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“Se não fizermos nada, cidades na Europa vão ficar submersas e outras sem água”

Secas, ondas de calor e inundações mais graves do que o previsto, concluiu investigação da Universidade de Newcastle, liderada por cientista portuguesa.

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O que pode ser feito?

Imensas coisas. Desde consumir menos água e ter uma agricultura mais eficiente até apostar ainda mais, como já temos feito, em reservatórios de água, barragens. O nosso estudo é sobre alterações no clima, não sobre medidas de adaptação. Essas decisões são políticas.

O estudo debruça-se sobre cidades e não regiões. Porquê?

Este estudo está integrado num projeto europeu de investigação, chamado RAMSES, que se focou nas cidades por dois motivos. Por um lado, é onde se concentra a população e o impacto é maior. Por outro, porque as cidades são um foco de emissões de gases com efeitos de estufa.

Há uns meses, em Viseu, só não faltou água nas torneiras porque houve camiões cisterna a transportar água entre barragens. Significa que a ameaça não está tão longe quanto isso ou será apenas um caso de má gestão pontual?

As pessoas continuam a associar alterações climáticas ao futuro. Há 20 ou 30 anos os cientistas já diziam que era preciso proteger o planeta e pensar nos nossos filhos.

Entretanto, o tempo vai passando e esses filhos já são adultos, mas continua-se a dizer as mesmas coisas. Não. O planeta já aqueceu à volta de um grau em relação ao período pré-industrial e já estamos a sentir os primeiros efeitos das alterações climáticas.

Portugal tem fama de adiar a resolução de problemas até à última hora. No caso das alterações climáticas e das medidas para minimizarmos os efeitos, isso pode custar-nos o quê?

Infelizmente, não são só os portugueses. Por isso é que temos hoje este problema. Em termos de redução da emissão de gases com efeitos de estufa, realmente o mundo já devia ter começado há bastante tempo. Há que mudar o mais depressa possível porque, quanto mais poluirmos, maiores serão os efeitos.

O que estamos a emitir de momento ficará durante décadas na atmosfera. Imaginemos uma situação completamente irrealista: de repente, amanhã não se poluía mais nada; o clima continuaria a aquecer ainda durante algumas décadas. Em relação à adaptação aos impactos, o problema é que muitas das soluções demoram imenso tempo a serem construídas.

Não se constrói uma barragem de um dia para o outro. Pode demorar décadas. Algumas medidas podem ser aplicadas mais rapidamente, por exemplo ao nível da educação, tentando convencer as pessoas a poupar mais água e a vê-la como um bem mais precioso.

Mas outras soluções demoram muito tempo, até em termos de decisão política. O que fazer, onde, como financiar? Tudo isso tem de começar… agora.

Um cenário de falta de água nas torneiras, como a Cidade do Cabo se prepara para enfrentar daqui a três meses, é possível na Europa?

Sim. Até porque a Cidade do Cabo também tem um clima mediterrâneo, semelhante ao nosso.

Em 1990, um jornal sul-africano avançava que, 17 anos mais tarde, em 2007, a Cidade do Cabo iria ficar sem água. As previsões tardaram uma década mas não falharam. Há alguma estimativa de quando o problema pode atingir a Europa?

Aí entramos na questão da variabilidade natural do clima, mas é uma realidade possível em certas cidades. Só que também vai depender muito do próprio consumo e não apenas do clima.

Na Cidade do Cabo, a população tem aumentado nas últimas décadas. É algo difícil de prever porque há muitas variáveis em jogo, mas é um cenário para o qual nos devíamos estar a preparar.

Este estudo apresenta algum dado que reforce a ideia de que o Alentejo e o Algarve podem tornar-se desérticos até ao final deste século?

Este estudo não, mas o que fiz para o Doutoramento mostrava a bacia do Guadiana com probabilidade de ficar com um clima bastante mais seco, mais ainda do que o Tejo e o Douro.

Fala no risco de se atingir o ponto de rutura no sul da Europa. Isso traduz-se em quê?

É exatamente o que estávamos a falar sobre as secas e o que está a acontecer na Cidade do Cabo, com a falta de água. O problema é que os nossos sistemas estão adaptados ao clima que temos.

Por exemplo, aqui em Inglaterra, a maior parte deles não está sequer planeado para uma seca que dure um ano.

Em Portugal, pelo menos em grande parte do país, estamos adaptados para secas que durem um ano e até mais, em certos sítios. Mas não estamos adaptados para secas que durem muito mais do que isso.

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