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Quantas palavras cabem no Natal?

Cabem muitas palavras, com certeza. Mas será que é mesmo capaz de adivinhar? Sim, afinal quantas palavras cabem no Natal?

Quantas palavras cabem no Natal?
Quantas palavras cabem no Natal?

Quantas palavras cabem no Natal?

Cabem muitas palavras, com certeza. Mas será que é mesmo capaz de adivinhar? Sim, afinal quantas palavras cabem no Natal?

Marco Neves
Marco Neves

AFRODISÍACO

Eu sei, eu sei: a letra A devia ser a letra de «árvore de Natal», mas deu-me para isto. Porquê? Porque, há uns tempos, descobri isto: o mês de Setembro é o mês em que nascem mais bebés.

Fazendo uma simples conta em marcha-atrás, percebemos que a única explicação é esta: o Natal é afrodisíaco. São os bolos, o aconchego, o frio lá fora, a lareira a crepitar – talvez mesmo uma compulsão religiosa para cumprir a ordem divina do «ide e multiplicai-vos»… Ir, não vamos. Ficamos em casa. Mas multiplicamo-nos.

BOLOS

O que também se multiplica – e não é pouco – é a cintura de cada um de nós, atropelados como somos por doces e pelo engano do «é Natal, ninguém leva a mal» (é assim, não é?).

CRISTALIZADA (FRUTA)

Sem sair do tema dos bolos, há um mistério que me apoquenta há anos: não conheço uma única pessoa que afirme gostar da fruta cristalizada do bolo-rei. E, no entanto, ela lá continua. E os bolos continuam a ser comidos. Mistérios de Natal.

DESEMBRULHOS

Muito se desembrulha no Natal: os presentes, em alegres sinfonias de papel rasgado – e (ver a letra A, acima) a roupa da nossa companhia nocturna. Dizem – que eu cá, depois da Consoada, vou dormir.

EMBRULHOS

Ah, o belo prazer de embrulhar com esmero uma prenda só para ver o embrulho amarfanhado por mãos sôfregas de ver o que lá está dentro.

O esforço que fazemos para que o embrulho fique perfeitinho, sem pontas feias, com a fita-cola muito bem disfarçada. E, depois, sorrimos quando ninguém repara no brio do embrulho. Sorrimos, porque é mesmo assim que são as coisas.

FILHOS

O Natal é importante enquanto somos crianças. Depois, começamos a entrar naquele árido período da vida em que achamos tudo muito aborrecido, ocupados como estamos a fingir-nos de adultos. Quando, por fim, surgem os filhos – lá vem o Natal de novo bater-nos à porta.

GUERRA

Não há família que não tenha tido umas guerras à mesa da Consoada. É quase inevitável. Faz parte. Sem isso, o Natal não seria Natal.

Se alguém precisar de desculpa, aqui fica uma sugestão para a guerra deste ano: como se escreve o plural de «filhós»? Depois, façam um brinde e riam, felizes, que as guerras familiares são coisas de gente sã – o Natal não é o Facebook!

HISTÓRIA

O Natal é também uma boa história. A família à procura de abrigo para o nascimento do filho. As portas que se fecham. A manjedoura. Os Reis Magos.

Uma história que não perde o encanto, mesmo contada milhões de vezes. Parece as histórias que ouvimos pela milésima vez aos avós, pais, irmãos – da nossa própria boca – e que contamos de novo, porque estamos juntos.

IRRITAÇÕES

Todos nós nos declaramos, mais tarde ou mais cedo, irremediavelmente irritados com o Natal. Escadas rolantes, vendas ambulantes, centros ululantes… Mas chegamos à noite, àquela noite, e as irritações passam logo.

JESUS

Lembro-me de ouvir, muito novo, quem se queixava por haver gente que, não sendo crente, celebrava o Natal.

Ora, eu acho lindo que a festa se alargue, se torne confortável para todos e que, acreditemos ou não nas mesmas coisas, partilhemos a mesma mesa. Não será certamente o aniversariante que se vai importar com isso…

LUZES

A coisa às vezes descai-se para um certo kitsch. Mas o kitsch, no Natal, é quase obrigatório. Não faz mal, é Natal, ninguém leva a mal (já tinha dito isto, não tinha?).

O certo é que as luzes de Natal são (para lá de excelente negócio para a EDP) uma boa desculpa para ir passear para os centros das nossas vilas e cidades.

