tarde falam de culinária, e à noite de futebol. São os Einsteins da dedução, os Leonardos da invenção, os Nostradamus da previsão."

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Vivemos tempos de informação maciça, em catadupas, e de contrainformação por todos os lados. Desde realidades a boatos, de mentiras a verdades, do “diz que disse” ao “supõe-se que”, até ao incontornável “acho que”. Acho até que, “acho que” deve ser a expressão que mais é repetida nos media. Só comparável àquela pergunta muito imbecil que todos os jornalistas costumam fazer logo que entrevistam alguém, após um acontecimento feliz ou infeliz: “como se sente….?”…

O que é louvável. Num país com défice de médicos de família é sempre bom ter por perto quem se interesse pelo nosso estado de saúde. Mas é do “acho que”, da tal opinião obrigatória e incontornável que toda a gente tem de ter sobre tudo, que aqui venho.

Para se ter uma opinião alicerçada sobre o que quer que seja, é preciso investigar, estudar, esclarecer, ouvir quem sabe, e muita das vezes não se chega a conclusão nenhuma. Mas a sociedade de hoje impõe-nos a obrigatoriedade de sabermos opinar sobre as mais variadas questões num estalar de dedos. E ai de quem arrisque um “não sei”!

Contudo, a complexidade e híper quantidade dos temas que hoje em dia nos fustigam, como se estivéssemos em campo aberto sob chuvada e sem guarda-chuva, não nos deixa alternativa à superficialidade da análise, ou a um sopro de orelha do que ouvimos num café ou no Metro. Só assim conseguimos estar a par dos assuntos do dia. Ou da hora. Ou do minuto.

Por causa desta pressa em tentar assimilar tudo, habituámo-nos a ser pouco exigentes, pouco estudiosos, pouco questionadores. Porque é verdade que o estudo abre mais portas de dúvidas do que janelas de certezas.

Tornamo-nos superficialmente banais porque afloramos os assuntos pela rama. Juntamos ao assunto “o politicamente correcto”, acrescentamos a pimenta de alguma ousadia verbal, levamos tudo ao forno do imediatismo, e aí está a nossa opinião cozinhada. Desde assuntos de vida e morte, até matérias corriqueiras, passando pelas pegajosas escandaleiras cor-de-rosa e os penaltis que foram e não foram, opinamos sobre tudo, sabemos de tudo, somos mestres de tudo.

A sociedade moderna não nos perdoa a ignorância sobre as notícias do mundo. E para contornar a “ignorância” é preciso ter a tal opinião. Seja ela qual for mas, de preferência, que alinhe com a que o padrão geral estabeleceu.

Vivemos num mundo de padrões pré-estabelecidos de que resultam estereótipos misericordiosos, aparentes bem-estares, revoluções envergonhadas, denúncias obsessivas. Nunca vivemos num mundo tão claramente opaco, onde a verdade de tanto se misturar com a mentira acaba por se fundir com ela num híbrido a que chamamos “opinião”.

E a opinião é o que está a dar. Daí que as TVs e os jornais estejam sobrelotados de comentadores. Comentadores que tanto estão de manhã a falar sobre política internacional, como de tarde falam de culinária, e à noite de futebol. São os Einsteins da dedução, os Leonardos da invenção, os Nostradamus da previsão. São os suprassumos da opinião, o exemplo que devemos seguir.

Quem não tiver opinião transforma-se numa espécie de arguido antecipadamente condenado à desconfiança.

Daí, a nova regra social: quem não opina, é de evitar.

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