Durante décadas, fizeram parte do quotidiano. Acumularam-se em carteiras, frascos de vidro, gavetas esquecidas e porta-luvas de automóveis. Serviram para completar trocos, pesar bolsos e atrasar filas.
Agora, o destino das moedas de 1 e 2 cêntimos pode estar traçado.
A Comissão Europeia e o Banco Central Europeu estão a estudar a eliminação progressiva destas pequenas denominações em toda a Zona Euro, numa decisão que poderá alterar a forma como milhões de europeus pagam em dinheiro.
O objetivo é simples: reduzir custos, simplificar transações e cortar desperdícios.
E a mudança poderá chegar mais cedo do que se imagina.
O problema invisível das moedas “sem valor”
À primeira vista, um ou dois cêntimos parecem insignificantes. Mas, somados em milhões, representam um problema financeiro e logístico gigantesco.
Fabricar estas moedas custa mais do que o seu próprio valor.
Entre:
- extração de metais
- processos industriais de cunhagem
- transporte
- armazenamento
- distribuição bancária
cada unidade acaba por gerar prejuízo para os cofres públicos.
Estudos europeus apontam para perdas acumuladas superiores a 1,4 mil milhões de euros desde a introdução do euro. Ou seja, manter estas moedas em circulação tem sido, na prática, um negócio ruinoso.
Maioria dos europeus apoia o fim
A mudança não é apenas técnica — é também social.
Segundo os inquéritos mais recentes, cerca de 70% dos cidadãos europeus concordam com a eliminação das moedas de 1 e 2 cêntimos.
As razões são claras:
- ocupam espaço
- perdem-se facilmente
- raramente são utilizadas
- complicam pagamentos
- aumentam o tempo nas caixas
Na vida real, muitas acabam esquecidas ou fora do circuito económico.
São dinheiro que existe, mas que praticamente não circula.
Países que já avançaram com o arredondamento
Portugal continua a utilizá-las normalmente, mas vários países da Zona Euro já deram o passo seguinte.
Arredondamento obrigatório:
- Bélgica
- Países Baixos
- Finlândia
- Irlanda
Deixaram de cunhar:
- Itália (desde 2018)
Sistema adotado recentemente:
- Eslováquia (2022)
Nestes casos, as moedas continuam a ter curso legal, mas deixaram de ser usadas como troco diário.
Na prática, desapareceram das carteiras.
Como funciona o arredondamento nos pagamentos em dinheiro
A solução proposta é simples, transparente e já testada noutros mercados.
O ajuste não incide sobre o preço individual dos produtos, mas sim sobre o total final da compra paga em numerário.
Regra aplicada:
- finais 1, 2, 6 ou 7 → arredonda para baixo
- finais 3, 4, 8 ou 9 → arredonda para cima
Exemplos práticos:
- 9,92 € → 9,90 €
- 9,94 € → 9,95 €
- 15,01 € → 15,00 €
- 15,08 € → 15,10 €
Ao longo do tempo, as diferenças tendem a compensar-se, não beneficiando sistematicamente nem o consumidor nem o comerciante.
O processo é neutro e equilibrado.
Pagamentos digitais mantêm o valor exato
Importa sublinhar um ponto essencial:
Cartão, MB Way, transferências e outros meios eletrónicos não sofrem qualquer arredondamento.
Nestes casos:
- o preço mantém-se ao cêntimo
- não há alterações
- não existem ajustes
A medida aplica-se exclusivamente a pagamentos em dinheiro físico.
Impactos esperados na economia e no dia a dia
A eliminação prática das moedas de 1 e 2 cêntimos não representa apenas uma mudança simbólica. Os efeitos fazem-se sentir de forma concreta em várias dimensões da sociedade.
Ao nível dos custos públicos, espera-se uma redução significativa das despesas associadas à produção, transporte e armazenamento destas moedas, aliviando a pressão sobre os orçamentos do Estado.
No plano ambiental, o impacto poderá ser igualmente relevante, com menor extração de metais, menos processos industriais poluentes e uma diminuição considerável da pegada carbónica ligada à cunhagem e distribuição de numerário.
Para os consumidores, a diferença será sentida no dia a dia: carteiras mais leves, menos moedas esquecidas em bolsos e gavetas, pagamentos mais rápidos nas caixas e menos tempo perdido à procura de trocos exatos.
Já para o comércio, a simplificação é evidente. Menos necessidade de gerir moedas de baixo valor, menos erros de caixa, menos depósitos bancários de trocos e filas mais ágeis, melhorando a experiência de compra.
Também a logística bancária beneficia, com menos transporte de numerário, menos armazenamento e uma gestão mais eficiente do dinheiro físico.
No conjunto, trata-se de uma pequena alteração que pode gerar grandes ganhos de eficiência, sustentabilidade e praticidade.
Uma mudança que parece inevitável
A tendência europeia aponta para um futuro sem cêntimos mínimos.
Num mundo cada vez mais digital, onde os pagamentos eletrónicos dominam, as moedas de 1 e 2 cêntimos tornaram-se quase relíquias de outra era.
Símbolos de um tempo em que cada troco contava.
Hoje, representam sobretudo custos.
Para quem ainda guarda frascos cheios destas moedas, poderá ser prudente:
- depositá-las no banco
- trocá-las no comércio
- ou doá-las a instituições sociais
Antes que deixem definitivamente de circular.
Porque, silenciosamente, estes pequenos pedaços de cobre estão a preparar-se para sair de cena — e passar do bolso para a história.




