Já imaginou como seria a religião dos lusitanos, o povo antigo que habitava o oeste da Península Ibérica? Que deuses veneravam, como eram os seus rituais e de que forma se relacionavam com a natureza e os seus antepassados? Neste artigo, exploramos as crenças e práticas religiosas deste fascinante povo, cuja espiritualidade refletia uma profunda conexão com o mundo natural e o cosmos.
Quem eram os lusitanos?
Os lusitanos foram um dos povos pré-romanos que habitaram a região entre os rios Douro e Tejo, abrangendo grande parte do território de Portugal atual, bem como áreas da Galiza, Extremadura e Salamanca.
Este povo destacou-se pela sua bravura e resistência face à ocupação romana, que resultou nas célebres Guerras Lusitanas (séculos II a.C. a I d.C.). O seu líder mais emblemático, Viriato, tornou-se um símbolo de liberdade e heroísmo, marcando a história como um dos maiores opositores de Roma.
Embora não tenham deixado registos escritos, a cultura e religião dos lusitanos foram parcialmente documentadas por autores clássicos gregos e romanos.
Complementarmente, escavações arqueológicas nos castros fornecem pistas valiosas sobre o seu modo de vida, organização social e crenças espirituais.
A espiritualidade lusitana
A religião dos lusitanos era profundamente enraizada na natureza e na observação dos ciclos vitais. Era politeísta, com um vasto panteão de deuses e deusas que representavam forças naturais, fenómenos cósmicos, aspetos sociais e características humanas. Além disso, havia um forte culto aos antepassados, vistos como guardiões e fontes de sabedoria.
Segundo a VortexMag, os lusitanos realizavam os seus rituais em locais sagrados, como fontes, árvores, rochas ou colinas, locais que acreditavam possuir um poder especial. Estes espaços tornavam-se palco de oferendas e sacrifícios, muitas vezes envolvendo animais como bodes ou cavalos.

Os principais deuses e deusas da religião lusitana
A mitologia lusitana é rica e diversificada, com deuses que desempenhavam papéis fundamentais na vida comunitária e na interpretação do mundo. Entre as suas divindades, destacam-se:
Endovélico
Considerado o deus supremo dos lusitanos, Endovélico era associado à cura, à profecia e ao submundo. O seu culto era particularmente forte na região do Alentejo, onde o santuário de São Miguel da Mota acolhia peregrinações e rituais. O nome “Endovélico” pode ser traduzido como “o muito bom” ou “o muito velho”, refletindo a sua sabedoria e poder protetor.
Atégina
Deusa da fertilidade, da natureza e da morte, Atégina era uma figura dual, representando tanto o renascimento quanto o fim dos ciclos. Representações artísticas mostram-na frequentemente segurando frutos, símbolos de abundância e renovação. O seu nome, derivado de raízes célticas, significa “renascimento”.
Nabia
A deusa das águas, Nabia, era reverenciada como protetora dos rios, fontes e cursos de água. O seu nome, que significa “a que flui”, sublinha a sua ligação à pureza, fertilidade e renovação.
Bandua
Deus da guerra e defensor das comunidades, Bandua era visto como um protetor dos guerreiros e das cidades. Sacrifícios eram feitos em sua honra antes de batalhas, com o objetivo de garantir proteção e vitória.
Reue
O deus do sol, do fogo e do trovão, Reue simbolizava força e iluminação. O seu nome significa “o que brilha” ou “o que ilumina”, refletindo a sua importância como regente das forças celestiais e naturais.
Influências celtas e romanas
Embora os lusitanos tenham desenvolvido uma religião própria, a sua espiritualidade foi moldada por interações com culturas vizinhas. Influências celtas são evidentes em várias práticas e divindades, e, com a romanização, alguns deuses lusitanos foram assimilados e reinterpretados. Por exemplo, Bandua foi associado a Marte, enquanto Endovélico continuou a ser venerado mesmo sob domínio romano, sendo integrado nos seus cultos de saúde e cura.

Os rituais e o legado espiritual
Os rituais lusitanos eram eventos comunitários, que incluíam oferendas, sacrifícios e celebrações em honra das divindades. Estes momentos reforçavam a coesão social e a ligação com o divino, num constante diálogo entre o humano e o transcendente.
A memória da religião dos lusitanos persiste até hoje através de vestígios arqueológicos, como inscrições dedicatórias e esculturas, bem como das tradições locais que podem ter raízes nestas práticas ancestrais.
Conclusão
A religião dos lusitanos é um testemunho da rica espiritualidade e da conexão com o mundo natural que caracterizava este povo. Embora muito tenha sido perdido no tempo, os vestígios deixados mostram-nos um universo simbólico profundo e fascinante, onde os deuses, os antepassados e a terra se entrelaçavam numa harmonia sagrada.
Explorar a religião lusitana é também redescobrir as nossas raízes e compreender como os nossos antepassados se relacionavam com o mundo e o mistério da existência.