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Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Junto a Alcácer ainda se conseguem vislumbrar os ditos Mestiços do Sado. Alentejanos que descendem directamente dos escravos que lá foram trabalhar o arroz.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Junto a Alcácer ainda se conseguem vislumbrar os ditos Mestiços do Sado. Alentejanos que descendem directamente dos escravos que lá foram trabalhar o arroz.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Lezíria do Tejo – ©José Ferreira – Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Durante séculos a Lezíria e Ribeira do Sado foram um território desabitado, com fama de insalubridade, rodeado de charnecas e gândaras.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Salinas antigas – Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Apenas a exploração das salinas implicava a deslocação de trabalhadores temporários, funcionando o rio como via de comunicação e escoamento de diversos produtos regionais e locais, de onde avultava o sal, produto que pelo menos desde o século XVI a meados do século XX, constituiu a principal actividade económica das regiões ribeirinhas entre Alcácer e Setúbal.

O paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, era um mal endémico, correndo ainda hoje a versão que a pouca população existente em períodos anteriores ao século XX era constituída por africanos – supostamente imunes à doença – aí fixados pela Coroa como forma de assegurar alguma agricultura.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Lenda ou não, o certo é que Leite de Vasconcelos na sua monumental Etnologia Portuguesa, refere e descreve os chamados pretos de Alcácer ou mulatos da Ribeira do Sado, correspondentes a habitantes desta região que apresentavam nítidos traços africanos.

Ribeira do Sado,
Ó Sado, Sadeta.
Meus olhos não viram
Tanta gente preta.

Quem quiser ver moças
Da cor do carvão
Vá dar um passeio
Até São Romão.

(do cancioneiro popular de Alcácer do Sal)

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Assinalada no mapa, a região da Ribeira do Sado – ©A Matéria do Tempo

Ribeira do Sado é o nome de uma região que se estende ao longo do vale do Rio Sado, no sul de Portugal, a partir de Alcácer do Sal e para montante, não longe de Grândola, a Vila Morena. São Romão do Sado é uma das aldeias existentes na referida região.

Quem agora for passear pela Ribeira do Sado, já não verá gente completamente preta diante dos seus olhos, nem na aldeia de São Romão encontrará moças da cor do carvão propriamente dita. A mestiçagem já se consumou por completo.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Mas são por demais evidentes os traços fisionómicos observáveis em muitos dos habitantes da região, assim como a cor mais escura da sua pele, que nos remetem imediatamente para a África a Sul do Sahara.

Nem sequer é preciso percorrer a Ribeira do Sado. Se nos limitarmos a dar uma ou duas voltas pelas ruas de Alcácer do Sal, por certo nos cruzaremos com uma ou mais pessoas que apresentam as características físicas referidas. São os chamados mulatos de Alcácer, por vezes designados também carapinhas do Sado.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

O seu aspeto é semelhante ao de muitos cabo-verdianos, mas não possuem quaisquer laços com as ilhas crioulas. São portugueses, filhos de portugueses, netos de portugueses, bisnetos de portugueses e assim sucessivamente. Quando falam, fazem-no com a característica pronúncia local. São alentejanos.

É frequente atribuir-se ao Marquês de Pombal a iniciativa de promover a fixação de populações negras no vale do Rio Sado. Mas não é verdade. Existem registos paroquiais e do Santo Ofício que referem a existência de uma elevada percentagem de negros e de mestiços em épocas muito anteriores a Pombal. Segundo tais registos, já no séc. XVI havia pessoas de cor negra vivendo nas terras de Alcácer.

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Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

No troço chamado Ribeira do Sado, o vale do Rio Sado é bastante alagadiço e nele se cultiva arroz. Até há menos de cem anos, havia muitos casos de paludismo neste troço. A mortalidade causada pelas febres palustres fazia com que as pessoas evitassem fixar-se na região.

Além disso, no séc. XVI, muitos portugueses embarcaram nas naus que demandaram outras terras e outras riquezas, o que agravou ainda mais o défice demográfico.

