A ideia de todas as pessoas receberem um cheque mensal de 10 mil dólares – cerca de 8.500 euros – sem condições, soa a utopia. No entanto, para alguns especialistas, esta visão pode deixar de ser ficção e transformar-se numa realidade possível com o avanço imparável da Inteligência Artificial (IA).
Durante anos, líderes tecnológicos e economistas têm debatido o conceito de Rendimento Básico Universal (RBU): um subsídio mensal atribuído a toda a população, pago pelo Estado, sem restrições nem contrapartidas. Um modelo que promete garantir segurança financeira, reduzir desigualdades e oferecer estabilidade perante crises económicas ou disrupções tecnológicas.
Até ao momento, a maior parte das experiências implementadas no mundo não passou de uma versão mais limitada, o chamado Rendimento Básico Garantido (RBG). Nestes programas-piloto, apenas determinados grupos, geralmente em situação de fragilidade socioeconómica, recebem um valor mensal fixo. Os montantes atribuídos têm oscilado entre os 500 e os 1.500 dólares mensais, ou seja, entre 430 e 1.300 euros.
Um dos poucos exemplos mais ambiciosos ocorreu no Reino Unido, em 2023, onde foi testado um pagamento mensal de 1.850 euros a cada participante. Ainda assim, este valor fica muito aquém da visão defendida por Miles Brundage, antigo investigador da OpenAI, que acredita que a era da Inteligência Artificial poderá permitir transferências mensais da ordem dos 10 mil dólares por pessoa, ou seja, 8.500 euros.
A proposta ousada de Miles Brundage
Num texto publicado recentemente na rede X (antigo Twitter), Brundage desafiou decisores políticos a “pensar em grande”. O especialista afirmou que experiências de RBU generosas, muito acima dos valores até agora testados, poderiam transformar radicalmente as sociedades.
“Creio que uma experiência de RBU muito mais generosa do que as que já foram testadas — digamos, 10 mil dólares por mês em vez de mil — mostraria efeitos significativos”, escreveu.
Segundo Brundage, o motor desta possibilidade seria precisamente o crescimento económico exponencial alimentado pela Inteligência Artificial. A criação de riqueza gerada pela automação, pela substituição de funções humanas por máquinas inteligentes e pela produtividade sem precedentes, poderia financiar este modelo aparentemente impensável.
“Mil dólares por mês são relevantes para o que é politicamente exequível hoje”, admitiu.
Mas, “dez mil dólares por mês serão relevantes para o que será politicamente exequível dentro de alguns anos, com o crescimento impulsionado pela IA”, sublinhou o antigo responsável pela equipa de preparação para a Inteligência Artificial Geral (AGI) da OpenAI.
Obstáculos políticos e resistência dos poderosos
Apesar da visão arrojada, Brundage reconhece que os entraves são enormes. A ideia de financiar transferências universais de tal dimensão esbarra não só em questões logísticas e financeiras, mas sobretudo na resistência política e no poder económico de elites que temem perder influência.
“É demasiado caro, os multimilionários já desistiram da ideia e qualquer burocrata que o propusesse seria crucificado”, concluiu.
Esta declaração revela uma contradição evidente: a tecnologia poderá criar riqueza sem precedentes, mas a sua distribuição continua a ser uma batalha política feroz.
O Rendimento Básico Universal: entre o sonho e a necessidade
A discussão sobre o RBU não é nova. Sam Altman, CEO da OpenAI, financiou um dos maiores estudos do género nos Estados Unidos, no qual um grupo de pessoas recebeu mil dólares por mês durante três anos. O estudo demonstrou que o RBU não é um simples “penso rápido”, mas sim uma medida com efeitos sociais profundos, como maior bem-estar, menos stress financeiro e mais capacidade de planeamento de vida.
Outros bilionários como Elon Musk, que têm investido fortemente em IA, também se mostram interessados no tema. Não é difícil perceber porquê: a ameaça de uma “apocalipse laboral” — com milhões de empregos eliminados pela automação — torna urgente discutir mecanismos que assegurem estabilidade social.
O futuro próximo: inevitabilidade ou ilusão?
Se, por um lado, a proposta de um cheque universal de 10 mil dólares mensais parece desajustada à realidade atual, por outro, não se pode ignorar a velocidade com que a Inteligência Artificial está a remodelar economias, empresas e sociedades inteiras, escreve o ZAP.
O que hoje parece politicamente impossível pode tornar-se, em poucos anos, uma necessidade inevitável. Afinal, se a IA vai concentrar riqueza em poucas mãos e eliminar postos de trabalho em larga escala, quem ficará responsável por redistribuir essa riqueza?
A questão já não é apenas se o RBU será aplicado, mas quando e em que condições. O que está em jogo não é apenas o equilíbrio económico, mas o próprio contrato social das próximas gerações.