A atmosfera volta a fechar-se sobre Portugal. Depois das marcas profundas deixadas pelas depressões Kristin e Leonardo, um novo nome começa a ganhar peso — e medo: tempestade Marta.
E tudo indica que pode ser mais violenta do que inicialmente previsto.
As últimas projeções meteorológicas apontam para rajadas bem acima dos 100 km/h, uma pressão mínima inferior a 990 hPa e condições favoráveis a um fenómeno raro e potencialmente devastador: o stingjet, a mesma assinatura atmosférica que esteve associada a alguns dos episódios de vento mais destrutivos dos últimos anos.
Mesmo sem atingir oficialmente o estatuto de ciclogénese explosiva, Marta poderá sofrer um cavamento extremamente rápido, com quedas de pressão superiores a 10 hPa em apenas seis horas — um sinal clássico de intensificação súbita.
Quando isso acontece, o tempo muda de forma abrupta. E a margem para reação encolhe perigosamente.
Vento extremo pode ser o maior perigo
Se a chuva preocupa, o vento é a verdadeira ameaça silenciosa desta tempestade.
Os modelos meteorológicos mais agressivos admitem rajadas entre 140 e 150 km/h no litoral, valores capazes de:
- arrancar árvores,
- levantar estruturas metálicas,
- danificar telhados,
- provocar cortes de energia,
- encerrar estradas,
- colocar vidas em risco.
Mesmo num cenário menos severo, o Centro e Sul do país deverão enfrentar rajadas superiores a 100 km/h, com impacto significativo em áreas urbanas densas, incluindo a Área Metropolitana de Lisboa.
Os períodos mais críticos poderão concentrar-se durante a manhã e início da tarde, quando a tempestade atravessar o território com maior intensidade.
Especialistas alertam: quando o vento atinge estes valores, pequenos objetos transformam-se em projéteis. O perigo deixa de ser apenas meteorológico. Passa a ser físico.
O que é o “stingjet” e porque assusta tanto os meteorologistas
Entre os vários cenários em análise, há um que concentra especial apreensão: a possível formação de um stingjet.
Este fenómeno raro recebe o nome pela forma semelhante ao ferrão de um escorpião visível nos radares.
Consiste numa corrente de ar extremamente seca e fria que desce violentamente do interior da tempestade, atingindo o solo com força explosiva.
O resultado são rajadas localizadas, súbitas e muito mais intensas do que o vento geral da depressão.
Podem durar poucos minutos.
Mas bastam para causar estragos graves.
Foi exatamente este mecanismo que esteve associado a danos severos durante a tempestade Kristin.
E agora, volta a surgir nos modelos meteorológicos.
Chuva forte e rios sob pressão máxima
Como se o vento não bastasse, Marta traz também precipitação intensa e persistente.
Os solos já se encontram saturados após semanas de chuva consecutiva.
A capacidade de absorção é mínima.
Cada novo milímetro conta.
As previsões indicam acumulados entre 35 e 60 mm em apenas 12 horas no Centro e Sul, valores suficientes para:
- cheias rápidas,
- transbordo de ribeiras,
- enxurradas,
- inundações urbanas,
- deslizamentos de terras.
As bacias hidrográficas estarão sob pressão acrescida, com risco de subida rápida de caudais.
Em áreas vulneráveis, bastam minutos de precipitação intensa para transformar ruas em autênticos rios.
Neve nas serras e estradas perigosas
Nas zonas mais elevadas, a precipitação poderá cair sob a forma de neve acima dos 800 a 900 metros, com acumulações significativas.
As principais serras poderão registar:
- estradas escorregadias,
- gelo,
- circulação condicionada,
- cortes temporários.
O inverno mostra novamente a sua face mais severa.
Preparar antes, reagir depois pode ser tarde
Meteorologistas e autoridades insistem numa mensagem clara: prevenir é essencial.
Quando fenómenos desta magnitude se aproximam, a diferença entre transtorno e tragédia está, muitas vezes, nas decisões tomadas horas antes.
Recomenda-se:
- evitar deslocações desnecessárias,
- recolher objetos soltos no exterior,
- proteger janelas e estruturas frágeis,
- garantir lanternas, baterias e água,
- acompanhar avisos oficiais do IPMA e Proteção Civil.
Porque, quando o vento sopra com violência, já não há tempo para improvisos.
Há sinais de melhoria?
A instabilidade deverá manter-se ainda durante vários dias.
Contudo, alguns modelos começam a apontar para uma possível estabilização atmosférica na segunda quinzena de fevereiro, com maior influência anticiclónica e menos precipitação.
Ainda assim, a incerteza é elevada.
Até lá, Portugal continuará sob o domínio de um padrão instável, com sucessivas depressões atlânticas.
O inverno ainda não terminou.
E Marta pode ser mais um capítulo duro desta sequência meteorológica.




