Início Autores Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Pois hoje vou-te dizer. Não me interessa nada a tua reacção. Estás a ver? Já comecei a mentir. É sinal que a minha carta de amor já começou.

Miguel Esteves Cardoso
Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Pois hoje vou-te dizer. Não me interessa nada a tua reacção. Estás a ver? Já comecei a mentir. É sinal que a minha carta de amor já começou.

Miguel Esteves Cardoso

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Ruralidade – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Eu não queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar à conclusão que te amava por uma lenta acumulação de razões, emoções e vantagens. Mas foi ao contrário. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer espécie de aviso, e desde esse dia, que remédio, lá fui acumulando, lentamente, as razões por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras razões, para não te amar, ou não querer saber de ti.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Lisboa – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Custou-me justificar o meu amor por ti. És difícil. És muito bonito e és doce mas és pouco dado a retribuir o amor de quem te ama. Até dás a impressão que tanto te faz seres odiado como amado; que gostas de fingir que estás acima disso, olhando para os portugueses de agora como o céu olha para os passageiros nos aviões.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Açores – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Já que estava apaixonado, sem maneira de me livrar – nem sequer voltando para ti e vivendo contigo mais trinta anos – que remédio tinha eu senão começar a convencer-me que havia razões para te amar.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Braga – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Encontram-se sempre. E, a partir de certa altura, quando já são seis ou sete razões que se foram arranjando ao longo dos anos, deixamos de amaldiçoar este amor que nos prende a ti e, inevitavelmente, começamos a sentir-nos, muito estúpida e secretamente, vaidosos por te amarmos. Como se fôssemos nós que tivéssemos sido escolhidos.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Algarve – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Digo nós mas falo por mim. Digo eu sabendo que não sou só eu, que nós somos muitos. Possivelmente todos. Tragicamente todos, um bocadinho. Se calhar estamos todos, de vez em quando, um bocadinho apaixonados por ti._

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Gerês – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

A tua pergunta bocejada, de país farto de ser amado, amado de mais, aborrecido com tanto amor, apesar da merda que tens feito e da maneira como nos pagas, é sempre a mesma: «Diz-me lá, então, porque é que me amas…»

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Berlengas – Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso

Pois hoje vou-te dizer. Não me interessa nada a tua reacção. Estás a ver? Já comecei a mentir. É sinal que a minha carta de amor já começou.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Descobrimentos – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Amo-te, primeiro, por não seres outro país. Amo-te por seres Portugal e estares cheio de portugueses a falar português. Não há nenhum outro país, por muito bom ou bonito, onde isso aconteça.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Marisco – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Mesmo que não achasse em ti senão defeitos e razões para deixar de te amar, preferia isso, mesmo deixando de te amar, a que não existisses.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Linhares da Beira – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Se deixasses de existir, o meu olhar ficava de luto e nunca mais podia olhar para o resto do mundo com os olhos inteiramente abertos ou secos ou interessados._

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Palácio da Pena, Sintra – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Para que continuasses a existir, mesmo fazendo cada vez mais merda, trocava imediatamente ir-me embora de ti e nunca mais poder voltar e nunca mais poder ver-te, e nunca mais encontrar um português ou uma portuguesa, e nunca mais poder ler ou ouvir a língua portuguesa.

E olha que este é um desejo que muitas vezes tenho.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Nazaré – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Esta é a única verdadeira prova de amor: fazer tudo para que sobreviva quem se ama. Mesmo que nunca mais te víssemos, Portugal, saberíamos que continuavas a existir, que as nossas saudades teriam onde se agarrar. Por muito que mudasses, mal te deixássemos e nunca mais te víssemos, já não mudavas mais.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Alentejo – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Mesmo que não houvesse em ti um único pormenor que não houvesse nos restantes países do mundo, que são muitos; mesmo que houvesse um país escondido que fosse igualzinho a Portugal em todos os pormenores; mesmo assim eu amar-te-ia como se fosses o único país do mundo, diferente em tudo.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Óbidos – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Portanto, já viste, ó Portugal: não preciso de nenhuma razão para te amar. Amo-te sem razão. Amo-te às cegas, antes sequer de olhar para ti. Podes ser o pior país do mundo, ou o melhor, ou o mais monotonamente assim-assim. Não me interessa. Amo-te. Amo-te à mesma. Amo-te antes de falarmos nisso.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Coimbra – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Amo-te tanto que, quando perguntas porque é que eu te amo, não fico nervoso nem irritado. Não preciso de tentar dar uma razão convincente. Amo-te à mesma, fiques ou não convencido._

