O céu aperta. O vento acalma por instantes. Mas é apenas uma pausa enganadora. Depois de horas de chuva intensa e rajadas fortes provocadas pela depressão Marta, Portugal prepara-se para viver uma breve trégua atmosférica precisamente no dia da segunda volta das eleições presidenciais.
Uma coincidência quase irónica: quando o país sai para votar, o tempo abranda.
Mas essa calma será curta.
Os meteorologistas avisam: terça e quarta-feira poderão ser os dias mais preocupantes da próxima semana, com muitas horas consecutivas de precipitação, por vezes forte, e risco acrescido de cheias, inundações e constrangimentos sérios.
A instabilidade não desapareceu.
Apenas ganhou fôlego.
Marta entrou ao final do dia… mas o pior já vinha de trás
A depressão Marta só começou a atravessar o território continental ao final da tarde de sábado, entrando pela região Norte. Contudo, o agravamento sentido ao longo do dia não foi provocado diretamente pelo centro da depressão, mas sim por uma superfície frontal fria associada ao sistema, que atravessou o país nas primeiras horas da manhã.
Foi essa frente que trouxe:
- aguaceiros intensos
- vento forte
- descida de temperaturas
- mar agitado
Criando a sensação de que o temporal já estava instalado antes mesmo da chegada oficial da tempestade.
Segundo a meteorologista do IPMA, Ângela Lourenço, tratou-se sobretudo de uma questão de dinâmica atmosférica — e de perceção. O impacto foi real. E sentido de Norte a Sul.
Domingo traz alívio… mas temporário
Para hoje, dia das eleições, o cenário muda. A previsão aponta para precipitação mais fraca, dispersa e períodos de abertas, com possibilidade de sol em várias regiões. Uma pausa meteorológica que poderá facilitar deslocações às urnas e reduzir riscos nas estradas. Ainda assim, a melhoria será apenas transitória.
A partir da tarde de domingo, um novo sistema frontal aproxima-se gradualmente do litoral, avançando depois para o interior.
As nuvens regressam.
E a chuva também.
Terça e quarta-feira: os verdadeiros dias críticos
O foco das preocupações está já na próxima semana.
As projeções indicam a chegada de novas ondulações frontais associadas a outra depressão no Atlântico, capazes de trazer precipitação contínua, persistente e por vezes forte durante várias horas seguidas.
Os dias 10 e 11 surgem como particularmente severos.
E o perigo não está apenas na intensidade.
Está na duração.
Quando chove sem interrupções durante muitas horas:
- os solos saturam rapidamente
- os rios sobem de forma acelerada
- as drenagens urbanas falham
- aumentam as inundações repentinas
O risco multiplica-se.
Mesmo chuva moderada, quando prolongada, pode ter efeitos mais graves do que um aguaceiro forte e curto.
Norte e Centro sob maior pressão
As regiões do litoral Norte e Centro continuam a concentrar as maiores preocupações.
São zonas onde:
- os solos já se encontram encharcados
- os caudais estão elevados
- a capacidade de absorção é mínima
Cada novo episódio de precipitação funciona como um acumulador.
E quando o limite é ultrapassado, surgem cheias rápidas, estradas cortadas e prejuízos significativos.
Mais para Sul, a tendência aponta para algum alívio no final da semana, mas a instabilidade poderá manter-se no Norte durante vários dias.
Marta não é Kristin — mas exige prudência
Apesar do cenário adverso, os especialistas sublinham que a depressão Marta não apresenta a mesma intensidade nem a mesma estrutura da tempestade Kristin.
Não se esperam, para já, rajadas extremas comparáveis.
Ainda assim, isso não significa ausência de risco.
Chuva persistente, vento moderado a forte e solos saturados são uma combinação perigosa.
E suficiente para provocar transtornos sérios.
Prevenção continua a ser a melhor defesa
Face ao cenário previsto, as autoridades recomendam:
- evitar zonas ribeirinhas
- não atravessar estradas alagadas
- limpar sistemas de drenagem
- acompanhar avisos meteorológicos
- planear deslocações com antecedência
Em situações de precipitação prolongada, a prudência pode evitar acidentes.
Porque, muitas vezes, o perigo não se vê — acumula-se.
Uma trégua frágil antes de nova investida
Este domingo poderá trazer alguma luz entre nuvens.
Mas a atmosfera não estabilizou.
A tempestade apenas se afasta para ganhar força noutro ponto do Atlântico.
Portugal entra, assim, numa semana de vigilância constante.
O céu pode abrir por horas.
Mas a ameaça permanece.
E os próximos dias poderão voltar a testar a resistência do território.





