Aprender a conduzir poderá deixar de estar exclusivamente fechado às portas de uma escola de condução. O Governo prepara uma mudança histórica no ensino da condução em Portugal que promete reduzir custos, aumentar a flexibilidade e aproximar a aprendizagem do ambiente familiar.
A proposta prevê que pais, mães ou outros familiares possam assumir o papel de tutor, acompanhando os candidatos nas primeiras aulas práticas ao volante. Na prática, a estrada deixa de ser apenas território dos instrutores profissionais — e passa também a ser uma extensão da família.
Para muitos, trata-se de uma pequena revolução. Para outros, uma oportunidade há muito aguardada.
Porque aprender a conduzir não é apenas decorar regras ou cumprir horas obrigatórias. É ganhar confiança, errar, repetir, sentir o carro e dominar o medo. E isso, muitas vezes, faz-se melhor ao lado de alguém próximo.
Se a medida avançar, o modelo tradicional do ensino da condução em Portugal poderá mudar para sempre.
O que vai mudar na carta de condução?
A escola de condução continua a ser obrigatória. Nada muda na formação teórica:
as aulas mantêm-se, o exame de código continua igual e a inscrição numa escola é indispensável.
A grande transformação surge na formação prática.
Até agora, as primeiras 12 aulas tinham obrigatoriamente de ser dadas por um instrutor profissional. Com a nova proposta, essas aulas iniciais poderão ser ministradas por um tutor, escolhido pelo próprio aluno.
Ou seja:
o primeiro contacto com o volante pode acontecer fora da escola, num ambiente mais próximo, menos formal e potencialmente mais confortável.
Quem pode ser tutor de condução?
O tutor pode ser:
- mãe
- pai
- familiar
- ou outro adulto de confiança escolhido pelo aluno
Contudo, existem regras rigorosas.
O candidato a tutor tem de:
- Ter carta de condução há pelo menos 10 anos
- Não ter crimes rodoviários
- Não ter contraordenações graves ou muito graves nos últimos 5 anos
- Concluir um curso específico de tutor
- Estar devidamente registado na escola de condução
A nomeação é feita através de comunicação formal à escola, acompanhada de declaração comprovativa.
Sem escola nas primeiras aulas: é mesmo possível?
Sim.
Pela primeira vez, a aprendizagem pode começar fora da escola, desde que acompanhada por tutor certificado.
Este modelo já é utilizado com sucesso em vários países europeus, como:
- Alemanha
- França
- Bélgica
- Suécia
- Dinamarca
Nestes países, a condução acompanhada tem demonstrado maior confiança dos alunos, mais horas de prática real e melhores taxas de aprovação.
Portugal prepara-se agora para seguir a mesma lógica.
Há limites? Nem tudo é livre
Apesar da maior flexibilidade, o sistema não será desregulado.
Estão previstas várias salvaguardas:
- limites geográficos definidos pelas câmaras municipais
- seguro obrigatório específico
- acompanhamento pedagógico da escola
- teste final de aferição antes do exame
Ou seja, a escola continua a ter a última palavra.
Se o aluno não demonstrar competência suficiente, não avança para exame.
A segurança rodoviária mantém-se como prioridade.
Quais são as vantagens deste novo modelo?
A proposta poderá trazer benefícios claros:
Mais prática real
O aluno pode conduzir mais vezes, em diferentes horários e contextos.
Menos custos
Redução do número de aulas pagas à escola.
Menos pressão
Ambiente familiar reduz ansiedade e bloqueios iniciais.
Mais confiança
Aprendizagem progressiva e personalizada.
Maior acessibilidade
Facilita o acesso à carta para famílias com menos recursos.
Mas existem riscos?
Como qualquer mudança, também há preocupações.
Especialistas alertam para:
- possíveis vícios de condução transmitidos por familiares
- menor uniformidade pedagógica
- necessidade de fiscalização eficaz
Por isso, a certificação dos tutores e a supervisão das escolas serão determinantes.
Sem controlo, a flexibilidade pode transformar-se em insegurança.
Com regras claras, pode ser uma verdadeira democratização do ensino da condução.
Quando entra em vigor?
A proposta segue para Conselho de Ministros.
Depois de aprovada, terá ainda de ser regulamentada antes de produzir efeitos.
Como se trata de decreto, poderá não necessitar de passar pelo Parlamento.
Até lá, o regime atual mantém-se.
Conclusão: o volante pode começar em casa
A carta de condução sempre foi sinónimo de liberdade. Agora, o caminho até ela pode tornar-se mais humano, acessível e próximo.
Se a medida avançar, milhares de jovens poderão dar os primeiros metros ao volante ao lado de alguém em quem confiam — não apenas de um instrutor desconhecido.
Pode parecer um detalhe.
Mas, para muitos, pode fazer toda a diferença entre o medo e a confiança.
Entre reprovar… ou passar.




