Portugal tem uma das costas mais perigosas e, simultaneamente, mais ricas do mundo em termos de património subaquático. Durante os séculos XV ao XVIII, o nosso país foi o cruzamento das grandes rotas mundiais: a Rota da Índia, a Rota da Prata e a Rota do Brasil. Estima-se que existam mais de 12.000 naufrágios ao longo da Zona Económica Exclusiva portuguesa, transformando o nosso fundo marinho no maior museu subaquático do planeta.
No Ncultura, vestimos o fato de mergulho para resgatar as histórias de navios que partiram em busca de glória e acabaram por encontrar o seu destino nas rochas traiçoeiras ou em batalhas navais épicas. Será que o ouro ainda lá está?
1. A Nau Chagas (Ilha do Faial, Açores): O tesouro impossível
Em 1594, a Nau Cinco Chagas regressava de Goa carregada com o que muitos historiadores acreditam ser o tesouro mais valioso alguma vez transportado num único navio. Estava repleta de diamantes, rubis, pérolas e toneladas de ouro.
- A Batalha: Ao largo da ilha do Faial, a nau foi intercetada por corsários ingleses. Após uma batalha sangrenta que durou dois dias, o navio incendiou-se e explodiu, afundando-se numa zona de grande profundidade (mais de 1.000 metros).
- O Valor: Estima-se que o valor atual do tesouro ultrapasse os mil milhões de euros. Devido à profundidade e às correntes extremas dos Açores, a nau Chagas continua a ser o “Santo Graal” dos caçadores de tesouros, intocada pela mão humana há mais de 400 anos.
2. O Galeão San Pedro d’Alcantara (Peniche): Prata entre as rochas
Em 1786, um galeão espanhol chamado San Pedro d’Alcantara, que viajava do Peru para Espanha, desfez-se contra as rochas da Papôa, em Peniche. O navio transportava 153 toneladas de moedas de prata e ouro, além de valiosos artefactos incas.
- O Resgate Histórico: Este foi um dos primeiros casos de arqueologia de salvamento em Portugal. Na época, mergulhadores usando “sinos de mergulho” rudimentares conseguiram recuperar grande parte da prata.
- O Mistério Atual: Apesar do resgate oficial, ainda hoje, após grandes tempestades, os habitantes locais e mergulhadores amadores encontram pequenos vestígios do naufrágio. O San Pedro tornou-se um símbolo da fúria do mar de Peniche, que não perdoa erros de navegação.
3. A Nau Nossa Senhora da Luz (Cascais): Às portas da capital
Mesmo à entrada do Rio Tejo, ao largo de Cascais, repousa a Nossa Senhora da Luz, que naufragou em 1615. O navio vinha da Índia e estava a apenas alguns quilómetros de completar uma viagem de meses quando uma tempestade repentina o atirou contra os rochedos.
- O Património: Escavações arqueológicas modernas revelaram uma quantidade impressionante de porcelana da dinastia Ming, pimenta (que na altura valia o seu peso em ouro) e joias finas.
- O Perigo: A zona é conhecida pelas correntes fortes e visibilidade reduzida, o que protege os restos do navio de saqueadores, permitindo que os arqueólogos estudem a construção naval da época com um rigor científico raro.
4. O Navio Serpent (Costa da Morte e Norte de Portugal): A tragédia inglesa
Embora o naufrágio principal tenha ocorrido ligeiramente acima, na Galiza, o HMS Serpent (1890) é uma lenda que percorre todo o litoral norte de Portugal. Este navio da marinha britânica desapareceu com quase toda a sua tripulação.
- A Lenda: Diz-se que os marinheiros usavam coletes salva-vidas de cortiça que, ironicamente, os impediram de mergulhar para escapar às ondas gigantes que os esmagavam contra as rochas. O desastre levou a uma mudança radical nas leis de segurança marítima internacionais.
- O Espírito: Nas aldeias costeiras entre Viana do Castelo e a Galiza, ainda se contam histórias de luzes fantasmagóricas no mar em noites de nevoeiro, que muitos acreditam ser o Serpent a tentar encontrar o caminho de volta a casa.
5. Os submarinos U-Boats (Costa do Algarve e Alentejo)
Nem todos os tesouros são feitos de ouro. Durante a Segunda Guerra Mundial, as águas portuguesas foram palco de uma guerra silenciosa. Vários submarinos alemães (U-Boats) foram afundados ao largo da nossa costa por aviões aliados.
- O Tesouro Tecnológico: Estes naufrágios são cápsulas do tempo de tecnologia militar. Mergulhar num U-Boat ao largo de Sagres é uma experiência arrepiante, onde o metal corroído conta a história de jovens marinheiros que ficaram presos no fundo do mar numa guerra que não era deles.
Por que razão o Atlântico não devolve os tesouros?
A costa portuguesa é caracterizada por uma plataforma continental estreita que cai abruptamente em canhões submarinos profundos (como o Canhão da Nazaré). Quando um navio se afunda nestas zonas, torna-se tecnicamente impossível ou financeiramente inviável recuperá-lo. Além disso, o salitre e a força das correntes desintegram a madeira, restando apenas os “tesouros pesados”: canhões de bronze, âncoras e o ouro, que é inalterável.
Conclusão: O mar como guardião da memória
Os naufrágios de Portugal não são apenas histórias de moedas de ouro; são os registos físicos da nossa ousadia como povo navegador. Cada navio no fundo do mar é uma peça do puzzle da globalização que Portugal iniciou. Respeitar estes locais como túmulos históricos é tão importante como descobrir as riquezas que eles contêm.
Acredita que o tesouro da Nau Chagas será algum dia encontrado? Ou deve o mar guardar para sempre os seus segredos? Se pudesse mergulhar num destes navios, qual escolheria? Conte-nos a sua opinião nos comentários!




