O roubo automóvel já não faz barulho, não deixa vidros partidos e, em muitos casos, nem sequer levanta suspeitas imediatas. O chamado relay attack está a transformar a forma como os carros são roubados, explorando a tecnologia que, até há pouco tempo, era vista como símbolo de conforto e inovação.
Este método, silencioso e altamente eficaz, permite levar um veículo em menos de 30 segundos — sem chave, sem contacto físico e sem qualquer sinal visível de intrusão. Um cenário que está a preocupar autoridades, seguradoras e proprietários por toda a Europa.
Um roubo que acontece enquanto tudo parece normal
Imagine o seguinte cenário: o carro está estacionado à porta de casa, a chave encontra-se no interior da habitação e nada parece fora do normal. Durante a noite, ou mesmo em pleno dia, dois indivíduos aproximam-se.
Um posiciona-se junto à porta ou janela da casa. O outro fica perto do veículo.
Com recurso a equipamentos eletrónicos, captam o sinal da chave e “transportam-no” até ao carro. Em segundos, o sistema interpreta a presença da chave como legítima. O carro abre. O motor liga. E desaparece. Sem ruído. Sem danos. Sem testemunhas.
A tecnologia que facilitou o crime
Os sistemas keyless foram criados para simplificar a vida dos condutores. Permitem abrir portas e ligar o veículo sem retirar a chave do bolso. No entanto, esta conveniência trouxe consigo uma vulnerabilidade pouco visível.
A chave está constantemente a emitir um sinal de baixa frequência. É precisamente esse sinal que os criminosos exploram.
Com dispositivos relativamente acessíveis no mercado paralelo, conseguem:
- Amplificar o sinal da chave
- Transmiti-lo à distância
- Enganar o sistema de segurança do veículo
Este processo não exige conhecimentos altamente especializados, o que contribui para a rápida disseminação do método.
Porque este crime está a crescer tão rapidamente
O aumento deste tipo de furtos não acontece por acaso. Existem vários fatores que explicam a sua expansão:
- Crescimento do número de veículos com tecnologia keyless
- Facilidade de acesso a equipamentos de amplificação de sinal
- Baixo risco de deteção imediata
- Elevado valor dos veículos visados
Além disso, muitos proprietários desconhecem completamente este tipo de ameaça, o que aumenta a vulnerabilidade.
O impacto real nas vítimas
Para quem sofre este tipo de roubo, o impacto vai muito além da perda material.
Existe um sentimento de incredulidade — como é possível um carro desaparecer sem qualquer explicação? A ausência de sinais de arrombamento gera dúvidas, frustração e, em alguns casos, dificuldades no processo de ativação do seguro.
Muitos casos acabam por arrastar-se durante semanas ou meses, enquanto se tenta provar que se tratou efetivamente de um furto.
Seguradoras e autoridades enfrentam novos desafios
Este tipo de criminalidade coloca também pressão sobre seguradoras e forças de segurança.
Sem provas físicas evidentes, torna-se mais difícil:
- Confirmar o tipo de crime
- Identificar suspeitos
- Recuperar veículos roubados
Além disso, os carros furtados são frequentemente transportados para outros países ou desmantelados rapidamente, reduzindo ainda mais as hipóteses de recuperação.
Medidas de proteção que podem fazer a diferença
Apesar da sofisticação do método, existem formas concretas de reduzir significativamente o risco.
Entre as recomendações mais eficazes destacam-se:
- Guardar as chaves longe de portas e janelas
- Utilizar bolsas de Faraday para bloquear o sinal
- Evitar deixar chaves em locais previsíveis
- Instalar bloqueadores físicos (como travões de volante)
- Atualizar sistemas de segurança do veículo
Alguns fabricantes já começam a incorporar soluções adicionais, como modos de suspensão do sinal da chave, mas estas funcionalidades ainda não estão generalizadas.
Pequenas mudanças que evitam grandes prejuízos
Muitas vezes, bastam gestos simples para dificultar ou até impedir o ataque. Colocar a chave num local mais afastado da entrada da casa ou utilizar uma bolsa de bloqueio pode ser suficiente para quebrar a cadeia do ataque.
Num contexto em que o crime evolui com a tecnologia, a prevenção passa a ser uma responsabilidade partilhada entre fabricantes, autoridades e utilizadores.
Um alerta para uma nova realidade digital
O relay attack não é apenas mais uma técnica de roubo — é um sinal claro de que a criminalidade está a adaptar-se à era digital.
O carro deixou de ser apenas um bem físico. É agora também um dispositivo tecnológico, com vulnerabilidades que podem ser exploradas à distância.
Ignorar esta realidade pode ter consequências graves.
Conclusão: a ameaça é silenciosa, mas real
O crescimento deste tipo de crime mostra que a segurança automóvel já não depende apenas de fechaduras ou alarmes. Depende, cada vez mais, da forma como a tecnologia é utilizada — e protegida.
Num mundo onde o conforto digital é prioritário, a segurança não pode ficar para segundo plano, sublinha o Postal.
Porque, hoje, um carro pode desaparecer sem deixar rasto. E amanhã, poderá ser ainda mais fácil.
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