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«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra

Um leitor não gosta da ideia. Para ele, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. E chama-me assassino da língua. «Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra.

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«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra
«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra

«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra

Um leitor não gosta da ideia. Para ele, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. E chama-me assassino da língua. «Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra.

«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra
Marco Neves – «Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra

Um leitor (que devia estar irritado com o mundo) deixou-me um comentário um tanto a dar para o agressivo, acabando por dizer que eu andava por aí a assassinar a língua. Eu abri a boca de espanto: fogo, essa ainda não tinha ouvido.

Ora o que fiz eu para merecer tal acusação? Isto: escrevi um artigo a defender que as mulheres podem usar a palavra «obrigada».

Ora, o tal leitor não gosta dessa ideia. Para ele, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. Vai daí, chama-me assassino da língua.

O que devia eu fazer perante um comentário tão impertinente? Três ideias:

01

Aceitar a acusação e concordar com o leitor mal-disposto. Pronto, fique lá com a bicicleta: eu, ao dizer que as mulheres estão no direito de dizer «obrigada» e não «obrigado», estou mesmo a matar a língua!

Bato então com a mão no peito e deixo de escrever sobre estas coisas, porque afinal a verdade revelada é só uma.

Só fico com esta pergunta atravessada: o que devo dizer àquelas mulheres portuguesas que falam e escrevem bem e preferem dizer «obrigada»? Devo repreendê-las? É que ainda são muitas.

02

A segunda hipótese seria cair no erro habitual da hipérbole e da discussão à estalada. Se seguisse esta opção, bastava dizer que eu tinha razão e ponto final e insultaria o leitor irritadiço com verve. É giro.

03

Chego à terceira e mais difícil hipótese: ignorar o insulto e tentar explicar que o leitor tem uma parte de razão. Há algo que escapa a muitos dos que falam desta questão em particular: a palavra «obrigado» é usada como interjeição.

Sendo interjeição, uma mulher pode mesmo dizer «obrigado». Mas depois temos de continuar, que isto não se explica à estalada: é habitual ouvir muitas mulheres a dizer «obrigada». Porquê? Talvez porque a origem da interjeição é uma forma verbal variável.

Ou talvez porque houve um mecanismo de hipercorrecção que acabou por mudar a língua na cabeça de muitas pessoas. Ou até porque, se formos a ver bem, a nossa língua tem duas interjeições sinónimas que todos podemos usar: «obrigado» e «obrigada».

Ora, também é verdade que muitos estão convictos de que dizer «obrigada» é a única opção correcta para o sexo feminino e ficam horrorizados ao ouvir uma mulher a dizer «obrigado». E agora apareceu-me um leitor que fica horrorizado com o «obrigada»… Suspiro.

«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra
«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra

O que fiz então perante aquele comentário? Não, não ignorei o insulto, mas tentei explicar a minha posição: uma mulher pode dizer «obrigada», mas também pode usar a bela interjeição «obrigado».

Sim, há variação no uso desta palavra. Isto não é dramático: é assim em muitos outros casos da nossa língua portuguesa, que não se dá bem com regras simplistas. A língua não é apenas aquilo que cada um de nós tem na cabeça. É qualquer coisa de muito complexo, variável e difícil de perceber. Mas tentamos, tentamos sempre…

Disse o que acho sobre a questão, mas aceito que outros pensem de forma diferente. É exactamente porque a língua é complexa que é aconselhável ter alguma calma antes de acusar os outros de malfeitoria sem perdão.

(cont.)

5 COMENTÁRIOS

  1. Como é? Uma mulher dizer “obrigado”? Nunca vi/li isso durante os meus 78 anos! É de perguntar a esses do “obrigado” feminino, se, para os sinónimos de “agradecida” ou “grata” também usariam o masculino! Bem, o melhor é acabar com os adjetivos femininos…

  2. Reconheço que a matéria pode trazer discussões acaloradas , mormente quando técnica e gramática se unem .O melhor é deixar cada um com o seu cada qual! Vivamos , cada um, no conjunto do seu meio intelectual , desde que não se observe exageros de comportamento.

  3. Foi preciso chegar a uma idade avançada para ler tamanha bacorada. Eu sempre disse obrigada e vou continuar a dizer. Quando era criança tive dificuldade em entender e então disseram-me: obrigada é agradecida e tu não dizes agradecido, ponto final

  4. A língua inglesa tem o privilégio da simplicidade em relação a muitos vocábulos sinónimos em português, a exemplo do obrigado/a. Quando ensinei na Universidade Estadual da California enfrentei alguma dificuldade ao perguntarem-me a razão dessa regra. Exemplifiquei como é comum sobretudo em línguas de origem latina. Para o caso do “obrigado”, expliquei que equivale exatamente ao imutável “obliged” inglês, significando que se sente no dever de retribuir de alguma forma, incluíndo com gratidão. Contudo, tal como em francês “obligé/obligée”, necessita-se definir, na terminação da palavra, de que género se trata em referência ao orador (masculino ou feminino).

  5. Tratando-se da expressão pessoal de quem se sente grato ou agradecido, devem usar-se as duas formas de acordo com o género do emissor (obrigado – os homems; obrigada- as mulheres), salvo melhor opinião.

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