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O padre português que salvou judeus

Em Roma, na II Guerra Mundial, um padre português salvou dezenas de pessoas. Duas delas ainda estão vivas e contam, pela primeira vez, a sua história.

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A ação do padre Carreira não se limitou ao Colégio Português, vocacionado apenas para padres – e que só recebeu homens e rapazes, também para não levantar suspeitas. Ela estendeu-se a mais de cem mulheres e crianças, a avaliar pelo testemunho que Maria da Conceição Primitivo recolheu do próprio sacerdote.

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

Joaquim Carreira com o patriarca de Goa, D. José da Costa Nunes (à esquerda) e várias freiras das Irmãs Franciscanas vestindo o hábito da época, na Casa Madonna di Fatima, em Roma.

Costureira aposentada, da zona de Leiria, Conceição correspondeu-se com Joaquim Carreira nos últimos meses da vida do reitor – morreu em dezembro de 1981. Ele lia os artigos dela no jornal da diocese de Leiria (concelho em que nasceu) e escreveu-lhe a dizer que gostava.

Além das cartas que trocaram, encontraram-se duas ou três vezes, no verão desse ano, quando o padre Carreira esteve pela última vez de férias em Portugal – e onde celebrou os cinquenta anos de sacerdócio.

Nessa altura, «falou das senhoras e das crianças de várias idades». «O número era muito superior ao dos homens. [Um dia, durante a ocupação nazi de Roma] conduziu um grupo, depois de dividido, para não dar nas vistas, à Igreja de Santo António dos Portugueses, fazendo-lhe Companhia alguns padres do Colégio. Pensou então em dirigir-se a três casas de religiosas, onde sentiu haver espaço e acolhimento.»

Apesar dos receios iniciais, as freiras cederam ao apelo do reitor. «Logo nessa noite se recolheram nas três casas, sem mantimentos para tanta gente», terá dito o padre a Conceição. «Suei, perdi peso e cabelo. As mães com filhos ficavam juntas no mesmo lugar. Uma sinfonia de crianças a chorar.»

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

Joaquim Carreira entre o Papa João XXIII e o bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio.

Joaquim Carreira regressou nesse mesmo dia ao Colégio Português para levar leite em pó, bolachas e arroz. Nas casas das freiras, as novas hóspedes deitaram-se no chão como puderam. «Não me deitei e andei a noite toda furando Roma, mudando caminhos, acordando padeiros para trazer sacos de farinha, no dia seguinte, fazer papas com manteiga.

E tive de tratar da distribuição, de descarregar os mantimentos, de encorajar as freiras e de ouvir as mulheres que não sabiam dos maridos e de alguns filhos», contava o padre Carreira a Maria da Conceição. Ao mesmo tempo, tinha de assegurar a vida do Colégio o mais normalmente possível.

Quando os nazis foram ao colégio, o sacerdote ficou com medo de que atacassem as casas das freiras. O que não aconteceu. Mas surgiram outras preocupações: várias crianças adoeceram. Joaquim Carreira levou-as a médicos amigos. Depois, era ele que explicava às mães a medicação.

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

Joaquim Carreira a receber a comunhão das mãos do Papa João Paulo II.

«Qualquer das três casas ficou com mais de meia centena, espalhadas pelos sótãos», recorda Conceição Primitivo, com base no que o padre Carreira lhe terá dito.

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