Novo sistema em Portugal pode detetar cancro em apenas 5 minutos. A luta contra o cancro pode estar prestes a ganhar uma nova arma, simples e revolucionária. Investigadores da Fundação Champalimaud estão a desenvolver um sistema inovador capaz de detetar precocemente alguns dos cancros mais letais, através de um exame indolor que dura apenas cinco minutos e se baseia na respiração do paciente.
Um sopro de esperança contra o cancro
O procedimento é tão simples quanto promissor: o paciente coloca uma máscara semelhante a uma máscara de oxigénio e respira calmamente durante cinco minutos. A partir desse gesto, aparentemente banal, abre-se a possibilidade de identificar doenças que, até hoje, têm sido diagnosticadas demasiado tarde.
Por enquanto, a tecnologia está focada em três dos cancros mais devastadores: pulmão, ovário e pâncreas. Estes tipos de cancro distinguem-se pela elevada mortalidade e pela dificuldade em serem detetados nos estágios iniciais.
Só em Portugal, mais de 5.000 pessoas morrem todos os anos de cancro do pulmão, traqueia e brônquios, enquanto o cancro do ovário é responsável por cerca de 500 mortes anuais e o cancro do pâncreas por mais de 2.000.
Segundo a Fundação Champalimaud, este sistema já permitiu detetar 300 doentes em fase precoce, e mais de 400 pessoas integram o grupo de controlo em estudo.
Inteligência artificial ao serviço da medicina
A inovação não se limita ao processo de recolha do ar respirado. O verdadeiro segredo está na forma como este ar é analisado.
Pedro Duarte Vaz, investigador da unidade do pulmão da Fundação Champalimaud, explica que o sistema consegue identificar padrões químicos invisíveis a olho nu.
“Analisamos o ar exalado de pessoas com e sem doença e conseguimos perceber diferenças subtis na sua composição. Para isso recorremos a inteligência artificial, que transforma esses dados em imagens e padrões, classificando-os e ajudando a identificar potenciais sinais de cancro”, referiu ao jornal Expresso.
Ou seja, a respiração humana torna-se uma espécie de assinatura química, onde cada alteração pode esconder pistas valiosas sobre a saúde.
Mais triagem, menos diagnósticos tardios
Apesar do potencial transformador, os investigadores sublinham que este teste ainda não deve ser visto como diagnóstico definitivo. O objetivo principal é funcionar como uma ferramenta de triagem e deteção precoce, permitindo encaminhar os pacientes para exames complementares mais rigorosos, como a tomografia torácica.
“Não queremos que este seja um teste de diagnóstico, porque para já não é possível. O que queremos é aumentar a capacidade de triagem, para que os casos suspeitos sejam identificados e acompanhados antes de ser demasiado tarde”, reforça Pedro Duarte Vaz.
O futuro: levar a tecnologia aos centros de saúde
O próximo passo é tornar este método acessível ao maior número possível de pessoas. A visão da equipa é clara: integrar o sistema nos centros de saúde como parte da rotina de rastreio, de forma semelhante aos exames de sangue ou radiografias.
Se os resultados se confirmarem, esta técnica poderá vir a ser uma das maiores revoluções no combate ao cancro em Portugal e no mundo — um exame simples, rápido, barato e não invasivo, capaz de salvar milhares de vidas.
Um avanço que pode mudar estatísticas
O cancro continua a ser uma das principais causas de morte em Portugal e no mundo. A deteção precoce é, unanimemente, apontada pelos especialistas como a chave para melhorar a sobrevivência.
Diagnósticos feitos em estágios iniciais aumentam drasticamente as hipóteses de sucesso dos tratamentos, diminuem a agressividade das terapias necessárias e oferecem maior qualidade de vida aos pacientes.
A Fundação Champalimaud, reconhecida internacionalmente como centro de referência na investigação oncológica, acredita que este é um passo decisivo rumo a um futuro em que o cancro poderá ser combatido de forma mais eficaz. Um simples sopro poderá, em breve, fazer a diferença entre a vida e a morte.
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