Terá sido esta a razão por que, naquela época, os proprietários das férteis terras banhadas pelo Sado terão resolvido povoá-las com negros, comprados nos mercados de escravos. Os mulatos do Sado dos nossos dias são, portanto, descendentes desses antigos escravos negros.

A comprovar a antiguidade do povoamento negro no vale do Sado está o facto de que os atuais mulatos não possuem quaisquer manifestações culturais distintas das dos seus outros conterrâneos, sejam essas manifestações de raiz africana ou outra.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura

Com a passagem dos anos e dos séculos, os costumes, as crenças e as tradições dos antigos escravos negros dissolveram-se por completo na cultura local de raiz europeia e mourisca, integrando-se nela. Também do ponto de vista cultural, portanto, os mulatos de Alcácer são alentejanos legítimos, tão legítimos como os restantes.

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O rio Sorraia percorre terrenos de cultivo de milho e arrozais – ©olharescruzados

Há uma outra região em Portugal onde ocorreu uma fixação de populações negras em número significativo. É o vale do Rio Sorraia, onde fica a vila de Coruche, já em terras do Ribatejo. Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Sorraia havia muito paludismo.

As razões para se ter feito com negros o povoamento desta outra região terão sido, por isso, as mesmas. Mas, ao contrário do que acontece em Alcácer do Sal, dificilmente vislumbraremos traços africanos entre os atuais habitantes de Coruche. Os genes “negros” estão presentes em muitos coruchenses, mas não são facilmente observáveis à vista desarmada.

Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura
Mestiços do Sado: Alentejanos de pele escura – ©A Matéria do Tempo

Tal como no vale do Sado, também no vale do Rio Sorraia se cultiva muito arroz. Por isso, quando comermos arroz português, estaremos a comer arroz que pode muito bem ter sido cultivado por honrados compatriotas nossos que são descendentes de negros.

Vendo bem as coisas, qual é afinal o português que poderá garantir, com absoluta certeza, que não tem antepassados negros?

Autor: Fernando Ribeiro
Fonte: A matéria do tempo
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6 COMENTÁRIOS

  1. Tais caracteres dos Africanos Entre-Tropicais, também se os reconhece ainda hoje, em algumas famílias, em Portel, por exemplo, longe do Rio Sado, ainda que à mesma latitude. Entre tais pessoas já não se nota a cor preta, ou mesmo parda, da pele, que se diluíu com o tempo. O que chama a atenção nuns, é a carapinha do cabelo, às vezes em pessoas de tês clara, noutros a forma do crânio e a da face, mormente o nariz. Segundo eu ouvi, de um Professor geralmente bem informado, nos bancos da Universidade, a vinda de Trabalhadores Angolanos, especialmente para a área do Sado Baixo e para outras partes do Sul, se teria dado no Século XVIII, como medida tomada pelo Governo de Sebastião J. de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, com vista ao Fomento da Lavoura.

  2. O que não invalida, que antes se tivessem fixado escravos, que eram vendidos a quem os pretendia para servirem casas abastadas, e para serviços vários, como também a agricultura , mas segundo li há tempos ,a ideia para despachar tanto negro de Lisboa foi o Marquez de Pombal.

  3. os relatos destes habitantes das zonas alagadiças advém do tempo em que Portugal expandio as suas fronteiras conquistando aos mouros o território, ao libertar os escravos deu-lhes territórios nas zonas mais alagadas, zonas do baixo Mondego, zonas do rio Tejo e Sado. também em algumas regiões de Leiria denotasse que algumas pessoas tem a pele mais escura, a história da escravatura em Portugal começou após a descoberta da américa e os habitantes das provincias portuguesas era proibido serem vendidos como escravos, na Guiné e em todas as possessões portuguesas as pessoas eram marcadas para não terem valor comercial e serem reconhecidas como sendo de posse portuguesa, grande quantidade de povos se refugiavam em territórios sob administração portuguesa, originando o que se passa na Guiné que tem a maior concentração de étnias

  4. Gostei muito deste tema. Eu nasci em Luanda, Angola. O meu Pai era Natural de Beja e a minha Mãe era natural dos Açores, S Miguel.

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