A Gronelândia, território autónomo da Dinamarca, voltou a ocupar as manchetes internacionais devido ao crescente interesse estratégico dos Estados Unidos. Banhada pelo oceano Glacial Ártico e pelo Atlântico Norte, esta ilha é governada localmente para assuntos internos, enquanto Copenhaga mantém autoridade sobre defesa e política externa — situação que Donald Trump pretende alterar, numa proposta que reacendeu o debate sobre soberania e segurança global.
Com uma área superior à soma de França, Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Alemanha, a Gronelândia é a maior ilha do mundo e uma peça geoestratégica de enorme importância. Cerca de 81% do seu território está coberto por gelo, mas debaixo desta camada repousam riquezas naturais ainda pouco exploradas, atraindo atenção global.
Segundo o The New York Times, a ilha tornou-se num objetivo estratégico norte-americano, com Trump a afirmar que a aquisição da Gronelândia poderia ser a maior da história dos Estados Unidos, ultrapassando até a do Alasca e da Califórnia.
Por que os Estados Unidos estão interessados na Gronelândia
1. Recursos minerais e setor mineiro pouco explorado
Desde 2009, os gronelandeses têm autonomia sobre a exploração de recursos minerais. Apesar de apenas duas minas estarem atualmente em operação, a procura global por metais raros e críticos acelerou o interesse norte-americano e europeu.
O subsolo da ilha contém elementos essenciais como:
- Terras raras
- Zinco, chumbo e prata
- Germânio e gálio
O potencial económico é enorme, mas a exploração é dificultada pelo ambiente polar extremo e pela fraca infraestrutura. Empresas como a Amaroq planeiam iniciar produção entre 2027 e 2028, transformando a Gronelândia num verdadeiro “eldorado” mineral.
A União Europeia, de forma semelhante, identificou 25 dos 34 minerais da sua lista de matérias-primas essenciais presentes na ilha. Já os Estados Unidos assinaram em 2019 um memorando de cooperação para assegurar acesso estratégico a estes recursos.
Economicamente, a Gronelândia ainda depende de subvenções da Dinamarca, que representam cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), mostrando a importância de parcerias externas para o desenvolvimento sustentável do território.
2. Proximidade geográfica com os Estados Unidos
Apesar de Copenhaga manter o controlo da política monetária, externa e de defesa, Nuuk, a capital gronelandesa, está mais próxima de Nova Iorque do que da Dinamarca.
Washington mantém uma base militar estratégica em Pituffik, nordeste da ilha, integrada no escudo antimíssil norte-americano. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha, os EUA assumiram o controlo da ilha, estabelecendo uma presença permanente que perdura até hoje, como recorda a historiadora Astrid Andersen.
A Dinamarca, por sua vez, investe atualmente em patrulhas árticas, drones e radares costeiros para colmatar lacunas de vigilância aérea e submarina e reforçar a soberania territorial.
3. Localização geoestratégica crítica
A posição da Gronelândia entre o Atlântico Norte e o Ártico, próxima dos Estados Unidos, Canadá e Rússia, confere-lhe importância militar e económica incomparável.
Donald Trump acusou Copenhaga de não garantir a segurança face a Rússia e China, embora a Dinamarca tenha investido cerca de 12 mil milhões de euros para reforçar a presença militar no Ártico.
O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, prometeu recentemente intensificar a presença militar na ilha e reforçar o diálogo com a NATO, sublinhando que a soberania da Gronelândia permanece sob Copenhaga.
População e sistema de governo
A Gronelândia conta com aproximadamente 56.600 habitantes, sendo mais de 19.000 residentes em Nuuk, segundo dados do Conselho Nórdico.
Politicamente, a ilha é um território autónomo da Dinamarca, com Parlamento próprio (Inatsisartut, 31 deputados) e um governo local liderado pelo primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen desde abril de 2025.
O rei Frederico X da Dinamarca é chefe de Estado, enquanto a Gronelândia mantém uma relação especial com a União Europeia, tendo saído do bloco em 1985, mas conservando acordos de pesca e associação económica. A ilha também integra a NATO desde 1949, reforçando a sua relevância estratégica no Atlântico Norte.
O dia nacional da Gronelândia, celebrado em 21 de junho, coincide com o dia mais longo do ano, simbolizando a ligação cultural e histórica da população ao território e à sua identidade autónoma.
Conclusão: Gronelândia, entre riqueza e geopolítica
De acordo com a Sic Notícias, a Gronelândia tornou-se um tabuleiro geopolítico central no Ártico. Entre os recursos minerais ainda por explorar, a posição estratégica e a proximidade aos EUA, a ilha é hoje um território de interesse global.
Enquanto Donald Trump considera a aquisição estratégica, a Dinamarca reforça a presença militar e política, equilibrando interesses económicos, soberania e segurança internacional.
A maior ilha do mundo, com seu gelo milenar e riquezas ocultas, permanece assim no centro de uma corrida geoestratégica e económica, cujo desfecho poderá remodelar relações internacionais no Ártico e para além dele.




