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«Voltar atrás» será erro de português?

Toca a caçar os erros verdadeiros mas sem eliminar expressões inocentes da nossa língua. «Voltar atrás» será erro de português?

20012
«Voltar atrás» será erro de português?
«Voltar atrás» será erro de português?

«Voltar atrás» será erro de português?

Toca a caçar os erros verdadeiros mas sem eliminar expressões inocentes da nossa língua. «Voltar atrás» será erro de português?

Marco Neves
Marco Neves

Já há algum tempo que não me dedico ao meu desporto favorito: defender boas expressões portuguesas dos ataques sem piedade de quem gosta de inventar erros. E porque volto à liça neste dia? Porque ontem ouvi alguém a defender que a expressão «voltar atrás» é erro.

Há mesmo muita gente convencida de que basta arranjar uma lógica apressada para declarar esta ou aquela expressão como erro de português — mesmo que todos os falantes usem tal expressão sem pestanejar.

Já ouvi quem considerasse erro a expressão «na senda de» porque «senda» quer dizer «caminho» (pois…); outros chamam estúpido a quem usa a bela construção «não há nada» — e há ainda quem corrija todos os pobres portugueses que dizem «queria um copo de água, por favor».

Ainda há uns dias atrevi-me a perguntar a uma senhora que corrigiu o meu «queria um sumo» se achava mesmo que a expressão era erro. Resposta? «Claro! “Queria” está no passado! Se quer o sumo agora, tem de usar o presente.» Calei-me. Senti-me atropelado por esta lógica impecável. O que vale é que somos todos gente civilizada — e mesmo tendo eu feito o pedido no pretérito imperfeito, o sumo apareceu em cima da mesa no presente do indicativo.

Pois, ontem, aconteceu-me esta: encontrei alguém que considera a expressão «voltar atrás» um exemplo do mau uso da língua portuguesa.

Porquê? Porque, enfim, se estamos a voltar só podemos estar a voltar atrás. Logo, «voltar atrás» é um pleonasmo.

O que dizer perante isto? Podia começar a argumentar. «Ah, olha que não: eu posso voltar atrás, mas também posso voltar para casa dos meus pais, voltar para o país onde nasci…» Mas não vale a pena. A lógica da batata não morre à força de mais batatas.

O que posso antes dizer é isto: a expressão «voltar atrás» faz parte da nossa língua — e é tão portuguesa como:

«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?

etc.

Onde fui buscar esta lista? Já vi estas expressões condenadas sem apelo nem agravo por este ou aquele especialista instantâneo. O que estes especialistas fazem é isto: pegam num qualquer capricho de ocasião e alçam-no à categoria de facto da língua (ou então pegam no capricho de alguém que criou uma lista espertalhona e a enviou a todos os contactos).

E isso, meus caros, serve apenas para nos irmos irritando uns aos outros e para umas quantas almas sentirem no seu íntimo quão superiores são aos pobres falantes que dizem «voltar atrás» e «queria um copo de água».

Em conclusão: «voltar atrás» não é um erro de português. Aliás, experimentem lá tirar a palavra «atrás» das seguintes frases:

«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?

Estas frases sem a palavra «atrás» são uma dor na língua, não são?

Toca a caçar os erros verdadeiros (que são muitos e variados) — mas que ninguém tente eliminar expressões inocentes da nossa língua só porque acordou maldisposto um belo dia. (E, já agora, não basta gritar «redundância» para encontrar erros…)

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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1 COMENTÁRIO

  1. O pedantismo pode prejudicar a Comunicação. A função principal da língua (idioma) é permitir a comunicação entre os habitantes de uma determinada nação. Se para isso segue-se rigorosamente as regras gramaticais é um fato que deve ser revisto. No Brasil, cantamos e apreendemos perfeitamente o significado da expressão contida na letra “tálbua de tiro ao álvaro” e até aprovamos a carga de humor que ela traz consigo. Agora, não entendo o porquê de serem criados embaraços a uma formatação comunicativa como: voltar atrás. Nem pensar que possa ser pleonasmo. E, se a situação fosse esta?: Volte à frente de combate! Voltar atrás é uma expressão com cunho advérbio-modal contendo a carga semântica de mudança de posição, ou arrependimento.
    Nota: Convém que se corrija o pronome interrogativo no sexto parágrafo do texto principal, que deve ser separado: “Por quê?”

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