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Língua Portuguesa: qual é o problema da palavra «dica»?

Há pessoas que odeiam esta ou aquela palavra e os argumentos são variados. Mas afinal, qual é o problema da palavra «dica»?

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Língua Portuguesa: qual é o problema da palavra «dica»?

Há pessoas que odeiam esta ou aquela palavra e os argumentos são variados. Mas afinal, qual é o problema da palavra «dica»?

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Marco Neves

Há pessoas que odeiam esta ou aquela palavra. Os argumentos são variados: a palavra X é uma moda irritante; ou então tem significados a mais; ou já há outra palavra com o mesmo sentido; ou é demasiado informal; ou tem origem brasileira…

Sim, aceito que cada um tenha as suas irritações. Mas fico sempre surpreendido quando descubro que uma palavra que muitos de nós usamos sem hesitação é considerada por algumas pessoas como imprópria.


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Ora, hoje descobri que a palavra «dica», que usei alegremente num outro artigo (e no título, vejam lá o desplante!), irrita algumas pessoas. Um comentador no blogue informou-me que é «calão brasileiro». Outro, no Facebook, diz-me que é um «neologismo de origem brasileira», como se isso fosse razão suficiente para não usar a palavra.

Quando lhe disse que há outras palavras relativamente recentes que todos usamos, como «pensar» (no sentido que lhe damos hoje) e «normal» (descobri isso há poucos dias no sítio do costume), o comentador respondeu-me isto: «Palavras recentes que vêm do Latim? E apanhar Pokémons?»

Tento interpretar a resposta e chego a esta conclusão: segundo o comentador, é um disparate dizer que «pensar» e «normal» são recentes. Porquê? Porque vêm do latim. (Quanto à obscura referência aos bichos imaginários, imagino que ele me esteja a tentar incluir na metade do mundo que não percebe nada de nada.)

Ora, olhemos para «normal». Talvez tenha origem latina, mas apareceu-nos através do francês e do castelhano. Da mesma forma, «dica» terá surgido da palavra «indicação», que presumo ter os seus próprios pergaminhos latinos.

Tudo palavras de remota origem latina que andaram a passear e nos chegaram vindas doutras paragens. (Ou, no caso de «pensar», mudaram de significado de forma radical.)

Assim, se aceitamos «normal» e «pensar», qual é o problema de «dica»?

Veio do Brasil. E isso é que não pode ser!

Ora, amigos, a sério, querem mesmo andar a limpar a língua e a perguntar às palavras por onde é que passaram? As palavras andam aos saltos pelas línguas. O inglês absorve palavras como uma esponja e faz ele muito bem. O espanhol também. Até o francês! O português tem em si palavras de todos os tipos e origens. Se quiserem uma língua pura, só com palavras que vieram do latim até aos nossos dias sem sair das nossas fronteiras, mais vale calarem-se, porque não vão ter palavras suficientes para viver.

Alguns dirão: ah, mas temos de aceitar qualquer modismo? Claro que não! Mas peço que não me venham mudar à força a língua que aprendi de pais e professores e encontro nos textos que leio… A palavra «dica» faz parte da minha língua, pelo menos da língua que aprendi. Se já foi um modismo, esse tempo passou há muito. Uso «dica» desde que me lembro e, naquele texto, pareceu-me uma palavra clara e directa. Ainda por cima tem a leveza que procurava.

Sim, há outras palavras com significados semelhantes. Mas não podemos ter várias tintas para compor os nossos textos? «Sugestão» tem um significado parecido, mas é um pouco mais formal. «Truque» pareceu-me demasiado forte, porque não estava a falar de técnicas assim tão desconhecidas ou inovadoras… «Dica» era a palavra certa. Outra pessoa teria escrito outro texto, claro. Mas temos de limitar a língua às palavras que cada um de nós usa?


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Quem escreve todos os dias precisa de palavras diferentes para compor bons textos: palavras com vários pesos e sonoridades; palavras associadas a registos diferentes; palavras com conotações variadas… É disto que se faz a riqueza da língua. Uma vez mais vemos como o purismo — a ideia de que a língua tem de ser pura, sem palavras estrangeiras nem mudança ao longo do tempo — é um dos inimigos do bom português.

Em vez de matarmos palavras, proponho a seguinte receita para defender o bom português: ler muito, ouvir os outros com atenção e compreender que o bom uso da língua, mais do que na origem das palavras que escolhemos usar, está no estilo do texto, na clareza da exposição e na destreza no uso dos materiais ao nosso dispor. E julgo não me enganar se disser que todos temos muito a melhorar nesses aspectos. Proibir palavras não melhora a língua: é só uma perda de tempo.

O que acham desta dica?

Autor: Marco Neves

a origem da palavra «obrigado»

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.

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