Início Histórias Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador cantou na TV aos 12 anos, passou pelo "Ídolos", apaixonou-se pelo jazz e venceu a Eurovisão. Agora tem um coração novo, uma vida nova. (c/ Vídeos)

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Por vezes, sentiu que se estava “a vender” a uma “Euro Disney”, como definiu em tempos o festival ao Observador. Mas sentiu também que esta podia ser a oportunidade para fazer algo diferente. “Algumas pessoas acreditaram nisto e estava a representá-las também. Era um bocado mimado da minha parte estar contra isto”, resumiu, ainda em Kiev.

Pelo meio, aproveitou a oportunidade para falar dos temas que lhe são caros. Apareceu numa conferência de imprensa com uma camisola onde se podia ler “S.O.S. Refugees”, um gesto que lhe podia ter valido a expulsão do concurso.

“Eu sempre que puder vou falar das coisas em que acredito”, disse mais tarde numa entrevista à RTP, explicando que também aborda frequentemente a questão da Venezuela — país do amigo Leo Aldrey, com quem compõe várias músicas. Nessa mesma entrevista, Salvador explicou que recusou a proposta da ONU para ser embaixador relativamente ao tema dos refugiados.

“Não quero ser um ativista, sou simplesmente um humanista. É igual quando eu digo que o Governo está a trazer uma boa mudança, já querem que eu seja embaixador dos Capitães de Abril… Eu não sou nada disso”, comentou entre risos.

Salvador Sobral foi o único português a vencer o Festival da Eurovisão (Manuel de Almeida/Lusa)

Embaixador de um certo tipo de música, talvez. Pelo menos foi isso que transpareceu em Kiev, quando a vitória de ‘Amar pelos Dois’ provocou um abalo na estrutura kitsch da Eurovisão e levou Salvador a fazer um discurso que deixou muitos de lágrima ao canto do olho: “Vivemos num mundo de música descartável, de música fast-food sem qualquer conteúdo.

Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta, que é o que verdadeiramente interessa.”

“Sempre falei duas vezes antes de pensar”

Em Portugal, a vitória de Salvador foi encarada com euforia atípica, embalada pela visita papal e pela conquista do campeonato pelo Benfica, no mesmo dia. Daí à receção apoteótica no Aeroporto de Lisboa, foi um pulo.

“Tudo isto culmina com uma chegada ao aeroporto que só tinha visto com equipas de futebol. Os seguranças avisaram-nos, mas eu não ia preparada para aquilo que encontrei. Um mar de gente”, resumiu Luísa Sobral.

Salvador ficou meio abananado, como revelam as imagens televisivas, sem acreditar no que estava a acontecer. Mas ficou feliz, muito feliz. Sobretudo quando ouviu e leu os elogios de ídolos como o cantor Caetano Veloso ou do escritor Miguel Esteves Cardoso.

Para o brasileiro, Salvador era “bom demais”; para o cronista, o cantor, “sem se armar em bom”, mostrou “que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte”. “Tenho quase vergonha de ler essas palavras tão bonitas sobre mim”, diria o próprio pouco depois.

Tudo isto culmina com uma chegada ao aeroporto que só tinha visto com equipas de futebol. Os seguranças avisaram-nos, mas eu não ia preparada para aquilo que encontrei. Um mar de gente.

 

(Luísa Sobral sobre a chegada ao aeroporto após a vitória na Eurovisão)

(cont.)

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