Portugal guarda tesouros que despertam admiração além-fronteiras. Entre monumentos históricos, tradições seculares e paisagens de rara beleza, existe um espaço que ocupa um lugar único no património cultural mundial. Trata-se da Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, reconhecida oficialmente pelo Guinness World Records como a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento.
Fundada em 1732, esta emblemática livraria não é apenas um local onde se compram livros. É um verdadeiro testemunho vivo da História de Portugal, um espaço que resistiu a catástrofes, revoluções, mudanças políticas e transformações sociais ao longo de quase três séculos.
Entrar na Bertrand do Chiado é muito mais do que atravessar a porta de uma livraria. É mergulhar numa viagem fascinante através do tempo, da literatura e da identidade cultural portuguesa.

O reconhecimento mundial que colocou Portugal no Guinness World Records
Em 2011, a Livraria Bertrand do Chiado alcançou um feito extraordinário ao ser oficialmente distinguida pelo Guinness World Records como a livraria mais antiga do mundo em atividade.
Esta distinção internacional veio confirmar aquilo que muitos portugueses já sabiam: a Bertrand é muito mais do que uma simples loja de livros. É uma instituição cultural que atravessou séculos sem nunca interromper a sua missão de promover a leitura, a cultura e o conhecimento.
Num mundo em constante transformação, onde muitos negócios históricos desapareceram ao longo das décadas, a longevidade da Bertrand constitui um caso raro e admirável de resistência, adaptação e continuidade.
Onde fica a livraria mais antiga do mundo?
A Bertrand do Chiado encontra-se situada na emblemática Rua Garrett, uma das artérias mais conhecidas e históricas da cidade de Lisboa.
Localizada no coração do Chiado, um dos bairros mais charmosos da capital portuguesa, a livraria integra um cenário urbano profundamente ligado à cultura, à literatura e às artes.
Ao longo dos anos, a zona tornou-se ponto de encontro de escritores, artistas, intelectuais e amantes dos livros, reforçando ainda mais a importância simbólica deste espaço. Hoje, milhares de turistas de todas as nacionalidades visitam a livraria para conhecer de perto um dos recordistas mais especiais do mundo.
Uma história que começou em 1732
A história da Bertrand remonta ao século XVIII, quando Pedro Faure abriu uma pequena livraria na Rua Direita do Loreto, em Lisboa. Poucos anos depois, em 1742, associou-se ao francês Pierre Bertrand, dando início a uma parceria que viria a marcar profundamente a história da empresa.
Em 1747, após o casamento da filha de Pedro Faure com Pierre Bertrand, o negócio passou a designar-se “Pedro Faure e Irmãos Bertrand”. Mais tarde, com a entrada de Jean Joseph Bertrand, irmão de Pierre, a ligação familiar fortaleceu-se ainda mais.
Após a morte de Pedro Faure, em 1753, o estabelecimento passou a ser conhecido simplesmente como “Irmãos Bertrand”, nome que rapidamente ganhou notoriedade no meio literário português.
Sobreviveu ao terramoto que destruiu Lisboa
Apenas dois anos após a mudança de designação, a livraria enfrentou um dos momentos mais dramáticos da sua existência.
No dia 1 de novembro de 1755, Lisboa foi devastada por um dos maiores terramotos da história europeia. O sismo, seguido de incêndios e de um tsunami, destruiu grande parte da cidade e provocou milhares de vítimas.
A livraria não escapou à tragédia e sofreu danos significativos.
Contudo, longe de representar o fim da sua história, este episódio tornou-se uma demonstração da sua extraordinária capacidade de resistência.
Em 1756, a atividade foi retomada junto da Capela de Nossa Senhora das Necessidades, permitindo que a venda de livros continuasse apesar das dificuldades.
Anos mais tarde, após a reconstrução da Baixa Pombalina, a Bertrand regressou à zona do Chiado, onde permanece até aos dias de hoje.

