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“Se não fizermos nada, cidades na Europa vão ficar submersas e outras sem água”

Secas, ondas de calor e inundações mais graves do que o previsto, concluiu investigação da Universidade de Newcastle, liderada por cientista portuguesa.

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Portugal está agora a atravessar um desses períodos, uma vez que a seca já dura há dois anos e não há meio de chover a sério.

O que o nosso estudo mostra é que não devemos ver o que está a acontecer neste momento em Portugal como uma exceção, mas sim como algo a que teremos de nos habituar, infelizmente. Essa é a principal mensagem deste estudo, em termos de secas.

Ainda que Portugal pouco contribua para o aquecimento global, tem condições para interferir nesse fenómeno?

Somos um país pequeno e obviamente temos uma contribuição limitada, mas o mundo tem imensos países pequenos e isto tem de ser um esforço global.

Portugal faz parte da União Europeia, que é um dos principais atores para tentar fazer com que toda a gente concorde, por exemplo, com os acordos de Paris. Como se costuma dizer, isto tem de ser toda a gente a remar para o mesmo lado.

Com a saída dos EUA do Acordo de Paris, o cenário mais grave, ou seja, sem medidas drásticas para reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, como foi considerado no estudo que liderou, fica mais perto de se tornar realidade?

Realmente a saída dos EUA foi problemática, no entanto, é interessante ver que há certos estados dentro dos EUA e também cidades que estão por si próprios a fazer a sua parte, independentemente da posição oficial do país.

Inclusivamente existem muitas empresas americanas a fazer o mesmo. Seria mais fácil se fosse o país e o presidente, mas sobre isso não vou fazer comentários [risos].

Que países europeus vão ficar mais expostos a fenómenos climáticos extremos?

As ilhas britânicas apresentam um aumento das condições de cheias, mesmo no cenário mais otimista. Em relação às secas, os países mediterrâneos vão ser, realmente, os mais afetados.

E, no que respeita às ondas de calor, tanto o número de dias como as temperaturas máximas vão aumentar, infelizmente, em toda a Europa.

Os países do Mediterrâneo destacam-se no aumento do número de dias de ondas de calor, mas é nos países do centro que a temperatura máxima verificada nesses períodos vai subir mais.

Falamos também de Berlim, Varsóvia?

Sim. O problema das subidas de temperatura durante as ondas de calor é que, ao contrário dos países mediterrâneos, eles não estão habituados a temperaturas altas.

Por exemplo, enquanto na maioria das cidades mediterrâneas temos edifícios de cor clara, na Europa central e do norte a maior parte são escuros. Vai requerer uma adaptação das cidades ao calor.

Até a nível da construção das casas?

Tradicionalmente, a maneira como construímos casas está adaptada ao clima. No Alentejo e Algarve, por exemplo, temos aquelas paredes grossas, com janelas pequenas, tudo caiado de branco. Isto não é por acaso.

Em Nova Iorque houve um projeto para se pintarem os telhados de branco para aliviar um pouco a temperatura dentro das casas.

O que espera da conferência do painel das Nações Unidas para as alterações climáticas, na próxima semana, em Edmonton, no Canadá?

É uma conferência académica, muito virada para a apresentação de estudos. Mas mostra que se está a começar a valorizar mais o foco das cidades, porque é uma conferência específica sobre os impactos em meio urbano.

Nós somos as pessoas que melhor percebemos as consequências das alterações climáticas e é um pouco assustador.

Qualquer pessoa que trabalha na minha área gostaria de ver as soluções começarem a ser pensadas e as cidades a adaptarem-se para minimizarmos ao máximo os efeitos na população. Mas são decisões políticas.

Teme que certas cidades se tornem insustentáveis, no sentido de deixarem de ter condições de vida para grandes aglomerados populacionais?

Sem dúvida. E não só por causa das secas, mas também com o aumento do nível do mar. Se não fizermos nada, há cidades que vão ficar submersas.

Em relação às secas, já estão a afetar migrações, por exemplo no Médio Oriente.

A Síria é obviamente uma região extraordinariamente complicada por outros motivos, mas as secas começam a ser mais um fator a puxar para um ponto de rutura.

Autor: Rui Antunes
Fonte: Visão online
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