Portugal continental poderá entrar numa fase de instabilidade atmosférica mais marcada no arranque da próxima semana. Uma nova depressão, atualmente em desenvolvimento no Atlântico Norte, poderá evoluir para uma depressão isolada em altitude (gota fria), fenómeno que tende a provocar precipitação intensa, trovoada, granizo e elevada irregularidade na distribuição da chuva.
Depois de dias de relativa estabilidade, o padrão atmosférico prepara-se para uma reconfiguração significativa.
Porque está a atmosfera a mudar?
De acordo com o portal especializado Meteored, a corrente de jato polar encontra-se num padrão ondulante e instável — típico das transições entre inverno e primavera.
Este comportamento favorece:
- A formação de depressões profundas no norte da Europa
- O desvio de massas de ar frio polar em altitude
- A interação com ar subtropical mais quente e húmido
É essa colisão de massas de ar contrastantes que pode originar um núcleo depressionário isolado — a chamada gota fria.
O que significa, na prática, uma gota fria?
Uma gota fria é um sistema atmosférico que se desprende da circulação geral e fica isolado. Esta característica torna-o:
- Imprevisível
- De deslocação lenta
- Capaz de gerar precipitação intensa localizada
Quando posicionada sobre ou perto da Península Ibérica, pode provocar:
- Aguaceiros fortes e repentinos
- Trovoadas frequentes
- Queda de granizo
- Rajadas intensas
- Possível neve em zonas altas
O risco maior não está necessariamente na quantidade total de chuva, mas na intensidade concentrada em curtos períodos.
Segunda-feira: o início da mudança
Os modelos meteorológicos indicam que a frente fria associada à nova depressão deverá entrar pelo litoral Norte e Centro durante a madrugada ou manhã de segunda-feira.
Ao longo do dia prevê-se:
- Aumento progressivo da nebulosidade
- Aguaceiros intermitentes
- Crescente instabilidade atmosférica
- Possibilidade de fenómenos convectivos
Entre o final da tarde e a madrugada de terça-feira poderá consolidar-se a eventual gota fria, com o centro depressionário a posicionar-se entre o sul de Portugal e o norte de Marrocos.
Terça-feira: o dia mais incerto
A terça-feira surge como o momento de maior incerteza nos modelos.
Se a depressão isolada se confirmar, o padrão poderá incluir:
- Aguaceiros dispersos, mas intensos
- Períodos de céu muito nublado
- Trovoada localizada
- Granizo pontual
As regiões com maior probabilidade de instabilidade incluem:
- Norte e Centro, especialmente áreas a norte da Serra da Estrela
- Grande Lisboa
- Península de Setúbal
- Litoral alentejano
- Barlavento Algarvio
Pode haver neve?
Existe a possibilidade de queda de neve na Serra da Estrela, sobretudo nas cotas mais elevadas, caso o ar frio em altitude seja suficientemente intenso.
A confirmar-se, poderá tratar-se de um episódio tardio de neve já em março — algo que não é incomum, mas depende fortemente da temperatura da massa de ar.
Quantidade de chuva: o que dizem os modelos?
Os cenários atuais sugerem acumulados médios entre:
5 mm e 20 mm, dependendo da localização.
Contudo, importa destacar:
- A precipitação poderá ser muito irregular
- Algumas áreas podem registar valores superiores em caso de células convectivas intensas
- Outras zonas podem praticamente não receber chuva
Esta variabilidade é típica de situações associadas a gotas frias.
Impactos potenciais
Mesmo com acumulados moderados, os impactos podem incluir:
- Inundações rápidas em meio urbano
- Drenagens sobrecarregadas
- Lençóis de água em estradas
- Pequenos deslizamentos em zonas de encosta
- Perturbações no trânsito
A instabilidade elétrica pode também provocar interrupções pontuais.
Porque este tipo de situação gera tanta incerteza?
As depressões isoladas em altitude caracterizam-se por:
- Movimento errático
- Deslocação lenta
- Forte dependência de pequenas variações térmicas
Pequenos desvios na trajetória podem alterar completamente as áreas mais afetadas.
Por isso, as próximas 48 horas serão determinantes para afinar previsões.
O que esperar depois?
Se o sistema se deslocar rapidamente para sul ou dissipar-se, a instabilidade poderá ser breve.
Caso contrário, a situação poderá prolongar-se por mais dias, mantendo:
- Aguaceiros intermitentes
- Céu variável
- Temperaturas ligeiramente abaixo da média
Porque março é um mês de transição?
Março é tradicionalmente um mês atmosférico instável em Portugal, sublinha o Postal. O contraste entre massas de ar frio tardio e o aumento gradual da radiação solar cria condições propícias a:
- Convecção
- Tempestades isoladas
- Alternância rápida entre sol e chuva
Este padrão encaixa no comportamento esperado para esta fase do ano.





