Durante dois dias, uma das maiores naus portuguesas da Carreira da Índia combateu contra três navios ingleses ao largo dos Açores. A bordo estavam centenas de pessoas e uma carga de enorme valor, acumulada durante a longa viagem de regresso do Oriente. No fim, um incêndio atingiu o paiol da pólvora, a Cinco Chagas explodiu e desapareceu nas águas do Atlântico. Quatro séculos depois, os seus destroços continuam por localizar.
Uma nau gigantesca carregada de riquezas
Em 1593, a nau Cinco Chagas partiu de Goa com destino a Lisboa. Construída em Baçaim, era uma embarcação de grandes dimensões para os padrões da época e estava integrada na perigosa e lucrativa Carreira da Índia, a ligação marítima que transportava pessoas, mercadorias e riquezas entre o Oriente e Portugal.
A viagem, porém, estava longe de ser normal.
A Cinco Chagas passou por Moçambique, onde acabou por receber parte da carga e pessoas provenientes da nau Nossa Senhora da Nazaré, que já não reunia condições para continuar a viagem. Esse episódio tornou a embarcação ainda mais valiosa e aumentou a quantidade de pessoas que viajavam a bordo. A própria Academia de Marinha salienta que a nau transportava uma carga mais valiosa do que a célebre Madre de Deus, capturada pelos ingleses nos Açores em 1592.
Sob o comando de D. Francisco de Melo Canaveado, a Cinco Chagas atravessou o Atlântico depois de passar pelo cabo da Boa Esperança e por Luanda, onde se abasteceu de água e mantimentos.
Mas havia um problema: quando chegou aos Açores, a viagem ainda não tinha terminado.
E o perigo estava à espreita.
O mar dos Açores era uma armadilha para os navios da Índia
No final do século XVI, os Açores ocupavam uma posição estratégica nas rotas atlânticas. As naus que regressavam da Índia atravessavam estas águas antes de seguirem para a Península Ibérica, tornando o arquipélago num ponto privilegiado para quem procurava interceptar embarcações carregadas de riquezas.
A situação política tornava tudo ainda mais perigoso.
Portugal encontrava-se então integrado na União Ibérica, iniciada em 1580, sob a mesma monarquia dos territórios espanhóis. Ao mesmo tempo, Inglaterra e Espanha estavam em guerra, e os navios portugueses passaram a ser alvos dos corsários ingleses. A atividade de corso nos Açores intensificou-se precisamente porque por aquelas águas passavam algumas das cargas mais valiosas do Atlântico.
A captura da Madre de Deus, em 1592, tinha demonstrado aos ingleses o potencial extraordinário dessas presas.
Dois anos depois, o conde de Cumberland voltou aos mares dos Açores.
O encontro com os ingleses
No dia 22 de junho de 1594, a Cinco Chagas navegava ao sul do canal entre o Pico e o Faial quando foi avistada por três navios ingleses.
Eram o Royal Exchange, o Mayflower e o Sampson, integrados na expedição organizada pelo conde de Cumberland e por mercadores londrinos. Os navios tinham partido de Plymouth em abril e chegaram aos Açores em junho, procurando interceptar embarcações portuguesas e espanholas.
A Cinco Chagas era, contudo, uma presa muito diferente das embarcações que os ingleses habitualmente encontravam.
Era enorme.
E estava carregada.
Os ingleses sabiam que tinham diante de si uma das grandes naus da Carreira da Índia. A batalha que se seguiria ficaria conhecida como Acção do Faial.
Dois dias de combate no meio do Atlântico
O primeiro ataque começou com artilharia e mosquetaria.
A resistência portuguesa foi imediata.
A Royal Exchange foi atingida e teve de se retirar. As outras duas embarcações continuaram a atacar a Cinco Chagas, mas também sofreram danos consideráveis. No dia seguinte, os ingleses reorganizaram as forças e voltaram ao combate.
O que se seguiu foi uma luta brutal.
Durante horas, os navios trocaram tiros de artilharia e mosquetes. Os ingleses tentaram abordar a Cinco Chagas, chegando a prender os seus navios à embarcação portuguesa por diferentes pontos.
Os portugueses resistiram.
Duas tentativas de abordagem foram repelidas e, numa delas, o comandante do Mayflower ficou mortalmente ferido. O combate prolongou-se com mortos e feridos de ambos os lados.
A certa altura, porém, o fogo começou a dominar o campo de batalha.
E esse seria o princípio do fim.
O incêndio que condenou a Cinco Chagas
O fogo alastrou pela Cinco Chagas e tornou-se impossível de controlar.
Os homens tentavam combater as chamas enquanto continuavam sob fogo inimigo. A situação rapidamente se transformou num cenário de desespero.
Com a embarcação em chamas, muitos dos que estavam a bordo começaram a lançar-se ao mar.
Entre eles encontravam-se mulheres e crianças.
O relato histórico compilado pela Academia de Marinha descreve a violência da situação e refere que os ingleses perseguiram náufragos que tentavam escapar. No meio do caos, apenas treze pessoas conseguiram sobreviver. Entre elas estavam dois nobres, Nuno Velho Pereira e Brás Correia, além de marinheiros e escravos.
A tragédia estava, porém, longe do fim.
