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O português, o galego e o japonês

Dizer que o galego e o português estão muito próximos não é um ataque à nossa identidade nem à história da nossa língua. O português, o galego e o japonês.

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O português, o galego e o japonês
O português, o galego e o japonês

O português, o galego e o japonês

Dizer que o galego e o português estão muito próximos não é um ataque à nossa identidade nem à história da nossa língua. O português, o galego e o japonês.

Uma das partilhas do artigo sobre «10 nomes de línguas de Espanha», onde também falo um pouco do português, mereceu este comentário da leitora Manuela Amaral, no Facebook:

O português como língua independente fez recentemente 800 anos. Galego é galego, português é Português! Quase me apetece dizer que, então, o japonês é português dado as inúmeras palavras portuguesas que os japonês tem. Este artigo é tendencioso e falacioso.

Curiosamente, no tal artigo «tendencioso e falacioso», nunca digo que o galego e o português são a mesma língua. Tentei ser muito cuidadoso. Escrevi apenas que «há quem diga» isso. Ora, é um facto que «há quem diga isso» — concorde-se ou não com essa opinião.

Aliás, basta abrir aquela que é, provavelmente, a mais conhecida gramática da nossa língua (Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra) para vermos mapas onde a área de língua portuguesa inclui a Galiza…

Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.
Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.

No meu artigo, digo ainda que o galego e o português são duas línguas mais próximas do que muitos portugueses pensam. Será isso tendencioso? Não me parece — mas admito que para quem não conhece bem a relação próxima entre o galego e o português, aludir a essa proximidade possa parecer estranho.

Bem mais tendencioso é dar a entender que a relação entre o português e o galego é comparável à relação entre o português e o japonês só porque o japonês tem alguns vocábulos de origem portuguesa.

Olhemos para as línguas em concreto para vermos como o português e o galego estão, de facto, muito próximos. (Vamos olhar para a ortografia; no que toca à sonoridade das línguas, já aqui falei sobre como soa o galego aos ouvidos portugueses.)

O galego é escrito, actualmente, com várias ortografias. Uma delas, a oficial, está mais próxima do castelhano, mas mesmo neste caso torna-se bastante óbvia a proximidade com o português.

Este pequeno parágrafo (da Wikipédia galega) está escrito na ortografia oficial:

Os nomes “Galiza” e “Galicia” derivan da palabra latina Gallaecia (ou Callaecia), que significaba literalmente “terra dos galaicos”. Callaecia “A terra dos Callaeci”, de *kallā- “madeira” co sufixo complexo local -āik-. Máis tarde tornouse Gallicia, actual Galicia ou Galiza. Os galaicos (en latín: Gallaeci, en grego: Καλλαϊκοί) foron o pobo máis numeroso do noroeste da Península Ibérica xa antes da súa integración ao Imperio Romano no século I a.C, aínda que algúns autores consideran que en orixe o termo “galaico” era empregado para denominar unha pequena tribo ao norte do río Douro; sexa como for, este nome acabou por denominar todo un grupo étnico de lingua celta e culturalmente homoxéneo, situado entre omar Cantábrico e o río Douro.

Ora, é possível usar uma ortografia bem mais próxima do português — a ortografia reintegracionista. Esta é usada por vários autores e websites galegos. Veja-se este parágrafo, retirado de uma entrevista a Valentim Fagim:

A Internet é o grande germe normalizador do século XXI, bem como as redes sociais. Em 2015, os 99% dos contactos com o galego internacional são fruto de um clique. Quantas pessoas galegas nas redes sociais não têm um «amigo» ou seguem ou são seguidos por uma pessoa lusógrafa?

Achará mesmo a leitora que ficou incomodada com a minha referência à proximidade das línguas que, mudando um pouco a ortografia do japonês, este fica quase igual ao português?

Não vou usar o truque baixo de citar aqui um texto em japonês… Todos percebemos que estamos a falar de realidades e de distâncias completamente diferentes.

Enfim, sendo assim, porque terá tido a leitora necessidade de criticar a simples alusão ao facto de haver pessoas que afirmam ser o galego e o português a mesma língua com nomes diferentes? Atrevo-me a sugerir que o mundo das línguas latinas está cheio deste medo de sermos confundidos com os outros precisamente porque são todas línguas com um elevado grau de proximidade. O tal medo é tão forte que — pelos vistos — chega a haver portugueses com receio que o galego represente uma ameaça à nossa identidade.

Dizer que o galego e o português estão muito próximos não é um ataque nem à nossa identidade nem à história da nossa língua. Bem pelo contrário: compreender a relação muito próxima entre o português e o idioma da Galiza dá-nos uma visão bem mais completa e rica do percurso e da força da nossa língua.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.

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