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Dornes – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

E, mesmo que te aborreças de ouvir todas as razões que tenho para te amar, eu continuarei a dizê-las, porque gosto de dizê-las e porque, que diabo, também eu preciso, às vezes, de me lembrar e de me convencer do quanto eu te amo.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Ruralidade – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Amo-te mesmo que sejas impossível de conhecer ou de descrever. Isto é muito importante. O Portugal que eu conheço e descrevo é apenas o Portugal que eu julgo, se calhar, conhecer (pouco) e descrever (mal).

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Guimarães – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Cada pessoa apaixonada por ti está apaixonada por um Portugal diferente do meu. Até o meu Portugal é, conforme os climas, bastante diferente do meu – para não dizer estrangeiro.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Gafanha da Nazaré – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Por exemplo, uma das razões por que te amo é o teu clima. Acho que tens um bom clima. Mas não julgues que há muitos portugueses apaixonados por ti que concordam comigo. Esses julgam o teu clima dia a dia e hora a hora e gostam dele, quando muito, vinte por cento do ano. Em cada cinco horas do teu clima, gostam de uma e odeiam quatro.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Ruralidade – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Pois eu amo-te sem saber sequer se o teu clima é bom ou mau. Não tenho a certeza, mas não interessa: amo-te mesmo ignorando tudo a teu respeito. Amo-te mesmo estando completamente enganado. A pessoa convencida sou eu. Quem está convencido que ama, quando fala do seu amor, não quer convencer ninguém. Quer declarar que ama. Se é bom ou mau nem secundário é. Fica noutro mundo, onde vivemos.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Porto – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Como vês, não preciso de razões para te amar. Mas tenho muitas. E boas. A primeira delas é secreta e embaraça-me confessá-la: amo-te, Portugal porque, não sei como e contra todas as provas e possibilidades, acho que és o melhor país do mundo._

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Sardinhas – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Pronto. Está dito. É uma vergonha pôr as coisas de uma maneira tão simples. Mas era isto que eu estava há que séculos para te dizer: amo-te, Portugal, por seres o melhor país do mundo.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Bragança – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Como vês não sou o romântico que estava a fingir ser, que te ama sem precisar de razões para isso. Tenho uma razão muito interesseira para te amar: acho que és o melhor país do mundo. Por muito relativista que eu seja noutras coisas, acho mesmo que tive sorte de nascer aqui. Em ti. Aqui, entre nós.

Desculpa.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Évora – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Mesmo assim, insistes em perguntar: que tens tu de tão especial, que os outros países não têm?

Madeira – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Essa íntima vaidade, por exemplo. Tu não és orgulhoso. Mas, muito bem disfarçada, tens uma vaidade sem fim. Dizes-te feio e vestes-te mal mas, quando passas por um espelho, espreitas e achas-te giro. E se alguém te diz que és feio e estás mal vestido, não ficas ofendido – achas que aquela pessoa é obviamente estúpida e não tem olhos na cara.

Serra da Arrábida – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Ou, pelo menos, não tem o discernimento e o bom gosto necessários para apreciar a tua oblíqua mas inegável formosura. A tua beleza, estás convencido, está reservada para os apreciadores. A ralé passa ao lado e não vê: deixá-la passar.

