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Sismos: A placa africana está a rachar o país

O sismo de Arraiolos foi uma surpresa. Não só porque não se pode prever um sismo, como porque este é o maior sismo originado em terra nos últimos anos.

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2 – Qual o risco de sismo e tsunami em Portugal?

Na Europa, a maior probabilidade de ocorrência de sismo está nos países juntos ao mar Mediterrâneo, como a Grécia, a Turquia e a Itália. Comparado com a Europa, Portugal apresenta risco moderado, mas requer uma especial atenção no sul e sudoeste do país. A probabilidade de ocorrer um sismo em Portugal é grande por causa das falhas sísmicas que existem no país.

O arquipélago dos Açores é especialmente sacudido por terramotos porque fica muito próximo do limite entre duas placas tectónicas divergentes, ou seja, que se afastam uma da outra: a norte-americana e a euroasiática. Isso não se verifica no arquipélago da Madeira porque se encontra dentro da placa africana, longe do limite entre essas duas placas.

Identificação das zonas mais (a vermelho) ou menos (a azul) afetadas em caso de sismo. Em cima, para sismos que aconteçam dentro da placa continental, como os que tenham origem nas falhas do Vale do Tejo, e, em baixo, para um sismo que tenha origem na falha entre as duas placas tectónicas – Ravara et al. (2001) SPES e Gecorpa

Em Portugal Continental, a origem dos sismos é diferente da dos arquipélagos portugueses: neste caso, a culpa é das falhas tectónicas abertas dentro da microplaca ibérica à conta das pressões exercidas nela pela placa africana, explica ao Observador o geólogo Pedro Proença Cunha. A microplaca ibérica movimenta-se para leste, ao mesmo tempo que é empurrada e levantada pela placa africana, que se movimenta para noroeste. Essa pressão exercida pela placa africana na microplaca ibérica, onde fica Portugal, provoca as falhas existentes na crosta.

Segundo o geólogo da Universidade de Coimbra, a placa africana tem exercido cada vez mais compressão sobre a microplaca ibérica. Isso tem provocado a abertura de mais falhas em Portugal Continental e, consequentemente, mais sismos e com maior magnitude nos últimos milhares de anos.

Mas não são só as falhas no interior do país que motivam as preocupações. O banco de Gorringe, um maciço montanhoso submerso ao largo do cabo de Sagres, tem sido o epicentro dos sismos mais violentos ocorridos em Portugal e norte de África — como os casos dos sismos de 1755 e o de 1969. Mais uma vez, esta formação geológica foi criada pela convergência da placa africana com a microplaca ibérica.

Caso um sismo tenha origem no mar, como um sismo originado no limite entre a placa euroasiática e a placa africana (que roçam uma na outra), “é muito provável” que este provoque um tsunami que atingirá Portugal, considera Pedro Proença Cunha. Foi o que aconteceu no terramoto de 1755: o epicentro desse sismo foi no banco de Gorringe, por isso a água foi movimentada desde esse ponto em ondas horizontais até chegar à costa de Portugal Continental.

[Veja no vídeo a história de um sismo como não havia há 20 anos]

3 – A frequência de sismos de grande dimensão está a aumentar?

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera diz que “é pouco provável” que o número de sismos esteja a aumentar, até porque a média anual de ocorrências sísmicas mais significativas à escala global entre 2007 e 2011 foi a mesma que a registada desde 1900. “O que aumentou consideravelmente nas últimas dezenas de anos foi a capacidade técnica de deteção sísmica e o número de equipamentos sísmicos instalados no mundo inteiro”, explicam os geólogos.

No entanto, um estudo publicado o ano passado sugeria que 2018 poderia ser especialmente marcado por sismos de grande magnitude porque a velocidade de rotação do planeta Terra está a diminuir. Os cientistas investigaram a incidência de sismos de magnitude igual ou superior a 7 na escala de Richter desde 1900 até agora e verificaram que havia, em média, 15 terramotos com essas magnitudes num ano, mas que esse valor tem aumentado para entre 25 e 30 terramotos. Esse aumento, concluíram os geólogos, coincide com momentos em que a Terra trava — isto é, quando a velocidade de rotação diminui.

Contudo, este trabalho já recebeu críticas da comunidade científica. Existem outros fenómenos que podem explicar este aglomerado de sismos que parece ocorrer de tempos a tempos, como as alterações nas correntes oceânicas, os movimentos no manto do planeta ou a transferência de momento linear (aquilo a que normalmente chamamos de balanço) do núcleo para a litosfera da Terra. Além disso, o período de 117 anos que foi alvo de estudo é muito curto para um planeta dinâmico com mais de quatro mil milhões de anos.

(cont.)

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