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«O comer» é um erro de português?

Há quem fique arrepiado quando ouve alguém dizer «o comer». Só que arrepios não fazem erros.

O comer
«O comer» é um erro de português?

Há quem fique arrepiado quando ouve alguém dizer «o comer». Só que arrepios não fazem erros.

O comer
Marco Neves

Então não é erro? Claro que é! Pois, se «comer» é verbo, usá-lo como nome só mostra ignorância…

Só que não. Se olharmos com um pouquinho mais de atenção para a nossa língua, encontramos tantos verbos transformados em nomes que daria para criar um dicionário inteiro. Temos o saber (que não ocupa lugar), o olhar (que é tão lindo), o falar (daquela terra), o jantar (que está na mesa) — e por aí fora.


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Quem ouve desde pequeno dizer que «o comer» é um crime linguístico já está de dedo em riste: então, se temos a comida em cima da mesa, para quê pôr lá também o comer? Ora, existe na língua uma coisa chamada «sinónimos». Há muitas e muitas palavras que têm significados muito parecidos. Tal não implica que uma delas esteja errada.

Basta pensar no par «sabedoria» e «saber». Não querem dizer exactamente a mesma coisa — mas «comida» e «comer» também não.

Olhemos para o jantar: também tem o sinónimo «a janta» — a diferença, neste caso, é que foi o verbo transformado em nome que ganhou pergaminhos. A janta ficou sentada ao lado do comer.

Por isso, vamos lá parar com esse disparate de querer impedir os verbos de se transformarem em nomes. Ainda nenhum dos nossos bisavós tinha nascido e já os portugueses transformavam verbos em nomes (entre outras malfeitorias). Todos os escritores desta língua usaram verbos transformados em nomes, de Camões ao mais desconhecido dos escribas.


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Aliás: todos nós usamos verbos transformados em nome! Mesmo os que tremem perante «o comer», declarando ódio aos verbos transformados em nomes, não se importam de dizer, na frase seguinte, que o jantar estava muito bom.

Nem sempre reparamos na língua que nos sai dos lábios e dizemos disparates desses, que no fundo servem apenas para dar uma falsa justificação gramatical a uma mera diferença de hábitos linguísticos. Sim, há famílias que não usam «o comer». Há outras que usam. Umas e outras têm certas ideias sobre as restantes. É o que acontece com muitas palavras em todas as línguas.

Enfim. Podemos não gostar da expressão. Podemos evitá-la. Podemos até não gostar de quem a usa (acho um absurdo, mas cada um tem as manias que quiser). O que não podemos é dizer que é um erro transformar um verbo num nome. Não é erro nenhum — e não saber isso mostra falta de atenção ao funcionamento da nossa língua.


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Se sempre ouviu dizer que o comer está na mesa, coma descansado. Se sempre ouviu dizer que não deve usar «o comer» e não quer quebrar esse tabu, não use a palavra. Agora não acuse quem a usa de cair num erro de português. Se o fizer, o erro é seu.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa, A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.

5 COMENTÁRIOS

  1. Tenho três comentários:
    1º. No segundo parágrafo, para resumir os tais verbos transformados em nomes, você utiliza o termo “…e por aí fora”. Aqui, no Brasil utilizo(amos) “por aí AFORA”. Essas variações é que fazem da nossa língua sempre e cada vez mais, mais difícil…rsr

    2º. Já no sexto, incluo-me entre os malfeitores (não na mesma estirpe de Camões, me encaixo mais nos “desconhecidos escribas”…kkkk), pois fiz um verso para uma letra que fala sobre a França e dos franceses, cuja estrofe vou abusar aqui e transcrevê-la abaixo:
    “O amor, ‘O GOSTAR’ de
    São sentimentos múltiplos
    Isso é o que nos diferencia dos demais
    Nossos instintos divergem de outros animais
    Nesse mundo tão vasto
    Como seria se todos gostassem do casto?
    Façais, pois, como Baudelaire: Embriagai-vos!
    Mas, não só de cachaça
    Inclua também, virtude na bagaça.”

    3º. No último parágrafo, quando se refere a “Podemos até não gostar de quem usa (acho um absurdo, mas cada um tem as manias que quiser)”… Para mim ficou meio ambíguo, vez que “acho um absurdo” pode estar no sentido de NÃO GOSTAR DE QUEM USA e/ou no sentido achar um absurdo QUEM USA. Ou será que o absurdo é o que estou dizendo…rsr?!?

    Adoro muito os textos e explicações abordados por vocês. São de grande valia.
    Grande abraço

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