Uma livraria que atravessou séculos de mudanças históricas
Ao longo da sua existência, a Bertrand assistiu a alguns dos acontecimentos mais marcantes da História de Portugal.
Sobreviveu ao terramoto de 1755, atravessou invasões, guerras, mudanças de regime político, a implantação da República, duas guerras mundiais, a entrada de Portugal na União Europeia e a revolução tecnológica que transformou os hábitos de leitura.
Enquanto muitos negócios desapareceram perante as mudanças do tempo, a Bertrand manteve-se firme, preservando a sua essência e continuando a desempenhar um papel fundamental na divulgação da literatura.
Cada parede, cada estante e cada corredor guardam memórias de diferentes épocas da sociedade portuguesa.
Sete salas que contam a história da literatura portuguesa
Uma das características mais fascinantes da Livraria Bertrand do Chiado é a sua organização interior.
O espaço está dividido em sete salas distintas, cada uma dedicada a figuras incontornáveis da literatura e cultura portuguesas.
Ao percorrer estes espaços, os visitantes realizam uma autêntica viagem literária através das obras e dos autores que marcaram gerações.
Entre os escritores homenageados encontram-se:
- Aquilino Ribeiro;
- José Saramago;
- Eça de Queiroz;
- Sophia de Mello Breyner Andresen;
- Alexandre Herculano;
- Almada Negreiros.
Cada sala possui elementos decorativos, painéis informativos e estantes dedicadas às obras dos respetivos autores, proporcionando uma experiência cultural rica e envolvente.

Um ponto de encontro de grandes nomes da cultura portuguesa
A Bertrand do Chiado foi, durante décadas, um dos principais centros de encontro da elite intelectual portuguesa.
Pelas suas salas passaram alguns dos maiores nomes da literatura, da política e do pensamento nacional.
Entre os frequentadores históricos destacam-se figuras como:
- Bocage;
- José Agostinho de Macedo;
- Curvo Semedo.
O espaço acolheu igualmente tertúlias literárias que marcaram a vida cultural portuguesa, reunindo autores influentes e promovendo debates que ajudaram a moldar o pensamento nacional.
A Bertrand foi, durante muito tempo, uma verdadeira incubadora de ideias e movimentos literários.
O Café Bertrand: onde os livros encontram a gastronomia
A experiência da livraria mais antiga do mundo não termina nas estantes.
Atualmente, os visitantes podem também desfrutar do Café Bertrand, um espaço acolhedor e sofisticado que combina literatura, gastronomia e vinhos portugueses.
Com acesso pela livraria ou pela Rua Anchieta, o café apresenta uma carta inspirada em obras literárias, livros de gastronomia, poesia e cultura portuguesa.
O ambiente é enriquecido por um impressionante mural dedicado a Fernando Pessoa, criado pela artista portuguesa Tamara Alves.
A combinação entre livros, arte, gastronomia e história transforma o espaço numa experiência cultural verdadeiramente diferenciadora.
Um símbolo de Portugal reconhecido em todo o mundo
Num país rico em património histórico e cultural, a Livraria Bertrand do Chiado ocupa um lugar especial.
Mais do que um estabelecimento comercial, representa a preservação da memória coletiva, da literatura e da identidade portuguesa.
O seu reconhecimento pelo Guinness World Records não distingue apenas uma livraria. Celebra a capacidade de um país em valorizar a cultura, preservar a sua história e manter vivo um legado que atravessa gerações.
Quase 300 anos depois da sua fundação, a Bertrand continua a inspirar leitores, escritores e visitantes de todo o mundo, provando que os livros permanecem uma das maiores pontes entre o passado, o presente e o futuro.
Informação útil
Morada: Livraria Bertrand – Rua Garrett, 73-75 – Chiado, Lisboa (Portugal)
Horário de Funcionamento: aberta das 9h às 22h, todos os dias.
Mais informações, aqui.




