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Qual é a língua mais estranha do mundo?

Os linguistas e os antropólogos trazem-nos, de vez em quando, notícias de línguas muito estranhas. Afinal, qual é a língua mais estranha do mundo?

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O género da língua

Já quanto ao género… Aquela descrição do género com base na cor é fantasiosa (mas não garanto que não exista nalguma língua perdida num vale da Papua-Nova Guiné). Mas, ao contrário do que sentimos ao falar a nossa língua, o género dos substantivos que usamos não segue qualquer lógica: por que razão havemos de considerar uma mesa como um ser feminino e um banco como um ser masculino? É um pedaço de gramática absolutamente aleatório.

Aleatório e, ouso dizer, inútil — há línguas que passam bem sem um sistema de género, como o inglês, onde há substantivos (e pronomes) que se referem a seres de determinado sexo, mas onde não é preciso atribuir um género aos outros nomes todos. Para um inglês, uma árvore é apenas «a tree» ou «the tree», sem género que se veja ou sinta. É assim no inglês, como noutras línguas. Há línguas com um género, dois géneros, outras com três — a variedade é espantosa. A nossa calhou ter dois.

Disse que o género gramatical é aleatório e há línguas que passam bem sem ele. Que haja esta divisão em português é um problema? Claro que não: as gramáticas das línguas estão a transbordar deste tipo de divisões e subtilezas deliciosas que outras línguas dispensam sem mal — estas arbitrariedades são a própria massa com que se constrói a gramática da língua.

A gramática não é lógica: é uma floresta cheia de esplendorosas árvores de troncos engalfinhados uns nos outros, uma floresta que vem do princípio dos tempos e vai mudando devagar. Uma floresta complexa, de que ninguém tem um mapa completo e que, vejam lá isto bem, todos reconstruímos no nosso cérebro nos primeiros anos da nossa vida. Não apetece partir à aventura?

E aquelas quatro palavrinhas?

Quanto às quatro palavras lá em cima, na verdade, são portuguesas:

  • «Enturmar-se»: um verbo que indica o momento em que começamos a sentir um certo conforto no meio de um grupo de pessoas que não conhecíamos.
  • «Reconciliação»: o momento em que duas pessoas que estavam separadas decidem voltar a juntar-se.
  • «Destrocar»: um verbo que indica a troca de um objecto por objectos de valor inferior que, em conjunto, têm o mesmo valor que o objecto original.
  • «Consumação»: o momento exacto em que um casal numa relação duradoura tem relações sexuais pela primeira vez.

Fui buscar esta ideia de disfarçar algumas palavras europeias com a máscara duma língua distante a um livro de John McWorther (Our Magnificent Bastard Tongue), que fez a mesma malandrice em relação ao inglês. Foi ele que se lembrou de usar o boro como máscara — a razão por que escolheu esta língua e não outra é interessante, mas fica para quem ler o livro.

Foi uma malandrice? Foi, claro. Mas é esta a explicação daquelas listas de palavras exóticas ou «intraduzíveis» que por vezes aparecem por aí: se escolhermos um dos significados da palavra e o explicarmos de maneira esmiuçada, a descrição parecerá incrível e quase intraduzível.

Quando o leitor encontrar uma lista de palavras intraduzíveis, desconfie: provavelmente, cada palavra tem um sentido mais genérico, mas o falante com quem o criador da lista conversou escolheu um sentido particular, porque na vida real as palavras são usadas em frases, com sentidos precisos, e não nos dicionários, onde as definições têm de ser abrangentes.

As palavras são uma espécie de nuvem de significados e só adquirem o sentido preciso em cada frase (às vezes com a ajuda de um gesto ou de um piscar de olho). É assim que todas as línguas funcionam e por isso nenhuma palavra é inteiramente traduzível por outra palavra exacta, mas as frases já são bichos bem mais fáceis de domar nas mãos treinadas do tradutor.

É proibido, mas pode-se dizer

Qual é a língua mais estranha do mundo?
Qual é a língua mais estranha do mundo?

Quanto ao tabu de que falei lá em cima, recai sobre a palavra «destrocar». Tem um sentido preciso, está formada como outras palavras que não desinquietam ninguém («desinquietar», por exemplo), mas o seu uso é tabu em certas situações ou por certas pessoas: é considerada uma palavra incorrecta, demasiado rasteira, um erro que se perpetuou.

Este torcer do nariz em relação a umas palavras e não a outras também acontece em todas as línguas. Confesso: é ilógico, mas é parte do que torna a linguagem humana tão interessante…

Uma nota em relação a esta brincadeira toda: os tempos verbais de que falei acima ou as palavras que enumerei não são exclusivas do português — não é esse o objectivo deste jogo. Foi uma maneira de nos obrigar a olhar com outros olhos para a nossa língua, com tudo o que tem dentro (exclusivo ou nem por isso). É uma forma de começarmos a olhar para o português com olhos de linguista marciano.

