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Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os caminhos alentejanos à procura de monumentos pré-históricos.

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Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema
Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema - HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os antigos caminhos alentejanos à procura de alguns dos principais monumentos pré-históricos portugueses.

Quem percorre a A6 em direção a Évora nem imagina que, escondidos entre a paisagem, existem centenas de monumentos pré-históricos — antas, menires e cromeleques, vestígios que fazem da região uma das mais importantes do país em termos arqueológicos.

Alguns vão sendo anunciados pelo caminho, em placas mais ou menos visíveis, mas a maioria caiu no esquecimento, coberta de ervas daninhas. Sem indicações ou GPS que nos valha, encontrar as antas e menires eborenses é, em muitos casos, uma tarefa quase impossível. Digna de um verdadeiro Sherlock Holmes.

Além dos recintos megalíticos — de entre os quais se destaca o famoso Cromeleque dos Almendres (mais antigo até que Stonehenge) — existem centenas de antas (ou dólmenes), conhecidas, pelo menos, desde a Idade Média. Uma delas é a mais alta da Península Ibéria, com cerca de oito metros de altura. Há menires solitários e a Gruta do Escoural, onde estão os únicos vestígios de arte rupestre do Paleolítico Superior em Portugal.

A importância dos vestígios pré-históricos de Évora é inegável, mas o número de visitantes não lhes faz justiça (apesar de a autarquia garantir que o número de visitantes aos principais monumentos tem vindo a aumentar).

O grande problema é que muitos deles estão no interior de grandes propriedades privadas onde, durante todo o dia, pastam pachorrentas vacas castanhas. E, como é óbvio, muitos proprietários preferem manter as portas fechadas aos visitantes. Quem conhece bem a região, acredita que a situação dificilmente será alterada. Os monumentos megalíticos de Évora continuarão a ser um segredo bem guardado.

Cientes disso, fizemo-nos à estrada, sem mapa ou guia que nos ajudasse. E foi com alguma dificuldade que conseguimos dar com alguns dos monumentos que os sites de turismo publicitam. Junto deles, a única coisa que encontrámos foi um silêncio quase total, apenas interrompido pelo som do vento a bater nas árvores. Só um casal de britânicos, emocionado, parecia determinado em descobrir as antas e menires da região.

O Cromeleque dos Almendres fica perto da aldeia de Nossa Senhora de Guadalupe, a cerca de 14 quilómetros de Évora

Cromeleque dos Almendres, o “Stonehenge” português

“É lindíssimo!”

O grito, em jeito de apresentação, chegou-nos da estrada que liga o parque de estacionamento ao Recinto Megalítico dos Almendres.

Um casal de britânicos, que tinha acabado de visitar o famoso cromeleque, caminhava apressado na nossa direção. O homem esbracejava enquanto nos explicava, entusiasmado, que tinha acabado de ver o local onde tinha “nascido a civilização”. “Fiquei emocionado! Pedi outra vez a minha mulher em casamento!”, confessou.

Ao lado, a mulher enxugava uma lágrima por baixo dos óculos de sol. Perguntámos-lhe se estava a chorar de emoção. “Não, acordei com os olhos lacrimejantes não sei porquê”, disse simplesmente, destruindo a hipótese de uma boa história.

A conversa foi curta, sem tempo para apresentações. O frio fazia-se sentir, e os dois apressaram-se a entrar dentro do carro de matrícula portuguesa. Estavam quatro graus em Montemor-o-Novo.

Seguimos em direção ao cromeleque, muitas vezes apelidado de “Stonehenge português”. E com alguma razão. Apesar da fama do monumento britânico, o Cromeleque dos Almendres é bem mais antigo — Stonehenge foi construído há cerca de cinco mil anos, o monumento português há sete mil. Além disso, o Cromeleque dos Almendres é o maior recinto megalítico da Península Ibérica, estimando-se que tenha sido erigido algures entre o sexto e quinto milénios a.C., numa altura em que “nasceram” muitas das antas e menires que ainda hoje preenchem a paisagem alentejana.

O Cromeleque dos Almendres foi identificado nos anos 60 pelo arqueólogo Henrique Leonor Pina, responsável pela “descoberta” de vários monumentos megalíticos da região – HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Composto por cerca de 100 menires, foi “descoberto” há mais de quatro décadas pelo historiador Henrique Leonor Pina, responsável pela identificação de vários monumentos megalíticos da região.

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Em alguns dos monólitos é ainda possível ver vestígios de algumas gravuras rupestres, já meio apagadas pela erosão — círculos, figuras em forma de serpente, “covinhas” e até báculos –, que são muito semelhantes às que podem ser encontradas em outros menires da região (como é o caso do Menir dos Almendres).

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Escavações recentes detetaram várias fases de construção do Cromeleque dos Almendres, que refletem as mudanças económicas, sociais e ideológica dos povos da região.

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Ao contrário de outros recintos, chegar ao dos Almendres não é nenhum bicho de sete cabeças. É fácil de encontrar a partir da aldeia de Nossa Senhora de Guadalupe, a cerca de 14 quilómetros de Évora (além do mais, aparece no Google Maps).

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Há um pequeno parque de estacionamento a cerca de 200 metros do local e, como a zona é pouco movimentada (sobretudo nos meses de inverno), lugares é coisa que não falta. Quando por lá passámos, o silêncio era quase total.

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Só era interrompido pelo som de uma retroescavadora que, não muito longe dali, empilhava molhos de cortiça numa carrinha de caixa aberta.

A pouco mais de um quilómetro de distância, no final de um longo caminho rodeado de silvas, fica o Menir dos Almendres. Os dois monumentos estão intimamente ligados — o alinhamento de ambos coincide com o nascer do sol no Solstício de Verão (o maior dia do ano).

Como o menir fica numa propriedade privada (como a maioria dos monumentos megalíticos de Évora), o percurso até lá está todo vedado. Até o próprio menir se encontra rodeado por um círculo de estacas de madeira e arame.

O Menir dos Almendres fica ao pé do cromeleque com o mesmo nome. Os dois monumentos estão alinhados com o nascer do sol no Solstício de Verão

(cont.)

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