Durante décadas, havia algo quase intocável nas estações de serviço em Portugal. Fosse numa grande área de serviço da autoestrada ou na mais modesta bomba de combustível de uma pequena localidade, havia dois serviços que pareciam garantidos: ar para os pneus e água para o para-brisas gratuitos.
Esse hábito está a desaparecer.
Cada vez mais postos de combustível estão a cobrar pelo enchimento de pneus e pela utilização da água.
A mudança está a gerar indignação nas redes sociais, debates acesos e uma pergunta inevitável: estamos perante uma necessidade operacional ou mais uma forma de faturar?
Porque é que as estações de serviço estão a cobrar pelo ar?
A ideia de que o ar era “gratuito” nunca foi totalmente rigorosa. O serviço tinha custos e alguém os suportava. As máquinas de enchimento de pneus:
- Consomem eletricidade.
- Exigem manutenção regular.
- Sofrem desgaste frequente.
- São alvo de vandalismo ou furto.
- Têm mangueiras que partem ou são danificadas.
Além disso, há registos frequentes de utilização indevida — desde lavagem improvisada de viaturas até enchimento prolongado e abusivo.
Num contexto de aumento generalizado de custos energéticos e operacionais, muitos proprietários de postos decidiram deixar de absorver essa despesa.
Trata-se de decisão das grandes marcas?
Nem sempre. Existe uma perceção generalizada de que são as grandes petrolíferas — como Galp, Repsol ou BP — que tomam estas decisões de forma centralizada. Contudo, muitos postos funcionam em regime de franchising.
Isso significa que:
- O proprietário local é responsável por parte significativa da operação.
- A manutenção das máquinas pode não ser suportada pela marca-mãe.
- A rentabilidade do posto depende de múltiplas fontes de receita.
Em alguns casos, surgiram empresas externas que instalam os equipamentos e ficam com parte das receitas cobradas.
Ou seja, pode tratar-se menos de uma estratégia corporativa e mais de um modelo de negócio adaptado à realidade económica atual.
Quanto está a ser cobrado?
Os valores variam, mas em muitos casos situam-se entre 0,50€ e 1€ por utilização.
Embora o montante pareça reduzido, o impacto emocional é significativo.
O motivo é simples: durante décadas, o serviço foi percebido como um direito adquirido.
Direito adquirido ou cortesia comercial?
Há aqui um fenómeno interessante do ponto de vista comportamental.
Quando algo é disponibilizado gratuitamente durante muitos anos, deixa de ser visto como um extra. Passa a ser entendido como parte integrante do serviço.
A introdução de um preço altera essa perceção.
Não é apenas o valor que incomoda. É a mudança de paradigma.
É uma tendência que veio para ficar?
Tudo indica que sim.
A cobrança pelo ar comprimido já se verifica:
- Em várias zonas urbanas.
- Em estações de serviço junto a autoestradas.
- Em postos independentes.
A tendência poderá generalizar-se nos próximos anos, especialmente se o modelo revelar viabilidade económica.
Há alternativas para os condutores?
Sim.
Cada vez mais automobilistas optam por adquirir um mini-compressor portátil.
As vantagens incluem:
- Autonomia total.
- Utilização em qualquer local.
- Investimento único relativamente baixo.
- Maior controlo da pressão dos pneus.
Estes dispositivos, alimentados pela tomada de 12V do veículo, estão disponíveis a preços acessíveis e tornaram-se uma solução prática para evitar custos recorrentes.
A importância de manter os pneus com a pressão correta
Para além do debate financeiro, há uma questão de segurança rodoviária.
Circular com pneus abaixo da pressão recomendada pode:
- Aumentar o consumo de combustível.
- Reduzir a estabilidade do veículo.
- Comprometer a travagem.
- Aumentar o desgaste irregular dos pneus.
- Elevar o risco de acidente.
Segundo especialistas em segurança rodoviária, a verificação regular da pressão é essencial para garantir eficiência, poupança e segurança.
Se a cobrança pelo ar desencorajar a manutenção adequada, poderá existir um impacto indireto na segurança nas estradas.
Estamos a normalizar pagar por tudo?
Esta é talvez a pergunta mais ampla, refere o Leak.
Nos últimos anos, assistiu-se à introdução de custos em serviços que anteriormente eram gratuitos:
- Sacos de plástico.
- Talheres descartáveis.
- Serviços bancários básicos.
- Entregas ao domicílio.
O ar nas estações de serviço poderá ser apenas mais um exemplo dessa transformação.
A fronteira entre sustentabilidade financeira e perceção de abuso comercial torna-se cada vez mais ténue.
Conclusão
Hoje, até o ar tem preço.
A mudança pode ser justificada por custos operacionais, combate a abusos ou novos modelos de negócio. Mas o impacto psicológico é inegável.
O que antes era cortesia tornou-se serviço pago.
E talvez a verdadeira questão não seja o valor cobrado, mas a sensação de que algo que sempre esteve ali deixou, subitamente, de estar.





