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Palavrões portugueses em bocas galegas

Sim, os palavrões vêm do tempo em que portugueses e galegos ainda viviam no mesmo território e compreendiam perfeitamente as palavras uns dos outros.

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Palavrões a norte do Norte

Explico na prática. Imagine-se o leitor numa aula na FCSH [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas], ali à Avenida de Berna. O convidado é galego — José Ramom Pichel, um engenheiro informático que foi falar com os meus alunos sobre línguas ibéricas e software de tradução.

O José é um pouco como eu: tem cara de puto (embora seja mais velho do que eu) e não parece ser daquelas pessoas que dizem palavrões por dá cá aquela palha. Imagino que, se fosse cá do Sul, não diria palavrões numa aula.

Pois, a meio da conferência, o José disse, bem a propósito, a palavra «merda».

Ora, este é daqueles palavrões que já está a deslizar por aí abaixo em direcção ao clube dos palavrõezinhos: «chiça», «caraças», «fogo»… Tanto é assim que já nem preciso de disfarçá-lo como fiz ao «saf*da» do Cristiano. Mas, enfim, por enquanto, ainda é palavrão — pelo menos a julgar pelos olhos dos meus alunos e pelas bocas abertas de surpresa.

Vamos lá ver: os meus alunos não são santinhos — só não estão habituados a ouvir alguém a dizer palavrões numa aula.

Perante o espanto dos alunos, tentei explicar: «Têm de perceber: o José está a norte do Norte!»

Pois é: sabemos — ou julgamos saber — que os nortenhos dizem muitas asneiras. Ora, parece que o problema é de latitude, pois os galegos dizem ainda mais — e dizem as mesmas asneiras!

É claro que a ortografia em que os galegos escrevem estas palavrinhas será diferente da nossa (depende do galego). Mas os palavrões são os mesmos.

Será que os portugueses já se deram conta que «merda» é igual a sul e a norte da fronteira?

Os palavrões de Afonso Henriques

Os palavrões são umas palavras muito curiosas. Deixam-nos o coração aos saltos, continuam a ser proibidos em muitas situações e, no entanto, existem em todas as épocas e são raríssimas as pessoas que não os dizem — só que as situações em que os dizemos mudam de pessoa para pessoa e de região para região.

São palavras importantes, mas é difícil estudar o seu percurso histórico. As pessoas não tinham tendência para escrever palavrões fora das peças de teatro — bendito Gil Vicente e o seu magnífico hábito de usar a língua toda!

No entanto, os palavrões que existem dizem-nos pelo menos isto: o português e o galego, separados politicamente há tantos séculos, partilham ainda estas «palavras feias». São palavras antigas, fortes e imediatas. Palavras que nos mostram como a nossa língua é uma espécie de irmã gémea da língua dos galegos — ou então, como dizem muitos galegos, a mesma língua com outro nome, outro sotaque e umas quantas palavras diferentes para apimentar os dias.

Sim, os palavrões vêm do tempo em que portugueses e galegos ainda viviam no mesmo território e compreendiam perfeitamente as palavras uns dos outros — nem que fosse para ouvir um certo conde com ganas de ser rei a mandar a mãe à merda por andar metida com um galego.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.

 

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