O céu prepara-se para mudar de humor. O que começa com alguma aparente tranquilidade pode transformar-se, em poucas horas, num cenário de instabilidade persistente, vento agressivo e mar revolto.
Uma engrenagem invisível, a milhares de quilómetros de altitude, está a acelerar – e quando a atmosfera acelera, o território sente.
A intensificação da corrente de jato no Atlântico Norte está a reorganizar completamente o tabuleiro meteorológico, empurrando o anticiclone, abrindo corredores ao ar frio polar e forçando a descida de depressões em latitude. Traduzindo: mais chuva, mais vento, mais agitação marítima e risco acrescido de cheias.
Este fim de semana, 31 de janeiro e 1 de fevereiro, poderá marcar o início de um novo ciclo de tempo perturbado em Portugal.
Depois da ansiedade deixada pela tempestade Kristin, qualquer mudança no céu pesa mais. E, embora não esteja prevista uma tempestade com essa magnitude, o cenário que se aproxima está longe de ser inofensivo.
A precipitação persistente, os solos saturados e a agitação marítima criam uma combinação perigosa.
Basta chuva contínua para provocar inundações, ribeiras cheias e estradas cortadas.
O risco não vem de um fenómeno extremo isolado. Vem da persistência.
E essa persistência já está a caminho.
O que está a acontecer na atmosfera?
A corrente de jato — uma espécie de “autoestrada de vento” a grande altitude — está a ganhar força a oeste dos Açores.
Quando isto acontece:
- o anticiclone intensifica-se
- o ar polar desce mais para sul
- as depressões seguem a mesma trajetória
- as frentes chuvosas chegam com maior frequência
O resultado é claro: instabilidade prolongada nas latitudes de Portugal.
Não se trata de um episódio passageiro. É uma mudança de padrão.
Sábado: uma falsa trégua antes do agravamento
O anticiclone ainda tentará impor algum equilíbrio.
O dia de sábado deverá trazer:
- céu muito nublado, mas com abertas
- possibilidade de nevoeiros matinais no litoral e serras
- aguaceiros fracos no Norte
- neve nas terras altas acima dos 1100/1300 metros
O vento sopra moderado de oeste, mas o maior perigo estará no mar.
A costa ocidental enfrenta ondulação extrema, com ondas que podem atingir 10 a 12 metros, levando o IPMA a emitir aviso vermelho.
O oceano entra em modo violento.
Mesmo com pouca chuva, o mar será o verdadeiro protagonista.
Domingo: chuva regressa com força e vento intensifica
A trégua termina rapidamente.
No domingo, uma nova frente atravessa o território, trazendo:
- chuva mais frequente e persistente
- aguaceiros localmente fortes no Norte e Centro
- vento sudoeste com rajadas até 75 km/h
- ambiente húmido, abafado e temperaturas acima da média
O solo, já encharcado, poderá não conseguir absorver mais água.
E é nestes momentos que surgem:
- cheias rápidas
- inundações urbanas
- quedas de árvores
- estradas escorregadias
Não será uma tempestade histórica.
Mas poderá ser meteorologicamente desgastante e cumulativo.
Açores: vento severo e mar perigoso
O arquipélago dos Açores volta a enfrentar condições mais agressivas.
Estão previstos:
- vento forte a muito forte
- rajadas até 85 km/h
- descida acentuada da temperatura
- ondas até 10 metros nas ilhas ocidentais
O mar torna-se particularmente perigoso para navegação e zonas costeiras.
Este cenário poderá marcar o início de vários dias consecutivos de instabilidade.
Madeira: estabilidade aparente, mas vento a aumentar
A Madeira escapa ao pior da chuva, mas não ao sinal da mudança.
Prevê-se:
- céu geralmente seco
- aumento gradual do vento
- rajadas fortes a partir de domingo
- ondulação significativa na costa norte
Um prenúncio claro de que o Atlântico está longe de acalmar.
Tempestades como a “Kristin” vão repetir-se?
Para já, não.
Os modelos meteorológicos não indicam nenhum fenómeno extremo semelhante no curto prazo.
Eventos como a Kristin têm, historicamente, um período de retorno de cerca de 10 anos.
Contudo, as alterações climáticas tornam o comportamento da atmosfera mais imprevisível.
E quando o padrão muda, os extremos podem tornar-se mais frequentes.
Por isso, mesmo sem tempestade nomeada, o risco nunca deve ser ignorado.
Porque muitas vezes são os episódios “normais” — mas persistentes — que causam mais danos.
Conclusão: um fim de semana sob tensão meteorológica
Portugal entra num período de vigilância.
Não se espera caos absoluto.
Mas também não haverá tranquilidade.
Entre chuva repetida, vento forte e mar revolto, o cenário exige prudência, atenção às previsões e cautela nas zonas costeiras e ribeirinhas.
O céu pode não gritar.
Mas vai pressionar.
E quando a atmosfera pressiona durante dias seguidos, o território sente — e muito.
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