Portugal acorda sob tensão da depressão Kristin. São seis da manhã desta quarta-feira, dia 28, e o país já sente no corpo o peso de uma noite difícil. O vento uiva nas janelas, a chuva bate com violência nas estradas ainda escuras e, nas terras altas, a neve começa a cobrir telhados e montes como um aviso silencioso de que o pior ainda pode não ter passado.
A depressão secundária associada à tempestade Joseph intensificou-se rapidamente durante a madrugada, tal como os meteorologistas temiam. O que começou ontem como instabilidade transformou-se num verdadeiro episódio de tempo severo, com precipitação intensa, rajadas potencialmente destrutivas e condições perigosas em terra e no mar.
O Norte e o Centro estão agora na linha da frente.
E o dia nasce com alertas sérios.
Depois de uma terça-feira instável, a madrugada trouxe o golpe mais duro
Ao longo de terça-feira, a chuva espalhou-se por praticamente todo o território continental, acompanhada de vento persistente. Não foi ainda o caos — mas foi o prenúncio.
Durante a noite, o cenário mudou.
A entrada de ar polar nas camadas mais baixas da atmosfera fez cair as temperaturas a pique. Esse ar frio colidiu com um sistema depressionário muito ativo a oeste da costa, criando as condições perfeitas para um agravamento súbito do estado do tempo.
O resultado foi explosivo. Entre as 2h e as 5h da manhã, a precipitação intensificou-se de forma rápida e agressiva, com bandas de chuva forte a atravessar o território de sul para norte, acompanhadas por rajadas violentas.
Muitos portugueses acordaram com o som do vento a bater nas persianas. Outros passaram a noite em sobressalto.
Chuva intensa e risco real de inundações
Durante esta madrugada e ao longo das próximas horas da manhã, os acumulados de precipitação são expressivos. Distritos como Coimbra, Braga e Portalegre já ultrapassam os 60 mm de chuva. Guarda, Viseu e Leiria aproximam-se dos 50 mm. Em grande parte do restante território, os valores rondam os 40 mm — quantidades suficientes para provocar enxurradas, cheias rápidas e dificuldades de drenagem nas zonas urbanas.
Com os solos saturados pela chuva dos últimos dias, a água já não infiltra.
Escorre.
Invade ruas.
Enche sarjetas.
Transforma estradas em autênticos lençóis de água.
O risco de inundações localizadas e constrangimentos na circulação é elevado, sobretudo em áreas ribeirinhas e centros urbanos densos.
Rajadas violentas podem provocar danos
O vento é outro protagonista desta madrugada.
Nas zonas mais expostas do litoral e nas terras altas, as rajadas podem ultrapassar os 140 km/h, especialmente nos distritos do Porto, Aveiro e Viseu.
Mesmo em regiões mais a sul, como Lisboa, Alentejo litoral e Algarve, esperam-se rajadas entre 90 e 105 km/h.
São valores capazes de:
- derrubar árvores
- deslocar estruturas frágeis
- danificar telhados
- provocar cortes de energia
- criar perigo real na condução
A sensação nas ruas é de instabilidade permanente. O ar não pára.
Tudo abana.
Neve significativa pinta o Norte e Centro de branco
Se no litoral a chuva domina, no interior o cenário é outro.
A conjugação entre ar polar e precipitação intensa está a favorecer queda de neve a cotas invulgarmente baixas.
Desde a madrugada que neva com intensidade na Serra da Estrela, mas também em vários pontos de Vila Real, Viseu, Guarda e Castelo Branco.
Em zonas de maior altitude, a acumulação pode ultrapassar 30 centímetros.
Algumas localidades acordam já cobertas de branco, com estradas escorregadias, gelo e dificuldades de circulação.
Este não é apenas um postal de inverno.
É um risco concreto para quem precisa de sair de casa.
Mar perigoso e costa sob alerta máximo
A agitação marítima agrava ainda mais o cenário.
Ondas entre 4 e 6 metros, com picos que podem chegar aos 10 ou 11 metros, colocam a orla costeira em risco elevado.
Molhes, praias, arribas e zonas ribeirinhas tornam-se locais perigosos.
A força do mar, nestas condições, é imprevisível.
Bastam segundos de distração.
Proteção Civil deixa recomendações urgentes
Face à gravidade do episódio, a Proteção Civil mantém avisos ativos e pede prudência máxima.
As autoridades recomendam:
- Evitar zonas arborizadas devido ao risco de queda de árvores e ramos.
- Não permanecer junto ao mar ou margens de rios.
- Reduzir a velocidade na condução.
- Ter atenção a lençóis de água, neve e gelo na estrada.
- Garantir combustível ou bateria suficiente no veículo.
- Levar bens essenciais e medicamentos em deslocações longas.
- Proteger animais e bens em zonas inundáveis.
Pequenos gestos podem fazer a diferença entre segurança e perigo.
O que esperar nas próximas horas
Ao longo da manhã, a tempestade poderá perder gradualmente intensidade em algumas regiões do Sul, com abertas ocasionais.
Contudo, no Norte e Centro, a instabilidade deverá persistir, com chuva fraca a moderada, vento forte e frio intenso.
O tempo severo ainda não desapareceu.
Apenas abranda.
Conclusão: um amanhecer de alerta
O dia 28 nasce sob tensão meteorológica.
Depois de uma noite agitada, Portugal enfrenta agora as consequências de uma das madrugadas mais instáveis deste inverno.
Chuva forte, vento destrutivo, neve e mar revolto.
Um cenário exigente.
E que pede cautela redobrada.
Porque, nestes dias, a natureza não avisa duas vezes.




