O telemóvel toca.
Do outro lado da linha, uma voz segura, profissional, convincente.
“Estamos a ligar do seu banco. Detetámos uma operação suspeita. É urgente agir já para proteger a conta.”
O coração acelera. O medo instala-se. A pressa toma conta.
Minutos depois, numa caixa Multibanco, o código PIN é introduzido com a convicção de que está a impedir um roubo.
Na realidade, está a autorizá-lo.
Este é o novo rosto das burlas bancárias em Portugal: sofisticadas, psicológicas, quase invisíveis.
Chamam-se vishing – e estão a fazer cada vez mais vítimas.
Sem violência. Sem hackers. Sem cartões clonados.
Apenas manipulação.
E resulta.
O que é o vishing e porque está a crescer
O termo vem da junção de “voice” (voz) com “phishing”. Trata-se de uma burla telefónica baseada em engenharia social, onde o criminoso convence a própria vítima a realizar operações que abrem caminho ao roubo do dinheiro.
Se antes as fraudes dependiam:
- do roubo físico do cartão
- da clonagem magnética
- ou de malware
hoje o método é mais simples – explora emoções humanas: medo, urgência e confiança na autoridade.
O resultado é devastador.
Porque quando é a própria pessoa a introduzir o PIN, o sistema interpreta a operação como legítima.
O elemento-chave do esquema: criar urgência e pânico
Nada neste golpe é deixado ao acaso.
O burlão sabe que, sob pressão, o cérebro decide mal.
Tudo começa com uma chamada que parece autêntica. O número exibido no ecrã pode surgir como sendo do banco, graças a técnicas de falsificação de identificação de chamadas (spoofing).
A credibilidade é imediata.
A conversa segue um guião cuidadosamente ensaiado:
- “Tentativa de clonagem do cartão”
- “Levantamento suspeito no estrangeiro”
- “Conta prestes a ser bloqueada”
- “Movimentos fraudulentos em curso”
Depois vem a frase decisiva:
“Tem de agir agora.”
Sem tempo para pensar. Sem espaço para confirmar.
A vítima entra em modo de emergência.
E é exatamente isso que o criminoso pretende.
O momento crítico acontece no Multibanco
Mantendo a chamada ativa, o falso “técnico” orienta passo a passo.
Pede que se dirija a uma caixa Multibanco “para cancelar a fraude”.
No local, as instruções parecem normais:
- ativar ou validar serviços
- alterar limites diários
- aderir ao MB Way
- confirmar dados de segurança
Nada parece suspeito.
Mas todas estas operações exigem uma coisa: o PIN.
Ao introduzi-lo, a vítima acredita que está a proteger a conta.
Na prática, está a dar autorização direta ao burlão para associar serviços ao seu próprio telemóvel ou para movimentar dinheiro.
É o momento em que a porta se abre.
Como o dinheiro desaparece em segundos
Assim que a validação é feita, o controlo passa para o criminoso.
Em poucos minutos, pode:
- associar o MB Way ao seu número
- levantar dinheiro sem cartão
- fazer compras online
- realizar transferências instantâneas
- esvaziar a conta para múltiplos destinos
Quando a vítima percebe o que aconteceu, muitas vezes já é tarde.
O dinheiro foi pulverizado por várias contas e o rastreio torna-se extremamente difícil.
Em alguns casos, impossível.
A regra de ouro que impede 100% destas burlas
Existe uma norma simples, absoluta e infalível:
Nenhum banco pede o PIN ou códigos de segurança após uma chamada telefónica.
Nunca. Em nenhuma circunstância.
Nem para:
- cancelar fraudes
- bloquear cartões
- validar operações
- atualizar dados
- “proteger” a conta
Se alguém pedir o PIN, trata-se de burla. Sem exceções.
O que fazer perante uma chamada suspeita
Perante qualquer contacto deste género, a atitude correta é imediata:
- terminar a chamada
- não seguir instruções
- não fornecer códigos
- contactar o banco apenas através do número oficial do cartão ou do site
- nunca devolver chamadas para o número recebido
Mesmo que pareça legítimo.
Mesmo que insistam.
Mesmo que ameacem.
A segurança está sempre acima da pressa.
Porque estas burlas são tão eficazes
O vishing não depende de tecnologia complexa.
Depende de algo muito mais poderoso: comportamento humano.
Os burlões exploram:
- medo de perder dinheiro
- respeito por figuras de autoridade
- reflexo automático de obedecer
- falta de tempo para pensar
Não roubam o cartão.
Levam a vítima a abrir a porta voluntariamente.
É por isso que qualquer pessoa pode cair – independentemente da idade ou experiência digital.
Desconfiança é proteção
Num mundo cada vez mais digital, a melhor defesa continua a ser simples: desconfiar.
O PIN é pessoal, secreto e intransmissível.
Sempre que alguém pedir para o introduzir ou revelar, o cenário é claro.
Não é ajuda.
Não é proteção.
É fraude.
E desligar pode ser a decisão que salva uma conta inteira.
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