O Fado não é apenas uma música; é um estado de espírito. É a voz de um povo que vive entre a terra e o mar, entre o que foi e o que poderia ter sido. Quando um fadista fecha os olhos, inclina a cabeça e solta a primeira nota, o tempo parece parar em Lisboa. Mas o Fado que hoje ouvimos em salas de espetáculo luxuosas tem raízes muito mais profundas, obscuras e fascinantes do que a maioria imagina.
No Ncultura, vamos apagar as luzes, acender uma vela e entrar nos bairros históricos de Alfama e da Mouraria para decifrar o código genético da música que melhor define Portugal. O que é, afinal, o Fado? E porque é que ele nos aperta o coração, mesmo quando não percebemos uma palavra do que é cantado?
1. A origem proibida: do mar para as tabernas
Embora existam muitas teorias sobre a origem do Fado, a mais aceite liga esta música aos marinheiros e aos marginalizados.
No início do século XIX, o Fado não era a música nobre que é hoje; era o canto dos bordéis, das tabernas e das ruelas sombrias de Lisboa.
- O Destino (Fatum): A própria palavra “Fado” vem do latim fatum, que significa “destino”. Originalmente, as letras falavam da dureza da vida no mar, da saudade de quem partiu e das injustiças sociais. Era uma música de resistência e de desabafo.
- A Influência Afro-Brasileira: Muitos historiadores defendem que o ritmo do Fado descende do Lundum, uma dança de origem africana trazida do Brasil pelos marinheiros. Esta mistura de melancolia europeia com ritmos sincopados de além-mar deu origem à sonoridade única que hoje conhecemos.
2. A lenda da Severa: o nascimento do mito
Nenhuma história do Fado está completa sem mencionar Maria Severa Onofriana, a Severa. Esta meretriz da Mouraria, que viveu no século XIX, é considerada a primeira grande fadista.
- O Xaile Preto: Diz a lenda que a Severa cantava o fado de forma tão visceral que conquistou o coração de um fidalgo, o Conde de Vimioso. A sua morte prematura, aos 26 anos, transformou-a num mito. O uso do xaile preto, que hoje é um acessório obrigatório para muitas fadistas, nasceu como um símbolo de luto por esta figura trágica que deu voz aos desvalidos.
- A Guitarra Portuguesa: Foi nesta época que a guitarra portuguesa, com a sua forma de pera e as suas doze cordas de aço, se tornou a companheira inseparável do fado. O seu som metálico e brilhante é o contraponto perfeito para a voz profunda e grave do fadista.
3. Amália Rodrigues: a voz que conquistou o mundo
Se a Severa deu o nome ao Fado, Amália Rodrigues deu-lhe as asas. Antes de Amália, o Fado era uma música local; depois dela, tornou-se universal.
- A Revolução Poética: Amália teve a audácia de cantar os grandes poetas portugueses, como Camões e David Mourão-Ferreira. Ao unir a erudição da poesia à crueza do Fado, ela elevou o género a uma nova dimensão artística.
- A Presença de Palco: Foi Amália quem cristalizou a imagem da fadista: de preto, estática, com o xaile sobre os ombros, usando apenas a voz e as mãos para expressar o drama humano. Ela não cantava apenas o Fado; ela era o Fado.
4. O mistério da saudade e do silêncio
Existe uma regra de ouro em qualquer casa de fado: “Silêncio, que se vai cantar o fado!”. Este silêncio não é apenas uma questão de educação; é um requisito ritualístico. O Fado exige uma comunhão absoluta entre o fadista, os guitarristas e o público.
- A Saudade: Esta palavra, que muitos dizem ser intraduzível, é o combustível do Fado. Não é apenas tristeza; é a presença de uma ausência. É o prazer de sofrer por algo que se amou e se perdeu, ou por algo que nunca se teve.
- O Improviso: No “Fado Vadio” (o fado amador cantado por pessoas do povo), o improviso é constante. O fadista pode mudar a letra para interpelar alguém na audiência ou para responder a outro fadista, criando um diálogo emocional em tempo real.
5. Onde ouvir o fado autêntico?
Hoje, o Fado divide-se em dois mundos: o Fado de espetáculo (para turistas) e o Fado das coletividades e tabernas.
- Alfama e Mouraria: Estes são os bairros berço. Perder-se nas suas ruelas à noite é a melhor forma de encontrar um “fadista escondido” que canta apenas pelo prazer de o fazer.
- Coimbra vs. Lisboa: É importante não esquecer o Fado de Coimbra. Enquanto o de Lisboa é popular e telúrico, o de Coimbra é académico, cantado apenas por homens (estudantes ou antigos estudantes) com capas negras, e foca-se em temas de amores estudantis e serenatas à janela.
Conclusão: o fado é eterno porque o destino não muda
O Fado sobreviveu a ditaduras, a revoluções e à modernidade. Hoje, uma nova geração de fadistas (como Mariza, Carminho ou Ana Moura) continua a renovar o género, provando que a alma portuguesa não muda. Cantar o fado continua a ser a forma mais honesta de um português dizer ao mundo quem é.
Já alguma vez se emocionou a ouvir um fado, mesmo sem perceber a letra? Qual é a sua fadista ou canção de eleição? Partilhe connosco aquela “saudade” que o Fado lhe desperta!




