Lisboa é uma cidade onde cada rua, cada beco e cada praça contam histórias que atravessam séculos. Algumas dessas histórias são de glória e conquista, outras de tragédia e vingança. Entre os recantos menos conhecidos da capital portuguesa, ergue-se silencioso o Beco do Chão Salgado, em Belém, a poucos metros da icónica Fábrica dos Pastéis de Belém. À primeira vista, trata-se apenas de uma rua estreita e discreta, mas o local esconde uma das páginas mais violentas da história de Portugal: o fim do Duque de Aveiro e a queda da poderosa família Távora, no século XVIII.

O obelisco do Beco do Chão Salgado: cicatriz de um império destruído
No final do beco, encontra-se um obelisco de pedra erguido em 1761, por ordem do Marquês de Pombal. À sua base, uma inscrição gélida perpetua a sentença: “Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum.” O obelisco é mais do que um monumento — é uma marca de condenação eterna, erguida no exato lugar onde ficava o luxuoso palácio do Duque de Aveiro, demolido como parte de um castigo implacável.
Para reforçar a humilhação, o terreno foi regado com sal, num gesto simbólico de esterilidade e esquecimento. O espaço que antes refletia o esplendor de uma das famílias mais poderosas do reino foi transformado num marco de vergonha, para que nenhuma memória de prosperidade sobrevivesse.
O atentado contra D. José I: conspiração ou pretexto político?
Na noite de 3 de setembro de 1758, o rei D. José I regressava secretamente de uma visita à sua amante, a marquesinha Teresa Leonor de Távora, quando a sua carruagem foi emboscada. Disparos ecoaram na noite lisboeta e o monarca ficou ferido no braço.
O atentado abalou o país, mas foi também a oportunidade perfeita para o Marquês de Pombal consolidar o poder. De imediato, a investigação apontou para os Távoras e os seus aliados, incluindo o Duque de Aveiro, como responsáveis pela tentativa de regicídio.
Os Távoras: poder, prestígio e rivalidades políticas
A família Távora era uma das mais antigas casas nobres de Portugal, com raízes que remontavam ao século XII. Orgulhosos representantes da velha aristocracia, viviam em constante atrito com as políticas reformistas e centralizadoras de Pombal.
O processo contra eles foi rápido e controverso. Foram acusados de traição e conspiração sem provas sólidas. Historiadores defendem que o julgamento foi manipulado para aniquilar a velha nobreza, permitindo ao rei e a Pombal reforçarem a autoridade régia contra qualquer ameaça.
Entre os condenados estavam D. Leonor Tomásia de Távora, marquesa de Távora, o marido D. Francisco de Assis de Távora, os filhos, genros e o Duque de Aveiro. Até o padre Gabriel Malagrida, confessor da marquesa e membro da Companhia de Jesus, foi implicado e condenado.
A execução dos Távoras: um espetáculo de horror
O dia 13 de janeiro de 1759 ficou marcado como um dos mais sangrentos da história portuguesa. Em pleno Campo de Belém, perante uma multidão aterrorizada, os Távoras e aliados foram executados com requintes de crueldade.
A marquesa D. Leonor foi decapitada com uma espada. Os homens da família, incluindo o Duque de Aveiro, foram arrastados por cavalos, esquartejados e queimados, com as cinzas lançadas ao rio Tejo. O padre Malagrida, acusado de heresia, foi enforcado e queimado. Não era apenas uma execução: era um espetáculo de poder absoluto, uma mensagem clara à nobreza de que nenhuma linhagem, por mais antiga e prestigiada que fosse, poderia desafiar a vontade do rei e do seu ministro.
O fim do palácio do Duque de Aveiro e o nascimento do Beco do Chão Salgado
O esplendoroso palácio do Duque de Aveiro, outrora símbolo de luxo e prestígio, foi demolido até à última pedra. O terreno foi salinizado e condenado ao abandono perpétuo. O local tornou-se o Beco do Chão Salgado, uma cicatriz aberta na cidade, testemunha silenciosa de uma vingança de Estado.
A queda de Pombal e a reabilitação dos Távoras
Com a morte de D. José I, em 1777, e a subida ao trono da sua filha, D. Maria I, muitas das medidas do Marquês de Pombal foram revistas. Uma das primeiras decisões da nova monarca foi reabilitar o nome dos Távoras, restaurando parte da honra destruída.
Ainda assim, o obelisco permaneceu. Em 1910, já no período da Primeira República, foi classificado como monumento nacional. Hoje, continua de pé como símbolo de um tempo de intrigas, conspirações e execuções implacáveis.
O Beco do Chão Salgado hoje: memória e reflexão
Apesar de se situar a escassos metros de um dos pontos mais visitados de Lisboa, o Beco do Chão Salgado passa despercebido à maioria dos turistas. Contudo, para quem conhece a sua história, a rua estreita transforma-se num portal para o século XVIII, convidando à reflexão sobre o poder, a justiça e as consequências da ambição humana.
Passear por Belém é caminhar entre o esplendor e a memória da tragédia. E diante do obelisco do Beco do Chão Salgado, ergue-se uma pergunta eterna: até que ponto a justiça pode confundir-se com vingança?