O motor da língua

Todas as línguas são estranhas para quem olha para elas pela primeira vez — e todas as línguas são naturalíssimas para quem as aprendeu desde criança. Quando nos esforçamos (é o que os linguistas fazem todos os dias), começamos a ver a nossa língua de fora — e o espanto, para quem tem a coragem de saltar por cima das ideias-feitas e dos medos habituais, é de nos deixar de boca aberta.

Se levantarmos o capot da língua, vemos o motor que o nosso cérebro recriou através do contacto com outros falantes nos primeiros anos de vida.

Como sabemos, há quem se concentre nas pequenas imperfeições desse mecanismo numa cabeça em particular (ou até em imperfeições que não estão lá). Há quem não conheça a complexidade do motor e confunda as suas ideias simplificadas com o funcionamento do mecanismo. Um exemplo? Ainda há dias ouvi alguém a queixar-se do pretérito perfeito composto de que falei acima.

Dizia a pessoa que «se eu tenho disparado» é um erro quando usado no sentido condicional. No entanto, no debate que se seguiu, percebi que a pessoa não sabia que estava perante um tempo verbal legítimo. A ela este tempo composto parecia-lhe apenas o verbo «ter» no presente do indicativo e o verbo «disparar» no particípio — ora, os dois verbos, em conjunto, são mesmo um outro tempo verbal (composto).

Quando queremos saber mais sobre a nossa língua ou sobre a linguagem humana, temos de ser um pouco mais exigentes com nós próprios, menos prontos a disparar sem saber, mais curiosos e espantados. A conjugação verbal portuguesa (para nos atermos só a esse aspecto particular da língua) é muito mais intrincada do que parece.

Mesmo quem a estuda todos os dias tem dúvidas — atrever-me-ia até a dizer que todos os que a estudam de forma aprofundada acabam com mais dúvidas, porque percebem o tamanho da nossa ignorância sobre o tal mecanismo que temos dentro do cérebro.

E, no entanto, espantosamente, usamos esse mecanismo magnífico todos os dias, sem parar e sem pestanejar, à mistura com gestos, com o tom de voz, com a relação particular com a pessoa com quem falamos — as grandes falhas surgem na escrita, uma forma de tentar capturar com manchas no papel as palavras que dizemos nesse espanto que a língua falada.

(Escrever é como falar para um microfone com uma venda nos olhos e as mãos atadas atrás das costas, sem saber quais são as reacções de quem nos ouve. É mais difícil e só muito recentemente a maioria da população aprendeu a lidar com esta outra ferramenta. Passamos a vida a aprender a usá-la como deve ser.)

Na verdade, a língua mais estranha, mais espantosa, mais deslumbrante é a nossa — e todas as outras. Se olharmos de fora, todas as línguas são estranhas. São mecanismos espantosos, criados ao longo de séculos sem que ninguém planeie as suas estruturas ou os recantos intrincados — a complexidade de cada língua nasce da interacção de milhões de falantes; é um sistema feito de hábitos antigos, regras que começam a cristalizar-se e, depois, a desfazer-se, metáforas que se tornam palavras correntes, palavras correntes que se tornam parte da gramática…

Uma mente curiosa não se deixa saciar com umas quantas certezas mal-amanhadas: procura sempre mais. Neste blogue, tento alimentar as mentes curiosas dos meus leitores — ainda havemos de falar mais sobre como mudam as línguas, como se vão recriando, destruindo e construindo continuamente ao longo dos tempos, como nuvens, nuvens de uma beleza estonteante — e que, ainda por cima, nos deixam comunicar uns com os outros ou apenas dizer o que nos vai no corpo.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.

 

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6 COMENTÁRIOS

  1. O estranho é estranho por ser estranho ou somente diferente?
    Digo isso pq o exemplo dado sobre se falar do “futuro do passado” no aqui o exemplo da “revolução”, também existe em nossa língua e é denominado pretérito do futuro.

  2. Bom dia, o meu nome é Anisoara Mateevici, sou romena, vivo na Roménia e há 7 anos comecei a aprender português, ca em casa, sozinha, porque gosto muito dessa língua. Como aprendi sozinha, através dos livros de gramática escritos por professores romenos de língua portuguesa sem tirar nenhum curso, tenho muitas dúvidas, uma delas é: quando se usa “isso” e quando “isto”, as explicações do livro de gramática são básicas. Agradeceria por exclarecer as minhas dúvidas. Com os melhores cumprimentos, Anisoara Mateevici.

  3. Como informação tão importante e oportuna pode ser classificada como “falta de assunto”? Soou grosseiro o comentário, com a devida vênia.

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