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Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador cantou na TV aos 12 anos, passou pelo "Ídolos", apaixonou-se pelo jazz e venceu a Eurovisão. Agora tem um coração novo, uma vida nova. (c/ Vídeos)

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Dançando com as dores, feliz em cima de um palco

Até mesmo aqueles que há alguns meses não hesitavam em falar sobre o amigo Salvador Sobral, passaram a optar pelo silêncio. Mas as palavras que usaram para o descrever em tempos mantiveram-se: “Ele é um tipo muito feliz, mas a alegria dele é uma alegria muito trágica.

É uma alegria nietzschiana, de quem está à beira do abismo e canta à beira do abismo e isso nota-se em palco, esse sofrimento.Aquelas mãos, aquele pescoço que cai em colapso, a perna que levanta.

É o modo como ele vai dançando com as suas dores“, dizia em maio ao Observador Nuno Nabais, fundador da Fábrica Braço de Prata e amigo do músico.

Salvador e a irmã Luísa, em cima do palco (© João Porfírio/Observador)

Todos são unânimes em referir essa felicidade peculiar e, sobretudo, a forma profunda como sentia a música. “Percebi que estava ali alguém com uma capacidade de cantar para lá da competência e da eficiência.

Era uma coisa emocional“, recordou Júlio Resende ao Público sobre o seu primeiro encontro com o cantor, no Hot Club. Descontraído por natureza, sempre pronto para uma piada ou um reparo irónico, Salvador encarava a sua profissão com muita naturalidade. “Nunca fiquei nervoso nos concertos. Nunca fui esse gajo”, confessou uma vez.

A única exceção foi em Kiev, onde subiu ao palco “com a boca seca”. O melhor elogio que lhe podiam fazer — e os seus colegas de banda, por exemplo, fizeram-no muitas vezes — era dizer-lhe que ele é um músico e não apenas um intérprete.

Mas, quer quisesse quer não, foi como intérprete que Salvador brilhou. E, precisamente para não passar a vida a “cantar as coisas dos outros”, a irmã Luísa compôs-lhe uma vez uma música inspirada no estilo de Chet Baker, de que Salvador se pudesse apropriar. Chama-se ‘I Might Just Stay Away’ onde, a certa altura, ele canta assim:

“Due to the look in your eyes

And all the accidental things they can see

I might, I might just stay away

Before they even look at me”

É uma canção de amor, mas quando cantava alguns destes versos, talvez ele os sentisse de outro modo, como que a explicar por que se resguardou tantas vezes dos holofotes que o procuravam. É em palco que Salvador se sente leve, sem ter de se justificar de nada, só sentindo: “Ali não há problemas de saúde, nem de dinheiro.

Todos estamos em diálogo e é isso que é o jazz, essa onda de improvisação. De que tudo na vida é possível“. E se tudo correr pelo melhor, é lá que ele vai estar novamente, em breve. Uma segunda vida, com um segundo coração.

Autora: Cátia Bruno
Fonte: Observador
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