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«Voltar atrás» é erro de português?

Toca a caçar os erros verdadeiros mas sem eliminar expressões inocentes da nossa língua. «Voltar atrás» é erro de português?

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«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?

«Voltar atrás» é erro de português?

Toca a caçar os erros verdadeiros mas sem eliminar expressões inocentes da nossa língua. «Voltar atrás» é erro de português?

Marco Neves
Marco Neves

Já há algum tempo que não me dedico ao meu desporto favorito: defender boas expressões portuguesas dos ataques sem piedade de quem gosta de inventar erros. E porque volto à liça neste dia? Porque ontem ouvi alguém a defender que a expressão «voltar atrás» é erro.

Há mesmo muita gente convencida de que basta arranjar uma lógica apressada para declarar esta ou aquela expressão como erro de português — mesmo que todos os falantes usem tal expressão sem pestanejar.

Já ouvi quem considerasse erro a expressão «na senda de» porque «senda» quer dizer «caminho» (pois…); outros chamam estúpido a quem usa a bela construção «não há nada» — e há ainda quem corrija todos os pobres portugueses que dizem «queria um copo de água, por favor».

Ainda há uns dias atrevi-me a perguntar a uma senhora que corrigiu o meu «queria um sumo» se achava mesmo que a expressão era erro. Resposta? «Claro! “Queria” está no passado! Se quer o sumo agora, tem de usar o presente.» Calei-me. Senti-me atropelado por esta lógica impecável. O que vale é que somos todos gente civilizada — e mesmo tendo eu feito o pedido no pretérito imperfeito, o sumo apareceu em cima da mesa no presente do indicativo.

Pois, ontem, aconteceu-me esta: encontrei alguém que considera a expressão «voltar atrás» um exemplo do mau uso da língua portuguesa.

Porquê? Porque, enfim, se estamos a voltar só podemos estar a voltar atrás. Logo, «voltar atrás» é um pleonasmo.

O que dizer perante isto? Podia começar a argumentar. «Ah, olha que não: eu posso voltar atrás, mas também posso voltar para casa dos meus pais, voltar para o país onde nasci…» Mas não vale a pena. A lógica da batata não morre à força de mais batatas.

O que posso antes dizer é isto: a expressão «voltar atrás» faz parte da nossa língua — e é tão portuguesa como:

«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
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«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?

etc.

Onde fui buscar esta lista? Já vi estas expressões condenadas sem apelo nem agravo por este ou aquele especialista instantâneo. O que estes especialistas fazem é isto: pegam num qualquer capricho de ocasião e alçam-no à categoria de facto da língua (ou então pegam no capricho de alguém que criou uma lista espertalhona e a enviou a todos os contactos).

E isso, meus caros, serve apenas para nos irmos irritando uns aos outros e para umas quantas almas sentirem no seu íntimo quão superiores são aos pobres falantes que dizem «voltar atrás» e «queria um copo de água».

Em conclusão: «voltar atrás» não é um erro de português. Aliás, experimentem lá tirar a palavra «atrás» das seguintes frases:

«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?
«Voltar atrás» é erro de português?

Estas frases sem a palavra «atrás» são uma dor na língua, não são?

Toca a caçar os erros verdadeiros (que são muitos e variados) — mas que ninguém tente eliminar expressões inocentes da nossa língua só porque acordou maldisposto um belo dia. (E, já agora, não basta gritar «redundância» para encontrar erros…)

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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1 COMENTÁRIO

  1. Gostaria que fosse comentada uma palavra que entrou para o Português corrente, que não existe e nunca existiu que é fruto, quanto a mim, da ignorância em que se vive hoje que é EMPREENDEDORISMO. Esta é utilizada para manifestar a qualidade, capacidade ou o espírito que o empreendedor tem, para isso limitaram-se a “inventar” EMPREENDEDOR+Ismo, quando na realidade, já há uma palavra usada há muito tempo e que vem no dicionário que é, EMPREENDIMENTO. Esta, já quer dizer tudo aquilo que foi dito anteriormente e NÃO SOMENTE, a manifestação física ou a obra de um empreendedor, como um prédio, um complexo de apartamentos ou de firmas,etc.

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