Portugal acorda hoje com um sentimento agridoce: o pior da tempestade parece ter passado, mas o céu continua carregado de incerteza. Depois de dias de caos, destruição e perdas humanas, o país prepara-se para uma trégua curta — demasiado curta — antes de voltar a enfrentar uma nova ofensiva de chuva intensa, vento forte e risco elevado de cheias.
A depressão Kristin deixou um rasto de devastação difícil de esquecer. Árvores tombadas como fósforos, telhados arrancados pela força do vento, estradas submersas, milhares de casas às escuras. Pelo menos cinco mortos. Famílias desalojadas. Infraestruturas danificadas. Escolas encerradas. Um cenário que transformou distritos como Leiria, Coimbra, Santarém e Lisboa em autênticos campos de emergência.
Agora, quando ainda se limpam destroços e se avaliam prejuízos, surge um novo aviso: a instabilidade está longe de terminar.
Uma trégua enganadora antes de nova investida atlântica
Segundo o climatologista Mário Marques, em declarações à SIC Notícias, os próximos dias trarão apenas uma melhoria temporária. Sexta-feira e, sobretudo, sábado deverão oferecer algum alívio, com menos precipitação e momentos de céu mais aberto.
Mas será apenas isso: um intervalo breve.
A partir de domingo, o cenário volta a agravar-se de forma persistente e preocupante.
“Até ao dia 7 haverá precipitação todos os dias”, alerta o especialista.
Ou seja, Portugal prepara-se para uma semana consecutiva de chuva praticamente diária, com episódios localmente fortes, especialmente no litoral oeste.
Chuva sem descanso e vento a castigar estruturas fragilizadas
A previsão aponta para precipitação contínua e acumulados significativos, num contexto particularmente delicado: os solos já se encontram saturados depois das tempestades recentes. Quando a terra deixa de absorver água, cada milímetro adicional de chuva transforma-se numa ameaça real.
Ruas alagam mais depressa. Linhas de água transbordam. Encostas tornam-se instáveis. Pequenas ribeiras podem converter-se em torrentes perigosas em poucos minutos.
E há ainda outro fator crítico: o vento.
Entre os dias 1 e 2, e novamente no dia 4, são esperadas rajadas moderadas a fortes, capazes de agravar danos em estruturas já fragilizadas pela depressão anterior.
Telhados soltos, andaimes, árvores enfraquecidas e cabos elétricos tornam-se riscos acrescidos.
Risco de cheias aumenta: “muitas bacias hidrográficas já não aguentam”
O alerta mais sério recai sobre as cheias.
Com os solos completamente encharcados, a capacidade de drenagem natural está praticamente esgotada. A água deixa de infiltrar e começa a acumular-se à superfície.
O resultado pode ser rápido e perigoso.
“Muitas bacias hidrográficas poderão já não conseguir aguentar”, avisa Mário Marques.
Isto significa maior probabilidade de:
- inundações urbanas repentinas
- transbordo de rios e ribeiras
- cortes de estradas
- danos em habitações
- interrupções de energia
Basta um episódio de chuva intensa para provocar novas situações críticas.
Porque é que o mau tempo insiste em atingir Portugal?
A explicação está na geografia e na dinâmica atmosférica.
Portugal encontra-se numa zona de confronto frequente entre massas de ar frio vindas do norte e ar mais quente e húmido do Atlântico. Este “choque” cria instabilidade constante e alimenta depressões sucessivas.
O resultado é um inverno mais agressivo, com frentes atlânticas encadeadas, sem tempo suficiente para verdadeira estabilização.
A região centro e o litoral oeste continuam a ser as áreas mais expostas, funcionando quase como uma “porta de entrada” das tempestades.
Dias decisivos para limpar… mas com o céu contra
As próximas 48 horas serão cruciais para:
- remover destroços
- reparar infraestruturas
- restabelecer eletricidade
- apoiar famílias afetadas
Contudo, o tempo disponível é curto.
Cada novo aguaceiro poderá atrasar trabalhos, dificultar acessos e aumentar prejuízos.
A sensação é clara: o país mal teve tempo para respirar.
Recomendações essenciais da Proteção Civil
Face ao cenário previsto, as autoridades recomendam:
- evitar zonas ribeirinhas e inundáveis
- não circular junto a árvores ou estruturas instáveis
- reforçar telhados, vedações e objetos soltos
- acompanhar previsões oficiais
- reduzir deslocações desnecessárias
- ter lanternas, água e bens essenciais preparados
Pequenos gestos podem fazer a diferença entre segurança e risco.
Um inverno que ainda não deu tréguas
A breve melhoria do tempo poderá enganar, mas os modelos meteorológicos são claros: a chuva vai regressar com persistência e intensidade.
Depois de Kristin, Portugal não terá descanso imediato.
O céu pode até clarear por horas, mas a ameaça permanece logo ali, no horizonte.
E, desta vez, o maior perigo pode ser precisamente esse: a falsa sensação de normalidade.
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