Portugal pode não estar no “top” dos países com sismos frequentes, mas a verdade é dura: estamos numa zona geológica vulnerável, com eventos históricos comprovados — e isso significa que um grande terramoto pode voltar a acontecer. Os registos históricos e a ciência moderna mostram que algumas das nossas cidades estão particularmente expostas não só à possibilidade de um tremor de terra, mas também aos danos que isso pode provocar em infraestruturas e vidas humanas.
Estamos realmente em risco sísmico?
Sim. O território português insere-se no contexto geológico da placa Euro-Asiática, com o limite a Sul na falha Açores-Gibraltar — uma zona com potencial para sismos de grande magnitude, como o que devastou Lisboa em 1755.
Embora os sismos em Portugal Continental sejam geralmente menos frequentes que noutros países mediterrânicos, o risco existe — e é maior nas zonas costeiras e em áreas com muita população e construções antigas.
Cidades mais vulneráveis a um grande sismo
A seguir tens uma lista das principais cidades portuguesas mais expostas a danos severos num sismo de elevada magnitude, com explicações de porquê cada uma está em risco.
1. Lisboa — capital numa zona sísmica complexa
Lisboa é a cidade mais conhecida por estar em risco sísmico no continente português — e com boas razões.
Risco histórico: Eventos sísmicos conhecidos em 1531 e 1755 causaram destruição massiva na capital e arredores, com milhares de vítimas e danos generalizados em edifícios e infraestruturas.
Terreno vulnerável: A cidade está construída em grande parte sobre solos aluviais e sedimentos do Tejo, que amplificam as ondas sísmicas, criando áreas de maior intensidade de abalo e dano potencial.
Bairro histórico: Zonas como a Baixa Pombalina, Alfama e Mouraria têm muitas construções antigas que são menos resistentes ao movimento do solo.
Lisboa não é apenas vulnerável porque está perto de uma falha — a própria composição do solo e o tipo de construção aumentam o impacto de um sismo.
2. Setúbal e Península de Setúbal
A região de Setúbal e a Península de Setúbal (incluindo Almada, Seixal, Barreiro) estão na mesma zona tectónica que Lisboa e sofrem a mesma influência geológica. As zonas baixas e perto da costa têm solos menos firmes, aumentando o efeito das ondas sísmicas.
Os aglomerados urbanos densos com construções antigas são suscetíveis a fissuras, colapsos e quedas de estruturas. Esta área continua a crescer em população e edificação sem necessariamente reforçar a resistência sísmica das construções mais antigas.
3. Faro e Algarve — ponto quente no sul de Portugal
Se há uma surpresa geográfica, ela vem do Algarve.
Estudos científicos recentes mostram que o Algarve continental tem um dos maiores riscos sísmicos em Portugal em termos de estimativa de agitação do solo.
A costa sul está localizada mais próxima do limite Sul da placa Euro-Asiática, e eventos sísmicos históricos significativos (como um sismo de magnitude estimada perto de 7 na década de 1960) ocorreram nesta região.
Embora o Algarve seja mais conhecido pelas praias e turismo, essa localização expõe cidades como Faro, Portimão e Lagos a um risco maior de sentir um abalo mais forte do que muitas zonas do norte.
4. Porto — densidade populacional e construções antigas
O Porto tem um risco sísmico inferior ao de Lisboa ou Faro, mas não é negligenciável.
A cidade e a sua área metropolitana têm muitos edifícios antigos, especialmente no centro histórico, que não foram construídos com normas modernas de resistência sísmica.
A elevada densidade populacional e económica significa que qualquer evento grave teria impacto humano e financeiro substancial.
Mesmo que os sismos com epicentros nesta parte norte sejam menos frequentes, um evento médio pode ainda causar danos consideráveis.
5. Santarém e Vale Inferior do Tejo
Esta região foi epicentro de sismos históricos, como o de 1909 em Benavente (magnitude 6,7), que foi sentido a dezenas de quilómetros de distância.
A presença de terrenos sedimentares amplificáveis também aumenta o potencial de danos quando ocorrem abalos.
A proximidade de grandes eixos rodoviários e ferroviários torna os efeitos secundários de um sismo (interrupção de infraestruturas) ainda mais críticos.
6. Açores — um mundo à parte em sismicidade
As ilhas dos Açores encontram-se numa zona de encontro de placas tectónicas (Eurasiática, Norte-Americana e Africana), o que cria um dos contextos de maior atividade sísmica em Portugal.
Cidades como Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta são historicamente afetadas por sismos com intensidade significativa.
A atividade vulcânica da região intensifica a imprevisibilidade.
Aqui o risco sísmico não é hipotético — é real e documentado com frequência.
Por que estas cidades podem sofrer mais danos?
Existem três fatores principais que agravam os impactos de um grande sismo:
1. Solos que amplificam o movimento
Todos os engenheiros civis sabem isto: um terreno arenoso ou aluvial pode multiplicar a intensidade de um abalo, mesmo se o epicentro estiver fora da cidade.
2. Construções antigas sem reforço sísmico
A maior parte do parque habitacional em muitas destas cidades foi construída antes das normas modernas anti-sismo, deixando casas e prédios mais vulneráveis a rachaduras ou colapsos.
3. Densidade populacional e atividades económicas
Mais pessoas e mais economias concentradas significa que danos sísmicos têm impactos sociais e financeiros mais profundos.
Preparar-se não é opcional
O risco está lá — e pode não ser hoje, mas os registos históricos e as análises científicas mostram que o próximo grande terramoto virá mais cedo ou mais tarde.
Mas há algo que pode fazer agora:
- conhecer as zonas mais vulneráveis da tua cidade;
- garantir que a tua casa está preparada;
- criar um plano familiar para o que fazer se a terra tremer;
- informar-te através da Proteção Civil e IPMA.
Porque, quando a terra decidir mover-se de novo… quem estiver preparado tem muito mais hipóteses de sair em segurança.




