Início Histórias Sismos: A placa africana está a rachar o país

Sismos: A placa africana está a rachar o país

O sismo de Arraiolos foi uma surpresa. Não só porque não se pode prever um sismo, como porque este é o maior sismo originado em terra nos últimos anos.

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4 – As infraestruturas em Portugal têm capacidade para resistir a sismos de grandes dimensões?

Ainda que a perigosidade sísmica cresça à medida que vamos de norte para sul, o nível de preparação dos edifícios para resistir aos sismos são equivalentes, disse ao Observador Daniel Oliveira, professor no Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho. “Devemos, por isso, concentrar os nossos esforços onde a perigosidade é mais alta e onde existem mais pessoas, como a Área Metropolitana de Lisboa, o Vale Inferior do Tejo e o Algarve.”

Existe, desde 1958, uma legislação que prevê a resistência antissísmica dos edifícios. Primeiro problema: esta legislação aplica-se apenas aos edifícios construídos depois desta data. Segundo problema: levou algum tempo — uma ou duas dezenas de anos, segundo Daniel Oliveira — até que os projetos de construção passassem a contemplar a resistência antissísmica. Terceiro problema: “O regulamento é bom, mas falta a verificação. Não há garantias que o projeto — ainda que tenha previsto a resistência antissísmica — seja respeitado”, disse o engenheiro civil. Conclusão: não se sabe, de forma geral, que capacidade tem o edificado nacional para resistir a um terramoto de grandes dimensões.

Para Lisboa, e sendo esta uma área de elevado risco, existe uma avaliação de risco sísmico feita em 2010 pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Esta avaliação, coordenada por Alfredo Campos Costa, chefe do Núcleo de Engenharia Sísmica e Dinâmica de Estruturas, teve em consideração a densidade populacional, os materiais de construção e o tipo de solos.

A maior parte dos edifícios lisboetas foram construídos antes da legislação antissísmica

Edifícios construídos em Lisboa

Arroios seria a zona mais afetada com perdas económicas por ser uma das zonas com maior perigosidade, maior exposição e maior incidência de edifícios com materiais vulneráveis. Já o impacto humano de um terramoto que atingisse Lisboa seria particularmente grave no centro da cidade. O estudo prevê que as Avenidas Novas, Arroios, Anjos, Penha de França e São João de Deus sejam as zonas com o maior número de vítimas mortais.

Conhecido o risco sísmico, caberia ao Estado tornar as cidades mais resilientes. “É difícil convencer o poder político a gastar dinheiro durante 20 ou 30 anos na prevenção de risco sísmico, quando os ciclos políticos são de quatro anos”, lamentou Daniel Oliveira. Para o engenheiro civil é preciso que a sociedade civil entenda isto como um problema e que pressione o poder político. Porque não existem dúvidas que um sismo equivalente ao de 1755 vai voltar a acontecer. Só não se sabe quando.

5 – Qual é a diferença entre risco e perigosidade sísmica?

risco sísmico é uma medida que tenta prever a destruição das infraestrutura e o número de perdas humanas provocados por um sismo num determinado local. É diferente da perigosidade sísmica, uma medida que determina a probabilidade de ocorrer um sismo — e que magnitude pode ter — nesse mesmo local.

Vamos aos exemplos. De acordo com João Cabral, geólogo do Instituto D. Luís, o centro e sul do país são regiões com perigosidade sísmica moderada porque, por ser rasgada por muitas falhas tectónicas, é mais provável que seja sacudida por sismos com magnitude considerável do que o norte do país. Mas o risco sísmico em Lisboa é mais elevado porque, se ocorrer um terramoto na capital, há mais infraestruturas passíveis de serem destruídas e mais vidas humanas em perigo. No Alentejo, por exemplo, a perigosidade sísmica é semelhante à que existe em Lisboa, mas por ter menos infraestruturas e uma densidade populacional mais pequena, o risco sísmico é mais baixo.

A mesma lógica aplica-se ao caso do Algarve, onde a perigosidade sísmica é sempre a mesma, mas onde o risco sísmico tende a aumentar no verão. Isso acontece porque é nessa época do ano que o sul de Portugal é mais procurado, portanto há mais pessoas em risco caso haja um sismo considerável nessa região.

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