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O padre português que salvou judeus

Em Roma, na II Guerra Mundial, um padre português salvou dezenas de pessoas. Duas delas ainda estão vivas e contam, pela primeira vez, a sua história.

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No livro de Enzo Lagana, Luigi Priolo acrescenta um nome que o padre português não registou no relatório: Gustavo Colonnetti (1886-1968), engenheiro e matemático que chegaria a ser reitor do Instituto Politécnico de Turim e presidente do Conselho Nacional para a Investigação, em Itália.

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

Voou de Leiria para Roma.

Com quem Priolo não se cruzou foi com a família Cittone, identificada no relatório de Joaquim Carreira como «hebreus». Foi o testemunho de Elio Cittone, na altura com 16 anos, que permitiu ao Yad Vashem declarar o padre português como «Justo entre as Nações», em 2014. Os Cittone (os irmãos Isacco e Roberto e Elio, filho deste último) terão saído antes de Luigi chegar.

Mas houve três outros judeus com quem Luigi esteve no colégio, embora não se recorde dos nomes. No livro citado, Priolo descreve o seu lugar na «imponente mesa em U», e com as posições marcadas, segundo a importância social dos comensais.

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

O padre Joaquim Carreira enquanto capelão da Boavista, em Leiria, de onde é natural.

Como estava ao fundo da mesa, beneficiava, por vezes, de suplemento: quando havia carne, os judeus perguntavam a Luigi o que era; e ele, invariavelmente, respondia «porco», o que os inibia de comer – mas não a ele, que ficava com o prato dos vizinhos de mesa.

Foram cinco meses ricos, mesmo se arriscados. No colégio, o jovem Priolo percebeu desde cedo que tinha de comportar-se como um adulto e cumprir regras básicas de segurança. Apesar de ser considerado território da Santa Sé e estar relativamente protegido das operações alemãs em Roma, a casa não podia atrair suspeitas.

O padre português que salvou judeus
O padre português que salvou judeus – (Fotografia DR)

Joaquim Carreira em 1942, na fila de baixo, ao centro.

«O padre Carreira arriscou muito», recorda. «Tínhamos de respeitar algumas regras, para não pôr nada em causa – nem as nossas vidas nem as dos padres que nos protegiam e que não podiam ter-nos ali escondidos.» Persianas e cortinas permaneciam fechadas o mais possível, mesmo durante o dia.

À noite, os abat-jourscolocados no chão evitavam que a luz fosse detetada desde o exterior. Os lavatórios deveriam estar limpos e secos e a roupa devia ser colocada no meio da dos padres. Um dos refugiados, capitão dos Carabinieri, chegava a polvilhar com pó a mobília e a cama, depois de arrumar o quarto.

«Havia um código de comportamento. Era preciso ter os quartos arrumados de modo a não parecer que estivessem ocupados e não podíamos sair do edifício nem chegar à janela de modo a sermos vistos da rua.»

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