MUNICIPAL (ASSEMBLEIA)

Ah, e por trás das tais luzes, acredite o leitor que estão horas e horas de discussão – e quilómetros de actas – em agitadas sessões de centenas de assembleias municipais em que os deputados treinam a retórica para decidir quais as ruas e rotundas que merecem as melhores iluminações. São tradições de que ninguém fala – mas existem!

NOITE DE NATAL

Andamos a correr a comprar e a embrulhar prendas – será apenas para nos queixarmos do consumismo? Não: também é para chegarmos bem aviados à noite mais fria e mais quente do ano: a Noite de Natal.

OUVIR

Ouvir o que os outros dizem sentados à mesa. Ouvir a rolha a sair para um bom vinho de Natal. Ouvir as canções de Natal. Ouvir as vozes dos filmes inevitáveis a dar numa televisão que, por uma noite, poucos vêem.

Ouvir os sons das notificações das mensagens a chegar ao nosso telemóvel a trazerem-nos palavras sempre iguais e sempre deliciosas de muitas paragens. Ouvir o clique das fotografias que tiramos sem parar. Ouvir as vozes da família a conversar. Ouvir o crepitar da lareira.

Ouvir o rasgar do papel. Ouvir o riso das crianças e, por fim, noite feita, ouvir as conversas sussurradas nessa noite longa – e, lá muito ao longe, os sinos no pescoço das renas a voar por aí.

PAI NATAL

Há quem se queixe da invasão do Pai Natal no território do Menino Jesus. Mas, vá, aceitemos a verdade objectiva: sem o Pai Natal, não teríamos o genial sketch do Herman Enciclopédia escrito por Nuno Markl em que Pai Natal e Menino Jesus se apresentam em tribunal para decidir, afinal, quem é quem no mundo do Natal.

QUERMESSE

Porque será tão viciante comprar papelinhos enrolados? Não será certamente pelos prémios: talheres desirmanados, chávenas lascadas, molduras sem vidro. E, no entanto, queremos ganhar aquilo tudo!

O certo é que a palavra é curiosa. Sabe o leitor de onde vem? Do holandês! De «kerk misse», ou seja, «missa da igreja». Como duma missa chegámos ao sorteio de coisas em geral – não faço ideia.

REIS

Aqui mesmo ao lado, são os reis que trazem prendas – e trazem-nas depois do Natal, nos inícios de Janeiro. Mas a terrível invasão de tradições estrangeiras tem convencido alguns espanhóis a dar prendas também na Noite de Natal. As crianças, essas, não dizem que não.

SMS

Ainda alguém se lembra da velha tradição – que durou uns bons cinco anos – de enviar SMS a todos os amigos? Ah, velhos tempos.

Hoje, as Boas Festas dão-se por WhatsApp. Em 2019, o que estará a dar serão Boas Festas por Instagram. Ou será que já estou desactualizado?

TEATRO

Não é bom ver os teatrinhos da escola, onde todos são óptimos actores, pelo menos perante os pais embevecidos de amoroso telemóvel na mão?

Não vejam aqui sarcasmo. As tecnologias vão e vêm – e a cegueira paterna perante a falta de talento filial continua. Não é coisa de comover?

UNIÃO

Não consigo fugir ao clichê. O raio da letra é difícil. Cocei a cabeça, pensei e repensei: e só me sai «união». União dos povos? União das famílias? Enfim, é Natal, deixemos passar estes desejos vagos por dois segundos. O mundo continua amanhã.

VACA

E o burro, claro. Por estes dias em que se fala por aí que os animais devem sair, ordeiramente, dos nossos provérbios, não sei se sobreviverão nos nossos presépios.

Imagino que sim – afinal, ali ninguém os trata mal. E também confio que os provérbios vão sobreviver à loucura da semana.

X-MAS

Esta é a forma como alguns falantes de inglês escrevem «Christmas». É apenas uma abreviatura – embora, segundo outros, seja uma forma de retirar «Christ» do «Christmas».

E, pronto, está armada mais uma guerra de Natal. Não faz mal… No fim, sentamo-nos todos à mesa numa bela trégua de Natal!

ZEBRA

Bolas, a culpa não é minha. A verdade é que já é tarde e não consigo pensar numa boa palavra para fechar o alfabeto. Só consigo lembrar-me da bela zebra, o animal menos natalício que existe.

Será muito mal se propuser a zebra como o novo ajudante do Pai Natal? Assim como assim, servirá para as renas descansarem.

Bom Natal!

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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