Início Cultura Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Há línguas com problemas de identidade: por exemplo, o catalão é chamado de valenciano na Comunidade Valenciana. Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Qual é o nome da nossa língua? Será galego?
Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Há línguas com problemas de identidade: por exemplo, o catalão é chamado de valenciano na Comunidade Valenciana. Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

Marco Neves
Marco Neves

Há línguas com problemas de identidade: por exemplo, o catalão é chamado de valenciano na Comunidade Valenciana — alguns valencianos consideram este outro nome como uma outra forma de nomear aquela que é a mesma língua, enquanto outros consideram o valenciano e o catalão como duas línguas separadas.

O governo catalão insiste na tese da unidade, o governo valenciano vai vacilando, ao sabor do vento político. Pelas Ilhas Baleares, onde as variantes da língua são bem mais distintas do que em Valência, a questão é pacífica: a língua é o catalão e o mallorquí (falado em Maiorca), eivissenc (falado em Ibiza), etc. são os nomes dos dialectos locais.

Sem sair de Espanha, temos ainda o problema do nome da língua oficial de todo o Reino: espanhol ou castelhano? (Já falámos disso neste site.) Há que dizer que este fenómeno da multiplicação dos nomes não é um problema exclusivamente ibérico: os coreanos têm dois nomes para a sua língua, por exemplo.

Adiante. O que nunca passaria pela cabeça a um português é ver esta questão colocada em relação à sua própria língua. Gostamos, às vezes, de chamar “brasileiro” ao português além-Atlântico, mas ninguém duvida que a língua que se fala em Portugal tem um só nome e é português. Perguntar qual é o nome da nossa língua parece um disparate dos antigos.

Ora, na verdade, há quem dê outro nome à nossa língua: os reintegracionistas galegos defendem que o galego e o português são uma só língua, com dois nomes diferentes nos dois lados da fronteira. Ou seja, falamos todos galego-português, dando-lhe um nome diferente conforme o sítio onde estamos.

Para os reintegracionistas, esta união do galego e do português serve dois propósitos: não só marca a independência do galego em relação ao espanhol, como integra a sua língua num conjunto internacional que liberta o galego da apertada identidade de língua regional. (Não nos podemos esquecer que também nós sentimos esta necessidade de distinção marcada em relação aos vizinhos e, simultaneamente, de expansão da nossa identidade imaginada.)

Alguns diriam ainda que olhar para o galego e para o português como uma só língua é uma visão mais fiel à verdadeira história do nosso idioma, nascido em redor do rio Minho, sem olhar para a fronteira que divide galegos e portugueses.

E a verdade é que a língua que os reintegracionistas escrevem é indubitavelmente a nossa (usam uma ortografia do galego que se aproxima conscientemente da nossa ortografia). Se têm dúvidas, visitem a página da Associaçom Galega da Língua. As marcas que distinguem a ortografia galega da portuguesa são poucas, mas incluem este curioso “çom” que nos faz recordar a pronúncia do nosso Norte.

Alguns reintegracionistas vão mais longe: querem chamar português ao galego, sem mais. Defendem a criação da Academia Galega da Língua Portuguesa. A ortografia, neste caso, é igual à portuguesa.

Do lado oposto, o governo da Galiza defende a separação entre as duas línguas, promovendo (e ensinando) uma ortografia bem diferente, que afasta o galego do português (como podemos ver no site oficial da Xunta de Galicia).

Também aqui há uma narrativa identitária a proteger: o galego é uma língua própria da Galiza, onde é co-oficial com o castelhano. Não há qualquer interesse em promover a ligação da língua galega a uma língua estrangeira como o português. Não se quer perigosas associações a identidades pouco espanholas. Temos, assim, uma língua própria, mas muitos “eñes”.

O galego vê-se assim na situação curiosa de ter um espectro de ortografias que percorre as ideias políticas de cada um… Para cada posição política, uma ortografia.

Pessoalmente, sempre tive um fraquinho pela diversidade linguística de Espanha, embora mais virado para o lado catalão da península. Nos últimos tempos, no entanto, tenho sentido um interesse crescente pelo galego e pelas implicações políticas da ortografia e do nome que se dá à (nossa?) língua na região vizinha.

Também acho muito curioso como uma questão sobre a nossa língua passe ao lado da quase totalidade dos portugueses. Para nós, a Galiza não é personagem nas narrativas que contamos sobre Portugal e o mundo. E se calhar é pena…

(Repare-se que falei apenas de ortografia — num próximo artigo, falarei do galego falado e da forma como é encarado pelos portugueses.)

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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