Chaves – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

A tua vaidade é tanta que até te permites um grande desleixo. Sabes que, na terra onde nada plantaste, há-de crescer um jardim preguiçoso que um dia será selvagem e bonito, sem qualquer esforço teu. Deus e o tempo trabalham por tua conta._

Serra da Estrela – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Sabes que a tinta fresca salta muito à vista e que é cansativa. Esperas, despreocupado, pela beleza que há-de vir com a passagem dos tempos. E a vaidade que sussurra, preguiçosamente, a quem insista em aproximar-se: «Sim, eu sei que sou uma casa bonita e não, não me lembro da última vez que fui pintada. Eu cá não preciso de me abonecar.»

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Reguengos de Monsaraz – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

Graças ao desleixo que a tua vaidade consente, mudas menos do que os outros países. As pessoas acham que és conservador, que és contra a mudança. Mas não é isso. És vaidoso e preguiçoso porque achas que não precisas de grandes esforços ou mudanças: sabes que continuas encantador.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Aveiro – Miguel Esteves Cardoso. Amo-te Portugal

O teu desleixo também é causa de muito sofrimento mas não é numa carta de amor que vou falar dele. Também tem consequências agradáveis.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Ruralidade – Amo-te Portugal

Por exemplo, dizes que queres ser um país de primeira categoria. Mas sabemos todos que não queres. Gostas de ser de segunda, como gostas de não ser de terceira. Gostas de ter países melhores do que tu, para visitar ou invocar, quando fazes aquela fita de lamentar que não seja possível teres tudo o que tens de bom, menos tudo o que tens de mau, trocado pelo melhor que houver nos outros países.

Viana do Castelo – Amo-te Portugal

Tu não queres nada a não ser que gostem de ti. E não estás disposto a fazer nada por isso. Nem é preciso serem muitos a gostar. Se calhar, até te bastava um. Aposto que é essa a impressão que consegues dar a cada um dos desgraçados, como eu, que estão apaixonados por ti.

Amo-te Portugal, de Miguel Esteves Cardoso
Figueira da Foz – Amo-te Portugal

Eu poderia perder anos a fazer um cuidadoso retrato de ti. Por muito verosímil que fosse, davas uma olhadela e dizias com desdém, a fazer-te caro ao mesmo tempo: «Isso não sou eu. Isso é outro país qualquer que inventaste…»

Ruralidade – Amo-te Portugal

É a tua maneira, Portugal amado, de garantir que continuaremos a tentar retratar-te. Tanto te faz que o retrato seja feio ou bonito, desde que seja de ti.

Pastéis de Belém – Amo-te Portugal

Quanto mais variados forem, mais gostas. Até tu, nas tuas paisagens, varias e hesitas tanto e recusas-te a decidir, como quem não tem pressa e, no fundo, não escolhe nem decide, porque quer tudo.

Sistelo – Amo-te Portugal

Preferias ser amado por quem tem razões para te odiar? Isso sei eu. Paciência. Eu amo-te porque mereces. Eu amo-te pelas tuas qualidades. Preferias não tê-las. Para que o amor fosse mais puro, mais contraditório, mais injustificável. Mas tens qualidades.
Desculpa lá dizer-te isto, Portugal, mas amar-te é uma coisa simples.

Monsanto – Amo-te Portugal

Amo-te, aconteça o que acontecer. Amo-te por causa de ti. Não é apesar de ti. É por causa de ti. Não há outra razão. Nem podia haver uma razão mais simples.

Navio Escola Sagres – Amo-te Portugal

Por muito que te custe ouvir (apesar de eu saber que não só não te custa nada como gostas de ouvir), digo-te: é tão grande o meu amor por ti que até consigo amar-te sem dar por isso.

Já viste?

Autor: Miguel Esteves Cardoso

Se gostou deste artigo também poderá gostar de:


Fernando Pessoa: 15 fantásticas curiosidades do génio português

Luís de Camões: 5 coisas que talvez não saiba

Língua Portuguesa: 12 palavras que definem Portugal e os portugueses
_

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.