A explosão que levou o navio para o fundo
Ao anoitecer, o incêndio chegou ao paiol da pólvora.
A explosão destruiu a Cinco Chagas e matou os que ainda permaneciam a bordo. A grande nau que pouco antes resistia a três navios ingleses desapareceu no oceano, levando consigo pessoas, mercadorias e uma carga cujo valor ainda hoje alimenta histórias e especulações.
O episódio tornou-se um dos mais dramáticos da história marítima dos Açores.
A própria Academia de Marinha inclui o combate e a explosão da Cinco Chagas entre os acontecimentos marcantes da história marítima do arquipélago.
Quanto valia o tesouro perdido?
É aqui que a história da Cinco Chagas ganha uma dimensão quase lendária.
Relatos posteriores e estudos sobre o naufrágio referem uma carga extraordinariamente valiosa, incluindo riquezas provenientes da Índia e bens transportados por outros navios que tinham sido incorporados durante a viagem.
Algumas estimativas modernas apontam para valores que, convertidos para os nossos dias, poderiam atingir milhares de milhões de euros. Há fontes que chegaram a calcular valores na ordem das dezenas de milhares de milhões, sobretudo quando são incluídos diamantes, rubis, pérolas e outras pedras preciosas.
Mas é importante fazer uma distinção: não existe uma avaliação histórica consensual que permita afirmar que a Cinco Chagas transportava exatamente 20 mil milhões de euros.
O número tornou-se popular em artigos sobre tesouros submersos, mas deve ser encarado como uma estimativa especulativa e não como um valor comprovado.
Ainda assim, uma coisa parece inequívoca: para os padrões do século XVI, tratava-se de uma carga extraordinariamente valiosa.
Um tesouro que o mar nunca devolveu
Depois da explosão, a Cinco Chagas desapareceu.
Os sobreviventes foram recolhidos pelos ingleses e alguns acabaram por ser desembarcados no Faial. Nuno Velho Pereira e Brás Correia foram levados para Inglaterra, onde permaneceram até serem resgatados cerca de um ano mais tarde.
Mas o verdadeiro segredo ficou no fundo do oceano.
Onde está exatamente a Cinco Chagas?
Essa pergunta continua sem resposta definitiva.
O Museu EXEA, na sua base dedicada aos naufrágios do Atlântico, regista a Cinco Chagas como um naufrágio de 1594 ocorrido nos mares próximos do Faial e indica que a localização e a profundidade dos destroços não estão determinadas.
É precisamente esta ausência de localização confirmada que alimenta o fascínio em torno do naufrágio.
Não existe hoje um ponto no mapa onde se possa afirmar, com segurança, que repousam os restos da grande nau portuguesa.
A Cinco Chagas desapareceu, mas a história ficou
A história da Cinco Chagas é muito mais do que a história de um navio perdido.
É a história de uma época em que o Atlântico era simultaneamente estrada, fronteira e campo de batalha. Por aquelas águas viajavam homens, mercadorias, riquezas e sonhos de um império espalhado por continentes.
A nau saiu de Goa carregada com os frutos de uma das maiores redes comerciais do mundo do século XVI.
Nunca chegou a Lisboa.
Ao largo do Faial, encontrou três navios ingleses, resistiu durante horas, ardeu, explodiu e desapareceu.
No fundo do oceano ficaram os seus restos e, provavelmente, parte da carga que transportava.
Mais de quatro séculos depois, a Cinco Chagas continua a ser um dos grandes mistérios submersos da história marítima portuguesa.
O mar dos Açores guarda, algures nas suas profundezas, não apenas um possível tesouro, mas também a memória de centenas de pessoas que nunca chegaram a ver a costa portuguesa.
E talvez seja precisamente isso que torna este naufrágio tão fascinante: a riqueza pode ter desaparecido, mas a história continua à espera de ser encontrada.
O que aconteceu à Cinco Chagas?
A nau portuguesa partiu de Goa em 1593, passou por Moçambique e Luanda e dirigiu-se para os Açores. Em junho de 1594, foi interceptada por três navios ingleses ao sul do canal entre o Pico e o Faial. Depois de um longo combate, um incêndio atingiu a embarcação e acabou por alcançar o paiol da pólvora. A explosão destruiu a nau e apenas treze pessoas sobreviveram.
Porque era tão valiosa a Cinco Chagas?
A nau transportava uma carga proveniente da Carreira da Índia e tinha recebido pessoas e parte da carga da nau Nossa Senhora da Nazaré, perdida em Moçambique. Segundo a Academia de Marinha, a Cinco Chagas transportava uma carga mais valiosa do que a Madre de Deus, capturada pelos ingleses em 1592.
A Cinco Chagas já foi encontrada?
Não. A localização exata dos destroços permanece indeterminada. A base de naufrágios do Museu EXEA regista o naufrágio nos mares próximos do Faial, mas não apresenta coordenadas ou profundidade confirmadas.
Fontes históricas
Entre as principais referências utilizadas para documentar o episódio encontram-se a obra Histórias Marítimas dos Açores, da Academia de Marinha, que recupera relatos históricos sobre o combate, e fontes históricas como o tratado de Melchior Estácio do Amaral, publicado em 1604.




